Justin Narrando
Enquanto eu e Luan estávamos ali, tentando fingir que não nos importávamos, uma garota do terceiro ano se aproximou. Não lembrava o nome dela, mas já tinha visto algumas vezes pelos corredores.
- Justin, né? -ela sorriu, mordendo o canto do lábio.
Assenti, olhando para ela.
- Isso.
- Tava te procurando. -ela disse, passando os dedos pelo meu braço.- Vi você na festa e pensei… por que não?
Luan soltou uma risada baixa ao meu lado, mas não disse nada. Eu sabia o que ele estava pensando.
- E por que não? -respondi, olhando diretamente para ela.
A garota sorriu ainda mais e segurou minha mão, me puxando para longe dali. Olhei rapidamente para Luan antes de sair, e ele só balançou a cabeça, tomando mais um gole da bebida.
Não demorou muito para estarmos em um dos corredores vazios do dormitório. Assim que ficamos sozinhos, ela me puxou pelo pescoço e me beijou. Era um beijo intenso, urgente, mas vazio. Eu retribuí, tentando me convencer de que aquilo era o que eu queria.
Eu não queria.
Mas precisava disso.
Precisava tampar o vazio que Bruna tinha deixado.
Me afoguei no beijo dela, na sensação do corpo quente contra o meu. Ela não era Bruna. Mas, por algumas horas, eu fingiria que isso não importava.
A garota intensificou o beijo, as mãos deslizando pelo meu peito, e eu correspondi no automático. Eu não sentia nada além de um leve torpor causado pela bebida.
Meus pensamentos estavam em Bruna, como sempre. O jeito que ela mordia o lábio quando ficava sem graça, o brilho nos olhos quando ria de algo idiota que eu falava, a forma como ela ficava linda até gripada e delirando de febre.
- Você tá aqui comigo ou não? -a garota perguntou, puxando meu rosto de volta para o dela.
- Tô aqui. -menti, voltando a beijá-la.
Talvez, se eu fizesse isso o suficiente, em algum momento eu parasse de querer alguém que nunca foi minha de verdade.
A garota entrelaçou os dedos nos meus e puxou de leve, um sorriso sugestivo nos lábios.
- Vamos pra um lugar mais reservado? -ela sussurrou no meu ouvido, roçando os lábios na minha pele.
Eu sabia o que isso significava. Um quarto, um canto qualquer longe da bagunça da festa. Mais beijos, talvez algo mais. Eu não pensei muito antes de assentir. Não queria pensar.
Ela me guiou pelo dormitório, passando por algumas pessoas que estavam conversando encostadas nas paredes, outros já aos beijos contra as portas dos quartos. Ela parou em uma porta semiaberta e me puxou para dentro.
O quarto estava escuro, apenas a luz do corredor iluminava fracamente o espaço, eu não fazia ideia de quem era aquele quarto. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela colou os lábios nos meus de novo, me empurrando contra a porta para fechá-la. Suas mãos subiram pela minha nuca, puxando meus cabelos de leve, enquanto suas unhas arranhavam a pele.
Eu retribuía os beijos, apertava sua cintura, sentia o cheiro do seu perfume misturado com álcool, mas minha mente ainda estava em outro lugar.
Fechei os olhos, tentando afastar essa merda de pensamento. Ela estava com Harry. Eu precisava seguir em frente.
A garota deslizou as mãos pela barra do meu moletom, começando a puxá-lo para cima. Foi aí que eu travei.
- Espera. -segurei suas mãos, respirando fundo.
- O que foi? -ela perguntou, me olhando confusa.
Eu não sabia o que dizer. Eu não sabia nem o que eu estava fazendo ali.
- Eu… não posso. -passei a mão pelo rosto, tentando organizar meus pensamentos.
Ela revirou os olhos, soltando um suspiro impaciente.
- Sério, Bieber? Você me trouxe aqui pra nada?
- Você que me chamou. -retruquei, tentando ignorar a culpa crescente dentro de mim.
- Achei que você quisesse. -ela cruzou os braços, me encarando com um misto de irritação e frustração.
Talvez eu quisesse. Talvez eu só quisesse me sentir desejado por alguém que não me olhava como uma segunda opção.
- Desculpa. Eu… não consigo. -passei a mão pelos cabelos, já pronto para sair dali.
Ela bufou, mas deu de ombros.
- Tudo bem. Mas da próxima vez, tenta não me fazer perder tempo.
Não respondi. Só saí do quarto, me sentindo ainda mais vazio do que quando entrei. Eu queria esquecer. Eu precisava esquecer. Mas parecia impossível.
Voltei para a festa, pegando um copo da primeira bebida que encontrei. Dei um gole longo, sentindo o álcool queimando minha garganta. Talvez isso ajudasse. Talvez se eu me distraísse o suficiente, parasse de pensar nela.
Olhei ao redor, tentando encontrar alguém pra conversar, qualquer coisa que me ocupasse a mente. Foi quando vi Bruna.
Ela estava sentada no sofá, entre Harry e Gabriel, segurando um copo, mas sem beber. Parecia distraída, mordendo o lábio, como se sua mente estivesse em outro lugar. Harry estava falando algo no ouvido dela, e ela deu um sorriso pequeno, mas não parecia muito animada.
Minha mandíbula travou. Eu odiava ver os dois juntos. Odiava o jeito como ele sempre estava perto dela. Como se tivesse algum direito sobre ela.
Antes que eu pudesse me conter, minhas pernas já estavam me levando até lá.
- Bruna. -chamei, me aproximando. Ela ergueu os olhos, parecendo surpresa ao me ver.
- Justin? -ela franziu a testa.- Você tá bem?
- Tô ótimo. -menti, forçando um sorriso. Harry me olhou de cima a baixo, claramente desconfiado.
- O que você quer, Bieber?
Ignorei ele, focando apenas em Bruna.
- Posso falar com você?
Ela hesitou por um momento, mas assentiu.
- Claro.
Ela entregou o copo para Gabriel e se levantou, me seguindo para um canto mais afastado da festa.
- O que foi? -ela cruzou os braços, me olhando curiosa.
Olhei para ela por um instante, lutando contra a vontade de dizer tudo o que estava preso na minha garganta.
“Eu sinto sua falta.”
“Eu odeio te ver com ele.”
“Eu não quero mais fingir que não me importo.”
Mas não disse nada disso.
Apenas respirei fundo e soltei a primeira coisa que me veio à mente:
- Você tá feliz com ele?
Bruna franziu a testa, claramente surpresa com minha pergunta.
- O que você quer dizer com isso?
Eu dei de ombros, tentando parecer mais despreocupado do que realmente estava.
- Só quero saber se você tá feliz com o Harry.
Ela me encarou por alguns segundos, como se tentasse entender onde eu queria chegar. Depois, suspirou.
- Justin...
- Responde. -minha voz saiu um pouco mais firme do que eu pretendia. Bruna passou a mão pelo cabelo e desviou o olhar.
- Ele é um cara legal. -ela disse, hesitante.- Ele me trata bem...
Isso não era uma resposta.
- Mas ele te faz feliz? -pressionei.
Ela me olhou nos olhos e, por um momento, achei que fosse dizer a verdade. Que fosse admitir que não sentia por ele o que eu sentia por ela.
Mas, em vez disso, Bruna apenas forçou um sorriso pequeno e disse:
- Sim.
Meu coração apertou, mas eu apenas assenti, fingindo acreditar.
- Que bom, então.
Fiz menção de me afastar, mas ela segurou meu braço.
- Justin, por que você tá perguntando isso?
Eu ri sem humor.
- Você sabe por quê.
Ela não respondeu. Apenas ficou me encarando, como se esperasse que eu falasse primeiro.
Mas eu já tinha feito essa besteira antes. Já tinha me exposto, me jogado aos pés dela, e o que eu ganhei com isso? Nada.
Então, apenas soltei meu braço do dela e dei um passo para trás.
- Aproveita a festa, Bruna.
E, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, me virei e voltei para o meio da festa, pegando outro copo de bebida e procurando outra distração.
Alguns dias depois...
Os dias passaram rápido, e logo eu estava em Nova Jersey, na casa da minha mãe. A viagem foi tranquila, mas minha mente estava uma bagunça. Era véspera de Natal, e a casa estava cheia. Minha mãe estava animada organizando tudo com Charlie, ele era chefe da polícia, e mesmo com a rotina agitada, fazia questão de estar presente nessas datas.
A família da minha mãe também estava lá para comemorar. Meus avós, Diane e Bruce, estavam sentados na sala, conversando animadamente. Meu tio Chris, irmão da minha mãe, chegou mais tarde, trazendo alguns presentes e reclamando do trânsito.
- Justin! -minha mãe sorriu ao me ver descendo as escadas.- Finalmente acordou!
- Oi, mãe. -respondi, esfregando os olhos.
- Vem cá, me ajuda a terminar de colocar as coisas na mesa. -ela pediu, já puxando meu braço.
Eu obedeci, pegando alguns pratos e levando até a sala de jantar.
- Então, garoto, como está a faculdade? -meu avô perguntou, ajeitando os óculos.
- Tá indo. -respondi, dando de ombros.
- E as garotas? -tio Chris brincou, rindo.
- Isso ele não pode reclamar. -minha avó Diane disse, sorrindo.- Sempre teve um jeito com elas.
Eu ri de leve, mas por dentro, aquilo não fazia mais sentido. Desde que voltei pra casa, tudo parecia fora do lugar. Eu saía, encontrava algumas garotas, ficava com elas... mas o vazio continuava ali.
Minha mãe percebeu meu silêncio e mudou de assunto.
- Ah, já arrumou sua mala pra amanhã?
- Amanhã? -perguntei, franzindo a testa.
- Sim! Vamos pra Toronto. -minha mãe respondeu, sorrindo animada.- Passar uns dias lá, aproveitar o inverno, ver uns amigos…
- Toronto? -repeti, meio surpreso.
- Sim, Justin. Você não lembra? Eu comentei no dia que você chegou, há 4 dias. -ela cruzou os braços.
Eu definitivamente não lembrava, mas não quis contrariar.
- Ah… claro, lembro sim. -menti, pegando um pedaço de pão na mesa.
- Então já vai deixando sua mala pronta, hein. -Charlie entrou na conversa, servindo-se de uma bebida.- Não quero ninguém enrolando de manhã.
Assenti, ainda tentando processar a ideia. Toronto… Fazia tempo que eu não ia pra lá. A cidade sempre me trazia boas lembranças, mas agora, minha mente estava tão tumultuada que eu não sabia se queria essa viagem ou não.
- Vai ser bom pra você, filho. -minha mãe disse, me encarando com aquele olhar carinhoso, mas perspicaz. Ela sabia que algo estava errado comigo.
Decidi que não ia passar essa viagem todo melancólico. Minha vida não girava em torno de Bruna, e ela nem estava aqui agora. Estava no Brasil, provavelmente curtindo as festas de fim de ano com a família. Então, eu precisava aproveitar também.
- Certo, então partiu Toronto! -falei, erguendo meu copo.
- Aí sim, garoto! -tio Chris riu, batendo seu copo no meu.- Quero ver você animado.
- Ah, ele vai ficar. -minha avó disse, sorrindo de lado.- Ainda mais sabendo que o Christian e o Chaz estão esperando ele lá.
Arregalei os olhos.
- O quê? Eles vão estar lá?
Minha mãe assentiu.
- Eu avisei a mãe do Chaz que estaríamos por lá, e ela achou uma ótima ideia vocês se reencontrarem.
Ok, agora sim as coisas estavam melhorando. Fazia um tempo que eu não via meus amigos de infância, e passar o Ano Novo com eles parecia exatamente o que eu precisava.
- Tá falando sério? -sorri de verdade agora.
- Claro! -ela riu.- Você acha que eu ia te arrastar pra uma viagem chata?
- Você é a melhor! -levantei e abracei minha mãe.
- Eu sei! Agora vai fazer sua mala, que amanhã partimos cedo.
Subi para o quarto bem mais animado. Talvez esse final de ano não fosse ser tão ruim assim.
No dia seguinte, acordei cedo com minha mãe batendo na porta.
- Vamos, dorminhoco! O voo é em três horas!
Levantei meio grogue, mas conforme fui me arrumando, a empolgação voltou. Toronto. Chris e Chaz. Um tempo longe de todas as coisas complicadas. Isso parecia perfeito.
O voo foi tranquilo, e quando chegamos, o frio de Toronto me atingiu em cheio. Felizmente, eu estava bem agasalhado. Assim que passamos pela área de desembarque, avistei Chris e Chaz nos esperando.
- Ei, moleque! -Chris veio me abraçar.- Quanto tempo!
- Nem fala! -Chaz riu, me dando um soquinho no ombro.- Já tava na hora de você voltar pra cá.
- É só uma visita, não se empolguem. -brinquei.
Charlie e minha mãe cumprimentaram os pais deles, e logo estávamos no carro, indo para a casa dos Somers, onde passaríamos a semana.
Assim que chegamos, não demorou muito para começarmos a relembrar os velhos tempos.
- Cara, lembra quando a gente tentou andar de skate no gelo e quase morreu? -Chris disse, rindo.
- Como esquecer? Meu joelho ainda tem uma cicatriz daquela queda! -respondi, fazendo nós três caírem na risada.
O clima era leve, divertido. Pela primeira vez em semanas, eu não estava pensando no que ficou para trás. Eu estava curtindo o presente, e aquilo era exatamente o que eu precisava.
- Certo, temos que comemorar sua volta! -Chaz disse, animado.- Hoje à noite tem uma festa incrível rolando, e a gente já conseguiu nosso convite.
- Festa? -arqueei a sobrancelha.
- Sim, e você não vai escapar. -Chris falou.- Hoje é dia de esquecer qualquer problema e só curtir.
Pensei por um momento. Talvez fosse uma boa ideia.
- Tá bom, tô dentro!
- Aí sim! -eles comemoraram, e eu senti que essa viagem ia ser inesquecível.
A tarde passou rápido entre risadas e histórias de quando éramos mais novos. Estar com Chris e Chaz de novo me fez sentir que nada tinha mudado, como se o tempo tivesse parado.
Quando chegamos na festa, o lugar já estava lotado. O som alto, luzes coloridas piscando, gente rindo e bebendo por todo lado.
Chris e Chaz se misturaram rápido, cumprimentando várias pessoas. Eu fui pegar uma bebida, tentando me ambientar, quando ouvi uma voz familiar atrás de mim.
- Então o garoto prodígio voltou pra cidade.
Virei devagar e lá estava ela. Caitlin.
Caitlin foi meu primeiro amor, minha primeira namorada. Tínhamos sido inseparáveis quando crianças, e depois namoramos por um tempo. Mas a vida nos levou para caminhos diferentes.
Ela estava diferente, mais madura, mas o sorriso continuava o mesmo.
- E você continua sabendo como fazer uma entrada. -respondi, sorrindo.
- Bom te ver, Justin. -ela disse, e, por um segundo, parecia que o tempo tinha voltado.
Talvez essa viagem fosse trazer mais surpresas do que eu imaginava.