Luan Narrando
01 de Janeiro de 2025 – 09:00 da manhã
Acordei com o sol batendo direto no meu rosto, me fazendo estreitar os olhos e resmungar. Minha cabeça latejava, minha boca estava seca, e meu corpo inteiro doía.
- Que porra…
Pisquei algumas vezes, tentando entender onde eu estava, e então percebi.
Eu tinha dormido na cadeira de área.
Puta merda.
Passei a mão no rosto e sentei devagar, sentindo minha cabeça girar. Olhei ao redor e vi o estrago da festa da noite anterior: garrafas de cerveja e copos espalhados pelo chão, cadeiras viradas.
Olhei para minha camiseta – estava fedendo caipirinha.
- Ótimo, Luan. Muito adulto da sua parte.
Apoiei os cotovelos nos joelhos e passei as mãos pelo cabelo bagunçado, tentando juntar os pedaços da minha memória. Lembrei de Bruna bêbada dançando sem parar, das minhas tias rindo e fofocando, do churrasco que rolou até de madrugada… e da quantidade absurda de caipirinha que eu tinha bebido.
- Bom dia, pinguço. -ouvi a voz da Bruna e levantei a cabeça.
Ela estava péssima, com óculos escuros enormes no rosto, segurando um copo de café.
- Que horas são? -perguntei, com a voz rouca.
- Já passou das nove.
Soltei um gemido de dor e joguei a cabeça para trás.
- Cara, eu preciso de um banho e de um remédio pra ressaca.
- Eu fiz café, acho que ajuda um pouco. -Bruna riu e se sentou ao meu lado na outra cadeira.
Peguei o copo de café que ela me estendeu e tomei um gole, sentindo a bebida quente descer queimando.
- Você tá tão ferrado. A mãe vai surtar quando te ver assim.
- Ela nem vai notar.
- Luan, cê dormiu na cadeira de área, velho.
Revirei os olhos, tomando mais café. Bruna ficou mexendo no celular, e eu notei que ela estava estranhamente quieta.
- Tá tudo bem? -perguntei.
Ela mordeu o lábio e deu um longo suspiro.
- Eu fiz merda ontem.
- Que tipo de merda?
- Eu mandei um áudio enganado para o Justin.
- Caralho, Bruna. O que você disse?
Ela gemeu, afundando o rosto nas mãos.
- Eu achei que tava mandando pro Harry… e soltei um monte de coisa aleatória… chamei ele de gato, gostoso, e, no final, falei que amava ele.
Eu arregalei os olhos.
- Puta que pariu.
- Eu ia apagar, mas ele já tinha escutado.
Soltei um assobio baixo.
- E ele respondeu?
Ela balançou a cabeça.
- Não entrei no whatsapp depois disso.
Fiquei olhando para ela.
- Bruna, pelo amor de Deus, abre essa mensagem! -pedi, quase arrancando o celular da mão dela.
- Não! Eu tô com medo! -ela gemeu, escondendo o rosto nas mãos.
- Medo do quê? De descobrir que ele gostou?
Ela me lançou um olhar mortal por trás dos óculos escuros.
- Medo de descobrir que ele riu da minha cara, que me achou uma idiota, ou pior… que ele nem respondeu!
- Bruna… -soltei um suspiro, esfregando o rosto.- Minha vida depende disso agora. Eu tô ressaqueado, dormi na cadeira de área, e preciso de entretenimento. Então, pelo bem da minha saúde, abre essa porra!
Ela bufou, hesitante, olhando para a tela do celular.
- Se ele não respondeu, eu vou fingir que nunca aconteceu.
- E se ele respondeu?
Ela respirou fundo, hesitando por alguns segundos, e então tocou na conversa.
Ficamos em silêncio, esperando o desastre.
- Ah, não… -murmurou, levando a mão à boca.
- O que foi? -me aproximei mais, tentando espiar a tela.
Ela virou o celular rapidamente, como se estivesse protegendo um segredo de estado.
- Ele respondeu.
- E o que ele disse?!
Ela engoliu seco antes de ler em voz alta:
- "Bruna, eu não sabia que você se sentia assim por mim... Eu também sinto sua falta. Podemos conversar quando voltarmos para Nova York? Feliz Ano Novo, baby."
Eu arregalei os olhos.
- "Baby"?!
Bruna largou o celular no colo, cobrindo o rosto com as mãos.
- Meu Deus, Luan, ele acha que a mensagem foi pra ele! O que eu faço?!
- Bom… você pode dizer a verdade e acabar com a felicidade do menino, ou… -fiz uma pausa dramática.- Você pode fingir que é verdade e ver onde isso vai dar.
Ela me olhou, horrorizada.
- Luan!
- O quê? Só tô dizendo que pode ser divertido.
- Isso é cruel! E eu tenho namorado.
- Então diz a verdade.
- Não posso! Ele vai ficar muito mal!
- Então finge.
- Eu não posso fingir!
- Bruna, decide!
Ela respirou fundo, pegou o celular e começou a digitar, hesitante. Eu me inclinei pra espiar.
- O que você vai dizer?
Ela mordeu o lábio e murmurou:
- Acho que… vou agradecer. E… ver o que acontece depois.
2 dias depois...
Sexta-feira, dia 3 de Janeiro de 2025
O som do motor do avião era um zumbido constante, e eu já estava cansado daquela viagem. Bruna, ao meu lado, tamborilava os dedos no braço da poltrona e bufava de tempos em tempos. Ela estava tensa, e eu sabia exatamente o motivo. Não era o voo, não era o retorno às aulas, era Justin.
- Se surpreende que mesmo bêbada, ainda mandei um áudio em inglês pra ele? -ela resmungou, cruzando os braços.
- Totalmente. -dei uma risada, inclinando minha cabeça para trás no assento.- Isso mostra que, mesmo quando tá completamente fora de si, seu cérebro ainda trabalha direitinho.
- Ah, cala a boca, Luan! -ela bufou, escondendo o rosto nas mãos.- Nem pra ter falado em português, pelo menos ele não teria entendido!
Ri de novo e virei para ela, me apoiando no apoio de braço.
- Bruna, você tá surtando à toa. Ele gostou da mensagem, não te zoou, não te ignorou. Na verdade, ele te chamou de “baby”, o que é meio fofo.
Ela bufou ainda mais alto.
- Exatamente o problema! Agora ele acha que eu gosto dele de um jeito que eu não gosto! E eu vou ter que encarar ele segunda-feira, Luan! Segunda-feira!
- E daí? Você age normal. Ele não vai te pedir em casamento só porque você mandou um “eu te amo” sem querer.
Ela virou a cabeça devagar para mim, semicerrando os olhos.
- Você tem noção do que você tá falando? Isso não é uma coisa que se esquece fácil!
Ergui as mãos, me rendendo.
- Tá bom, tá bom! Mas pensa pelo lado bom, você vai ver como ele reage pessoalmente e decidir o que fazer.
Bruna virou o rosto para a janela, mordendo o lábio.
- Luan, eu namoro, esqueceu? Eu não vou trair o Harry.
- Bruna, acho que você traiu o Harry assim que mandou "eu te amo" pra outro cara e não explicou que foi errado. -ela bufou.
- Eu não quero pensar nisso agora…
- Ótimo, porque agora eu só quero chegar em Nova York, tomar um banho e dormir.
Ela soltou um suspiro cansado e se afundou no assento.
- Pelo menos nisso eu concordo com você.
[...]
Depois de dez horas de voo, minha paciência tinha se esgotado. Eu só queria tomar um banho, deitar na minha cama e dormir até segunda-feira. Bruna também parecia exausta, mas dava para ver que, no fundo, o nervosismo dela só aumentava à medida que nos aproximávamos do campus.
Descemos do Uber, pegamos nossas malas e fomos direto para os dormitórios. O frio de Nova York contrastava totalmente com o calor do Brasil, e eu tremi quando uma rajada de vento gelado bateu em mim.
- Eu odeio esse frio! -Bruna resmungou, puxando o casaco mais para perto do corpo.
- Você reclama do calor no Brasil e agora reclama do frio aqui. Decide, mulher.
Ela revirou os olhos, me lançando um olhar mortal, mas antes que pudesse retrucar, nossos caminhos se separaram.
- Boa sorte com o Justin! -gritei, rindo, enquanto ela me mostrava o dedo do meio e seguia para o prédio das meninas.
Entrei no meu dormitório e encontrei Anthony e Ryan jogados na sala. Anthony estava com um saco de salgadinhos na mão, enquanto Ryan mexia no celular. Assim que me viram, abriram um sorrisão.
- Olha só quem voltou! -Anthony disse, se levantando e vindo me cumprimentar.- Como foi o Brasil?
- Quente pra caralho. -joguei minha mala num canto e suspirei, sentindo meu corpo pesar de cansaço.- Mas foi ótimo. E vocês?
- Chato como sempre. Fiquei na casa dos meus pais, e Ryan ficou aqui na cidade.
- Passamos o Ano Novo juntos. -Ryan acrescentou.- E você?
- Passei com minha família, no Pantanal. Muita festa, muita bebida… tanto que dormi numa cadeira de área.
Os dois caíram na risada.
- Clássico. -Anthony disse, balançando a cabeça.- Mas e aí, pronto para encarar a volta às aulas?
- Nem um pouco.
Me joguei no sofá e fechei os olhos, sentindo a exaustão finalmente me pegar.
- E Bruna? -Ryan perguntou.- Ela já foi ver o Harry?
Abri um olho e ri.
- Ah, cara… isso vai ser um show à parte. Tenho algo para contar pra vocês sobre Bruna e o Justin.
Os dois me olharam, curiosos, e eu sabia que teria que contar toda a história do áudio enviado errado.
Mas antes disso… eu precisava de um banho.
Saí do banho me sentindo outro homem. A água quente ajudou a aliviar parte do cansaço da viagem, mas eu ainda precisava de pelo menos dez horas de sono para me recuperar totalmente. Vesti uma calça de moletom e uma camiseta, saindo do banheiro já esperando que Anthony e Ryan fossem me bombardear com perguntas sobre Bruna e Justin.
E eu estava certo.
- Agora conta essa história direito! -Anthony exigiu, jogando um travesseiro em mim.- O que rolou entre sua irmã e o Bieber?
Joguei o travesseiro de volta nele e me joguei no sofá.
- Foi um erro clássico de bêbado. -comecei, cruzando os braços atrás da cabeça.- Bruna estava completamente louca na festa de Ano Novo e mandou um áudio achando que era pro Harry. Mas, na verdade, foi pro Justin.
Ryan ergueu uma sobrancelha.
- O que ela disse?
- Chamou ele de gato, gostoso, disse que estava com saudade e, pra fechar com chave de ouro, soltou um "eu te amo".
Os dois arregalaram os olhos ao mesmo tempo.
- Não acredito! -Anthony disse, já rindo.- E o Bieber?
- Ele respondeu. -dei um sorriso divertido.- Disse que não sabia que ela se sentia assim por ele, que também sente falta dela e chamou ela de "baby".
Ryan se jogou para trás no sofá, gargalhando.
- Isso tá muito bom!
- E o Harry? -Anthony perguntou.
- Ah, ele não sabe de nada… ainda.
Ryan soltou um assobio baixo.
- Cara, isso vai dar um problemão.
- Com certeza. -concordei, rindo.- Mas Bruna ainda não decidiu como vai lidar com isso.
Anthony se inclinou para frente, com um brilho nos olhos.
- Você acha que ela sente alguma coisa pelo Justin?
Fiquei em silêncio por um momento, pensando.
- Não sei… Mas também não sei se ela tem tanta certeza assim.
Os dois se entreolharam, já cheios de teorias sobre o que poderia acontecer.
- Aposto que até o fim do semestre ela larga o Harry. -Anthony disse.
- Aposto que o Justin vai acabar tomando alguma atitude primeiro. -Ryan acrescentou.
- Aposto que vou dormir agora, porque tô pouco me fodendo pra esses dramas. -murmurei, me levantando.
Eles riram, e eu fui direto para meu quarto.
Deitei na cama e puxei as cobertas, mas antes de fechar os olhos, me peguei pensando nela.
Marina.
Fazia semanas que não nos falávamos direito. Desde que as aulas terminaram, cada um seguiu para o seu canto, e as únicas interações foram algumas curtidas em fotos. Mas agora, de volta ao campus, eu sabia que ia encontrá-la.
E, porra… eu não fazia ideia de como agir.
Me virei na cama, soltando um suspiro frustrado. Será que ela também pensou em mim? Será que sentiu minha falta? Ou será que eu era só mais um nome na lista de contatos dela?
Droga.
Passei a mão no rosto, tentando afastar esses pensamentos.
Mas era impossível.
Eu ainda não tinha superado Marina.
E o problema era que eu nem sabia se queria superar.
No outro dia...
O barulho frenético dos botões do controle de videogame preenchia o quarto, enquanto eu e Anthony estávamos completamente focados na partida. Ele mordia o lábio, concentrado, tentando me vencer, mas eu não ia deixar barato.
Ryan, por outro lado, estava jogado no sofá, com a cabeça apoiada no braço do estofado e os olhos semicerrados. Ele nem fingia interesse no jogo.
- Como vocês têm energia pra isso? -ele resmungou, com a voz ainda rouca de sono.
- A gente tem espírito competitivo, irmão. -Anthony rebateu, sem tirar os olhos da tela.
- Espírito competitivo o caralho. -Ryan bocejou.- Tô com sono.
- Tu dormiu a noite inteira.
- Independente. -ele fechou os olhos.- Acordem quando for hora do almoço.
Eu ia rir da preguiça dele, mas, antes disso, a porta do quarto se abriu com um empurrão, e Justin apareceu.
- Cheguei!
Ele entrou arrastando uma mala, com um boné virado pra trás e um moletom folgado. O cara parecia um pouco cansado, mas trazia um sorrisinho no rosto.
- E aí, mano! -Anthony pausou o jogo e levantou pra cumprimentá-lo.
- Finalmente! -Ryan resmungou, sem nem abrir os olhos.- Agora podemos dividir as atenções, e esses dois param de jogar.
Justin riu e jogou a mala num canto do dormitório.
- Como foi o voo? -perguntei, largando o controle.
- Longo. Mas tô bem. -ele se jogou numa poltrona e tirou o boné, passando a mão pelo cabelo bagunçado.
- Passou o ano novo com a família? -Anthony perguntou.
- Sim. Fiquei em Toronto esses dias.
Senti os olhos de Ryan se abrirem devagar.
- Toronto, é?
Anthony e eu trocamos um olhar rápido, sabendo exatamente onde essa conversa ia parar.
Justin arqueou a sobrancelha.
- Qual é, por que essa cara?
Ryan sorriu de lado.
- Porque queremos saber da Caitlin.
O sorrisinho de Justin desapareceu, e ele revirou os olhos.
- Sério?
- Ué, tu postou foto com a garota. Agora explica.
Justin suspirou, cruzando os braços.
- Eu e Caitlin somos amigos há muito tempo, cara. Só isso.
- Mas será que só isso mesmo? -Anthony provocou.
Eu observei Justin atentamente. Ele era péssimo em esconder coisas, e, pelo jeito que desviou o olhar e coçou a nuca, alguma coisa tinha aí.
- Ahhh, então tem alguma coisa rolando, sim. -Ryan concluiu, se ajeitando no sofá.
- Não tem nada! -Justin riu, negando com a cabeça.
- E a Bruna? -perguntei de repente, e ele travou.
Silêncio.
E foi nesse momento que eu soube que pegamos ele.
Ryan arregalou os olhos.
- Espera… Justin, vocês se falaram?
Ele hesitou.
- Mais ou menos.
- Como assim, "mais ou menos"?
Justin suspirou, parecendo desconfortável.
- Ela me mandou uma mensagem no ano novo.
Eu e Anthony nos entreolhamos.
Ryan franziu o cenho.
- Tá, e o que ela disse?
Justin coçou a nuca novamente, parecendo meio sem graça.
- Ela… meio que disse que me amava.
Os três ficamos em silêncio por um segundo. Nós estávamos super fingindo que ninguém sabia dessa história.
- O quê? -Anthony arregalou os olhos.
- Como assim?! -Ryan sentou no sofá, despertando completamente do sono. Justin deu um sorriso de lado.
- Pois é. Foi inesperado.
Mordi o lábio, segurando uma risada. Bruna ia surtar quando soubesse que isso tinha virado assunto entre a gente.
- E o que você respondeu? -perguntei, curioso.
Justin deu de ombros.
- Desejei feliz ano novo e disse que a gente podia conversar quando voltasse.
- E ela?
- Só agradeceu.
Anthony assobiou baixo.
- Cara… isso vai ser interessante.
Justin deu um sorriso fechado e balançou a cabeça.
- Só quero ver o que ela vai dizer quando nos encontrarmos.
E eu também.
Muito.