Luan Narrando
Eu olhei para Justin de relance enquanto os aplausos ainda ecoavam pelo auditório. Ele mantinha a cabeça baixa, como se tentasse evitar os olhares. Mas eu sabia que, no fundo, ele estava esperando uma reação específica.
Meu olhar desviou para Bruna. Ela estava imóvel, encarando a tela preta que restou após o clipe acabar. Seu rosto estava indecifrável, mas suas mãos apertavam a barra do casaco.
Não precisava ser gênio para entender.
A música era sobre ela.
Soltei um suspiro e passei a mão no rosto. Eu sabia exatamente o que Justin estava sentindo, porque eu sentia o mesmo em relação a Marina.
Era frustrante.
Antes que eu pudesse pensar em mais alguma coisa, a voz do professor soou pelo microfone:
- Muito bem, Justin. Ótimo trabalho. Vamos para o próximo.
A tela se acendeu de novo, e a introdução do novo clipe começou a tocar. Mas minha cabeça estava longe dali.
Ajeitei-me na cadeira e cruzei os braços. Meu olhar foi parar, sem querer, em Marina, que estava sentada lá no fundo.
Ela estava quieta ao lado de Bruna, ela não parecia surpresa com a música do Justin. Na verdade, parecia que ela já esperava por aquilo.
Marina virou o rosto e nossos olhares se cruzaram.
Foi rápido, mas o suficiente para fazer meu estômago revirar.
Ela desviou primeiro, voltando a encarar a tela.
Apertei os punhos.
A verdade era que eu entendia Justin mais do que gostaria de admitir. Eu também tinha um monte de sentimentos presos dentro de mim, mas, ao contrário dele, eu nunca consegui colocá-los em uma música.
E, talvez, nunca fosse conseguir.
O clipe acabou, o professor fez seu comentário e foi pro próximo, assim que a primeira nota tocou, senti um frio na barriga.
Na tela, meu clipe começou a rodar. Gravei o clipe na água e na edição, fizemos como se tivesse no mar, enquanto eu cantava.
Cantei em português, mas adicionei a tradução em inglês nas legendas. Meu peito apertou ao ouvir minha própria voz ecoando pelo auditório:
"Quero que prometa, que se comprometa
A ir procurar outro amor em outro planeta
Pra que eu não te veja sentada na mesa
Rindo à toa enquanto outra boca te beija, ai, ai, ai…"
Meus olhos, involuntariamente, buscaram Marina.
Ela estava imóvel. Os olhos presos na tela, a expressão indecifrável. Mas eu vi quando ela engoliu em seco.
A música continuou, e cada palavra parecia pesar mais do que a anterior.
"Vou engolir meu coração pra me amar por dentro
Que nós dois sabemos que tanto sofrimento
É perda de tempo, é perda de tempo…"
Suspirei e abaixei a cabeça.
Eu sabia que ela entenderia a mensagem. Assim como Justin fez questão de expressar tudo o que sentia por Bruna através da música, eu estava fazendo o mesmo. Só que, ao contrário dele, eu não esperava nada em troca.
Era apenas o que eu sentia.
Quando o clipe terminou, um silêncio tomou conta do auditório por alguns segundos antes dos aplausos começarem.
Eu não olhei para Marina de novo.
Não queria ver sua reação.
Porque, no fundo, eu já sabia.
Assim que os aplausos foram diminuindo, o professor elogiou minha performance e chamou o próximo clipe. Mas minha mente já não estava mais ali.
Me afundei no assento e passei a mão no rosto, tentando controlar a bagunça de sentimentos dentro de mim.
Não sabia se Marina havia gostado, se havia entendido o recado ou se apenas ignoraria como sempre fazia quando o assunto era nós dois. Mas algo me dizia que aquela música tinha mexido com ela.
Apenas respirei fundo e tentei focar nos outros clipes. Mas foi impossível não desviar o olhar de vez em quando para trás, onde Marina estava sentada.
Ela não parecia mais tão relaxada como antes.
Marina evitava olhar para mim. Mantinha os olhos fixos na tela, mas mordia o lábio inferior, o que ela sempre fazia quando estava nervosa ou pensativa.
Depois que todos os clipes passaram, o professor fez alguns comentários gerais sobre a edição, interpretação e criatividade de cada um. Mas eu mal consegui prestar atenção. Minha mente estava em outro lugar.
Assim que a exibição terminou, os alunos começaram a se dispersar, comentando sobre os clipes uns dos outros. Justin passou por mim sem dizer nada, o que só confirmou minha suspeita de que ele também estava perdido em pensamentos.
Fui saindo do auditório, ainda sentindo um peso no peito. Mas antes que eu pudesse chegar à porta, ouvi alguém me chamar:
- Luan. -virei e encontrei Marina parada ali, me olhando.
Ela parecia meio hesitante, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas.
- Oi. -respondi, me aproximando um pouco. Ela respirou fundo, cruzando os braços.
- A música… foi pra mim, não foi?
Senti meu coração disparar, mas mantive a expressão séria.
- Você sabe que foi.
Marina desviou o olhar por um instante, mordendo o lábio como sempre fazia quando estava nervosa.
- Luan…
- Eu não tô te cobrando nada, Marina. Só queria que você soubesse.
Ela me olhou de novo, e por um momento, achei que fosse dizer alguma coisa. Mas então, apenas suspirou e assentiu levemente.
- Eu sei.
Foi tudo o que ela disse antes de dar um meio sorriso e sair do auditório.
Fiquei ali parado por um tempo, sentindo que, mesmo sem muitas palavras, aquele momento tinha significado algo.
Mais tarde...
Harry havia organizado uma festa no seu dormitório, a última do ano, antes de entrarmos oficialmente de férias.
Segui Justin, Anthony e Ryan até o dormitório do Harry, onde a festa já estava rolando. O som alto ecoava pelos corredores, e algumas pessoas já pareciam meio alteradas. Vesti minha jaqueta mais forte e enfiei as mãos nos bolsos, sentindo o vento gelado da neve ainda no meu rosto.
Assim que entramos, Justin, Anthony e Ryan foram direto pra onde um grupo de garotas estavam. Eu fiquei para trás, sem muita vontade de procurar companhia. Preferia observar.
Meus olhos logo encontraram Marina. Ela estava sentada no sofá, ao lado do Victor, rodeada por algumas pessoas de outras turmas. Parecia tranquila, mas algo me fez prestar mais atenção.
Victor se inclinou sobre a mesa no centro do grupo e começou a cheirar um pó branco espalhado sobre a superfície. Revirei os olhos. Eu já imaginava que esse cara não prestava.
Ele se virou para Marina e ofereceu, deslizando um pacotinho pequeno na direção dela.
Ela negou com a cabeça, apertando os lábios e desviando o olhar.
Observei cada detalhe. A forma como Victor tentou insistir, como se aquilo fosse normal. A forma como Marina recuou um pouco, desconfortável.
Apertei os punhos dentro do bolso da jaqueta, me segurando para não intervir. Eu sabia que não tinha o direito de me meter na vida dela, mas algo dentro de mim dizia que essa história não ia acabar bem.
Victor deu de ombros e voltou a se inclinar sobre a mesa, consumindo mais um pouco da droga. Marina cruzou os braços, desviando o olhar para as outras pessoas ao redor.
Eu continuei observando de longe, sentindo um incômodo crescer dentro de mim. Ela não pertencia àquele ambiente. Era óbvio que não estava à vontade, mas por algum motivo, ainda estava ali, presa naquela cena.
Harry apareceu do outro lado da sala com Bruna, segurando-a pela cintura. Ele parecia animado, conversando com algumas pessoas enquanto Bruna sorria discretamente. Mesmo assim, percebi que ela me olhou rapidamente antes de voltar sua atenção para ele.
Justin passou por mim com dois copos nas mãos e me chamou.
- Tá com uma cara péssima. -ele comentou, rindo, me entregando um dos copos.
- Só tô de olho. -respondi, dando um leve aceno de cabeça na direção de Marina. Justin seguiu meu olhar e franziu a testa.
- Ela tá bem?
- Não sei. Mas não gosto desse cara.
Justin assentiu. Ele também já tinha deixado claro que não ia com a cara do Victor.
- Se ela precisar de ajuda, ela vai falar. -ele disse.
Talvez ele estivesse certo. Mas algo me dizia que Marina não falaria nada. Ela só ia suportar até encontrar uma desculpa para sair dali.
E eu não sabia se conseguiria assistir a isso calado.
Bebi um gole da mistura forte antes de me sentar no braço do sofá, bem ao lado de Marina. Ela se encolheu levemente, surpresa com minha presença repentina. Seus olhos encontraram os meus por um breve instante antes de desviar para Victor, que ergueu o olhar e franziu a testa.
- Sai de perto da minha mina, Santana. -ele disse, sua voz carregada de arrogância.
Dei um gole mais longo na bebida antes de responder, mantendo um sorriso irônico.
- Relaxa, cara. Só tô sentado. Não sabia que eu precisava da sua permissão pra isso.
Marina me olhou de canto, nervosa. Ela abriu a boca para falar algo, mas Victor cortou antes.
- Tá pedindo pra arrumar problema comigo, é isso?
Revirei os olhos, já perdendo a paciência.
- Não tô pedindo nada. Só tô aqui. Agora, se você tem tanta insegurança que não pode ver sua "mina" sentada do lado de outra pessoa sem surtar, talvez o problema não seja eu.
Victor se levantou de repente, o que fez Marina segurar seu braço rapidamente.
- Para com isso, Victor. Não tem necessidade. -ela disse, tentando manter a calma.
Ele olhou para ela, depois para mim, e bufou, pegando o que restava do pó branco na mesa e inalando de novo, como se tentasse se acalmar.
- Só fica na sua, Santana. -ele resmungou, antes de se sentar de novo e passar um braço ao redor de Marina, possessivo.
Eu continuei ali, imóvel, sentindo meu sangue ferver, mas sem demonstrar nada. Apenas bebi mais um gole, mantendo minha expressão relaxada.
Se ele achava que eu ia sair dali só porque ele mandou, estava muito enganado.
Marina permaneceu tensa, os olhos fixos na bebida em suas mãos. Eu conseguia sentir sua inquietação, mesmo sem ela dizer nada. Victor, por outro lado, parecia satisfeito por ter “marcado território”, mantendo o braço firme ao redor dela enquanto voltava a conversar com os outros caras da mesa.
Peguei mais um gole da bebida, deixando o líquido quente descer queimando pela garganta.
- Tá tudo bem? -murmurei perto do ouvido de Marina, sem encará-la diretamente.
Ela demorou alguns segundos para responder, apenas acenando com a cabeça.
- Sim. -disse baixinho, mas seu tom de voz não me convenceu.
A música alta, as pessoas bebendo, a fumaça de cigarro no ar… Eu já estive em muitas festas, mas, por alguma razão, essa me parecia sufocante.
Marina se remexeu no sofá, tentando se afastar discretamente de Victor, mas ele percebeu e puxou ela de volta, beijando seu pescoço sem cerimônia. Vi seus ombros enrijecerem, mas ela não disse nada.
- Vou pegar mais uma bebida. -ela soltou de repente, se levantando rápido.
Victor a soltou com um olhar desconfiado, mas não disse nada. Marina saiu andando, e eu aproveitei a deixa para levantar também.
- Tá cedo ainda, Santana. Vai fugir? -Victor debochou, jogando a cabeça para trás, já alterado pelo álcool e… bem, pelo resto.
Respirei fundo, me segurando para não dar uma resposta atravessada.
- Não te devo satisfações. -falei, antes de me afastar.
Marina estava na cozinha, encostada no balcão com um copo vazio na mão. Seus dedos tamborilavam na borda do plástico, e ela parecia perdida em pensamentos.
- Você não precisa ficar com ele. -soltei, sem rodeios.
Ela se virou para mim, piscando algumas vezes.
- O quê?
- Você não precisa ficar com ele. -repeti, me aproximando um pouco.- Se não quer, sai fora.
Ela suspirou, apertando os olhos por um instante antes de me encarar.
- Não é tão simples, Luan.
- Claro que é. Você levanta e vai embora.
- Você acha que eu não sei disso? -ela bufou, jogando o copo na pia.- Eu só… eu não quero mais briga.
Eu cruzei os braços, estudando seu rosto.
- Tá com medo dele?
Ela riu sem humor.
- Não, Victor não faria nada comigo.
- Mas ele te pressiona.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder:
- Isso é só quando ele usa aquela... porcaria.
Apertei a mandíbula. Não gostava disso. Não gostava nada disso.
- Então, faz alguma coisa, Marina. Se não quer ele, sai dessa.
- E por que você se importa? -ela me encarou com olhos desafiadores, mas também com algo mais… uma ponta de esperança?
Eu respirei fundo, tentando escolher bem as palavras.
- Porque eu me importo com você, ué.
Ela desviou o olhar, mexendo na manga do casaco.
- Eu não devia estar tendo essa conversa com você. -sussurrou.
- Mas tá.
Ela soltou uma risada fraca.
- Pois é.
Ficamos ali, parados, apenas nos olhando. E, senti que Marina estava a um passo de admitir o que realmente sentia.
Marina desviou o olhar primeiro, mordendo o lábio. Ela parecia estar lutando contra os próprios pensamentos, como se uma parte dela quisesse concordar comigo, mas outra insistisse em ignorar tudo.
- Eu vou voltar pra festa. -disse, sua voz mais baixa do que antes.
- Pra ele? -perguntei, sem conseguir esconder o tom de desgosto.
Ela fechou os olhos por um instante e soltou um suspiro.
- Eu só… não quero mais confusão.
- Ficar com ele é mais fácil do que admitir que não quer, né?
Ela me lançou um olhar mortal.
- Não começa, Luan.
- Não tô começando nada. Só tô falando a verdade.
Ela passou as mãos pelo rosto, exasperada.
- Você não entende.
- Então me faz entender.
Marina mordeu a bochecha por dentro, hesitando. Eu vi a dúvida passar pelos seus olhos, vi a forma como seu peito subia e descia de forma irregular. Ela queria dizer algo. Mas não disse.
- Eu preciso ir. -foi só o que respondeu antes de passar por mim e sair da cozinha.
Fiquei parado ali por um tempo, com um nó no estômago.
Puxei o celular do bolso e mandei uma mensagem para Justin.
"Cara, tá por onde?"
Ele respondeu segundos depois.
"Tô na área externa. Aconteceu algo?"
Respirei fundo.
"Encontro você aí."
Se tinha uma coisa que eu sabia sobre Marina, era que ela não ficava bem quando estava sendo pressionada. Mas também sabia que, se ninguém falasse nada, ela ia continuar ignorando os próprios sentimentos e fingindo que estava tudo bem.
Eu não queria que ela fingisse.
Queria que ela escolhesse.
E queria que, dessa vez, ela escolhesse a verdade.
Saí da cozinha, passando pelo corredor cheio de gente, e fui para a área externa do dormitório. A neve continuava caindo, formando uma camada branca no chão, e algumas pessoas estavam ali, fumando ou simplesmente tomando ar fresco.
Justin estava encostado numa árvore, segurando um copo vermelho, olhando para o nada. Assim que me viu, franziu a testa.
- E aí? O que houve?
Me encostei ao lado dele, esfregando as mãos para espantar o frio.
- Marina.
Justin soltou um suspiro e tomou um gole da bebida.
- O que ela fez agora?
- Não é o que ela fez, é o que ela não faz. -respondi, frustrado.- Ela não admite que não gosta do Victor.
Justin riu pelo nariz, balançando a cabeça.
- Isso não é novidade.
- Então por que ela tá com ele?
- Porque é mais fácil. -Justin respondeu.- Porque ela tá tentando se convencer de que sente alguma coisa.
Fiquei em silêncio por um momento, absorvendo aquilo.
- E você? -perguntei, mudando de assunto.- Como tá com a Bruna?
Ele ficou um tempo sem responder, encarando a neve no chão.
- Ela tá com o Harry.
- Eu sei. Mas perguntei de você.
Ele apertou o copo entre os dedos.
- Eu tô… tentando não enlouquecer.
- Acho que estamos na mesma situação então. -comentei. Justin riu de leve, mas não era um riso feliz.
- Acho que sim.
O vento gelado bateu contra nós, e eu olhei para o céu, onde os flocos de neve caíam silenciosamente.
- Isso aqui é uma merda. -murmurei.
- É, cara. É uma merda.
Ficamos um tempo ali, sem dizer nada. Dois idiotas apaixonados pelas meninas erradas.