Bruna Narrando
- Eu cuido das bebidas. -falei, antes mesmo de pensar duas vezes.
Virgínia e Olívia me olharam com interesse, enquanto Marina arqueava a sobrancelha.
- E desde quando você entende de bebidas? -Marina perguntou, brincando.
- Desde sempre. -respondi, dando de ombros.- Além disso, eu realmente preciso de um momento de diversão depois do que aconteceu no fim de semana.
O clima na mesa mudou um pouco. Marina me olhou com preocupação, mas eu fingi não notar. Eu não queria que a conversa tomasse outro rumo, não queria pensar naquilo de novo.
- Tudo bem, então as bebidas ficam com você -Virgínia concordou, voltando a se animar.- Mas nada muito pesado, hein?
- Relaxa. -sorri.- Vai ser só o suficiente pra deixar a festa interessante.
Olívia riu.
- Essa festa tem tudo pra ser boa. Quem diria, Bruna organizando as bebidas!
- O mundo dá voltas, minha amiga. -brinquei, pegando um pedaço da minha maçã.
Enquanto terminávamos o almoço, algumas meninas da equipe de líderes de torcida começaram a circular pelo refeitório, entregando folhetos coloridos. Elas estavam animadas, parando em algumas mesas e conversando com quem parecia interessado.
Uma delas se aproximou e deixou um dos panfletos bem na nossa frente.
- Estamos recrutando novas pessoas para a equipe de cheerleaders no próximo ano! Muitas meninas vão se formar, então teremos várias vagas disponíveis. Se quiserem se inscrever, os treinos começam logo depois das férias de verão!
Eu peguei o folheto e olhei com curiosidade. A imagem de um grupo de líderes de torcida sorrindo e segurando pompons ocupava quase toda a frente do papel. Sempre achei aquilo incrível.
- Cara, eu sempre sonhei em ser uma líder de torcida. -comentei, observando a folha em minhas mãos.- Sempre vi isso em filmes e séries e parecia tão… incrível!
Olívia riu, pegando outro folheto para olhar.
- Ah, sim. A clássica fantasia das garotas populares do ensino médio. -ela brincou.
- Não é só isso. -defendi.- É tipo uma arte, sabe? Coordenação, ritmo, carisma…
- Marina deveria entrar esse ano! -Virgínia disse, olhando para ela.
Marina, que estava distraída, ergueu a cabeça.
- O quê?
- Você era a melhor do colégio no ensino médio! -Olívia disse, apontando para ela.- Até hoje eu não entendo como não entrou na equipe daqui.
Marina deu de ombros.
- Não sei… Só não me inscrevi.
Virgínia revirou os olhos.
- Ah, qual é, Marina. Você era incrível! Tão rápida e precisa… Até arrasava nos saltos!
Ela deu um sorrisinho tímido, mas não parecia muito convencida.
- Eu gosto de torcer, mas… Sei lá. Não achei que fosse o meu foco agora.
- Ainda dá tempo de mudar de ideia. -sugeri, balançando o folheto no ar.
Marina riu, pegando o papel e olhando de relance.
- Vou pensar no caso.
- E eu vou me inscrever! -anunciei, determinada.- Quero saber como é fazer parte disso de verdade.
- Apoio totalmente essa ideia. -Virgínia disse, sorrindo.- Vai ser divertido!
O sinal tocou, anunciando o fim do horário de almoço, mas minha empolgação com a ideia continuou. Talvez essa fosse exatamente a distração que eu precisava.
2 dias depois...
Os dias foram se passando, e a festa no nosso dormitório virou o assunto principal do campus. Virgínia tinha chamado todo mundo que conhecia, e logo parecia que a festa não seria só nossa, mas um evento oficial da faculdade. Onde quer que eu fosse, alguém estava comentando sobre isso, perguntando o que íamos servir, quem estaria lá ou até mesmo se poderiam levar amigos de fora.
Mas, apesar da empolgação ao meu redor, minha cabeça estava um caos.
Desde sábado, eu estava evitando Justin e Harry a qualquer custo. Toda vez que via Justin no corredor ou no refeitório, meu corpo travava. Como eu poderia encará-lo depois daquele beijo? Ainda mais quando, no fundo, eu sabia que não havia sido um erro impulsivo… Eu queria aquele beijo. E isso tornava tudo ainda pior.
E então tinha Harry.
Só de pensar nele, meu estômago embrulhava. Não só por culpa, mas por medo. Eu ainda não sabia o que fazer. Como contar para ele? Deveria contar? Ou simplesmente fingir que nada aconteceu e seguir em frente? Mas toda vez que olhava para ele, sentia o peso da traição me esmagar.
Fiquei esses dias me esquivando. Sempre que via Harry se aproximando, eu fingia estar ocupada, corria para outro lado ou simplesmente ignorava qualquer tentativa de conversa. Mas na quarta-feira, ele finalmente me encurralou.
Eu estava saindo da biblioteca quando senti alguém segurar meu pulso.
- Bruna.
A voz de Harry me fez congelar no lugar.
Engoli em seco antes de me virar lentamente. Ele estava me olhando com um misto de confusão e preocupação.
- O que foi? -tentei soar casual, mas minha voz saiu fraca.
- É o que eu queria te perguntar. -ele disse, apertando os lábios.- O que tá acontecendo? Você tá me evitando desde o final de semana.
Meu coração disparou.
- Eu… não estou evitando você.
Harry arqueou uma sobrancelha, claramente não acreditando.
- Ah, não? Então é só coincidência que toda vez que eu tento falar com você, você dá um jeito de sumir?
Fiquei em silêncio, desviando o olhar.
Ele suspirou.
- Bruna, se tem alguma coisa errada, me fala. Aconteceu algo?
Sim. Aconteceu. Eu te traí.
Mas as palavras não saíram. Em vez disso, eu mordi o lábio, sentindo uma pressão sufocante no peito.
- Eu só… -minha voz falhou, e eu respirei fundo antes de continuar.- Só tive uma semana difícil.
Harry continuou me olhando, estudando meu rosto como se tentasse decifrar o que eu não estava dizendo.
- Isso tem a ver com o Justin?
Minhas entranhas se reviraram.
- O quê? -minha reação foi automática demais, e eu sabia que ele percebeu.
- Não sei. -ele deu de ombros.- Desde sábado, vocês dois estão estranhos. Notei que ele também tá agindo diferente.
Meu coração batia tão forte que eu podia ouvir nos ouvidos.
- Eu… eu não sei do que você tá falando. -menti, forçando um sorriso.
Mas Harry não parecia convencido. E isso me assustava ainda mais.
O silêncio entre nós era sufocante. Eu conseguia sentir o olhar de Harry queimando em mim, como se ele estivesse tentando enxergar além da minha mentira. Meu estômago estava revirando, e minha mente gritava para eu dar um jeito de sair dali antes que ele descobrisse tudo.
- Bruna. -ele chamou, o tom mais baixo agora, quase gentil.- Olha pra mim.
Eu hesitei por um segundo antes de finalmente erguer os olhos para ele.
- O que tá acontecendo? -Harry insistiu, seu olhar intenso me analisando.- Porque parece que você quer fugir de mim?
"Porque eu te traí."
A verdade estava presa na minha garganta, me sufocando.
- Não é nada. -eu murmurei, cruzando os braços como uma forma de me proteger.- Só... só tô cansada, só isso.
Ele respirou fundo, claramente não satisfeito com a resposta.
- Eu não quero te pressionar, tá? Mas eu conheço você, Bruna. Sei quando algo tá errado.
Meu coração apertou. Harry sempre foi observador, sempre soube ler as pessoas, e comigo não era diferente. Eu queria poder contar tudo, tirar esse peso das minhas costas, mas... e se ele me odiasse? E se ele nunca mais quisesse olhar na minha cara?
Então, eu fiz o que sabia fazer de melhor: menti.
- Não tem nada de errado, Harry. -forcei um sorriso, tentando parecer convincente.- Só tô na correria com as aulas, a festa e tudo mais. Eu juro.
Ele estreitou os olhos, ainda desconfiado, mas acabou assentindo devagar.
- Tudo bem... -ele disse, mas seu tom deixava claro que ele não acreditava totalmente.
Um alívio momentâneo percorreu meu corpo. Pelo menos, por agora, ele não insistiria mais.
- A gente se vê na festa? -ele perguntou.
Assenti rapidamente.
- Sim, claro.
- Certo. Então... até lá.
Ele me lançou um último olhar antes de se afastar, me deixando sozinha no corredor.
Soltei um suspiro tremido, sentindo minhas mãos trêmulas.
Eu sabia que não poderia fugir dessa situação para sempre. Mais cedo ou mais tarde, eu teria que encarar a verdade.
A questão era: eu estava pronta para isso?
Eu continuei andando pelo corredor, ainda sentindo meu coração acelerado por causa da conversa com Harry. Meu corpo estava tenso, e minha mente, um caos. Era como se eu estivesse sendo esmagada pela culpa, pela indecisão… e pelo desejo que eu não queria admitir.
Foi então que esbarrei em alguém. Meu corpo deu um leve tranco para trás, e quando levantei os olhos para ver em quem tinha trombado, meu coração parou por um segundo.
Justin.
Ele segurou meus braços, impedindo que eu perdesse o equilíbrio, e me encarou de perto.
- A gente precisa conversar. -ele disse, sua voz baixa, intensa.
Engoli em seco e tentei dar um passo para trás, mas ele não soltou meu braço. Não com força, mas o suficiente para me fazer entender que ele não queria que eu fugisse.
- Justin… -minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria.
- Por favor, Bruna. -ele insistiu, seu olhar fixo no meu.
Eu queria dizer não. Queria virar as costas e ir embora, como eu vinha fazendo desde aquele maldito beijo no sábado. Mas a verdade era que fugir não estava resolvendo nada.
Soltei um suspiro e olhei em volta. O corredor estava relativamente vazio, mas mesmo assim, ali não era o melhor lugar para essa conversa.
- Tá bom. Mas não aqui.
Justin assentiu e, sem soltar minha mão, me puxou para um canto mais reservado, perto de uma das janelas do prédio. O frio que entrava por ali me fez arrepiar, mas eu sabia que a sensação gelada não tinha nada a ver com o clima e sim com a tensão entre nós.
Ele me soltou, mas continuou próximo, e por um momento, nenhum de nós disse nada. Só ficamos ali, nos encarando.
Foi Justin quem quebrou o silêncio primeiro.
- Você tá me evitando.
- Eu não... -comecei a dizer, mas me calei. Não tinha motivo para mentir. Ele arqueou uma sobrancelha, esperando que eu admitisse.- Tá, eu tô.
Ele respirou fundo, passando a mão pelo cabelo.
- É por causa do beijo?
Minha garganta secou.
- O que você acha? -retruquei, cruzando os braços.
Ele soltou uma risada curta, sem humor.
- Eu acho que você sentiu tanto quanto eu.
Meu coração deu um salto no peito.
- Justin…
- Não, Bruna -ele me cortou.- Você pode fingir o quanto quiser, mas eu sei o que eu senti naquele momento. Sei o jeito que você me beijou de volta. Sei como foi real.
Eu fechei os olhos por um segundo, tentando controlar as emoções que estavam me consumindo.
- Isso não pode acontecer de novo. -falei, minha voz saindo mais firme do que eu esperava.
- E por quê? Porque você tá com o Harry? -ele perguntou, sua voz carregada de ironia.- Ou porque você tá com medo do que sente?
A pergunta dele ficou no ar, pesando entre nós como um fardo impossível de ignorar. Eu queria responder, queria dizer algo que nos desse um ponto final, que me permitisse seguir em frente sem essa culpa esmagadora. Mas nada saía.
Justin percebeu minha hesitação e deu um passo mais perto. Minha respiração ficou presa na garganta quando ele ergueu uma mão, tocando meu rosto de leve, os dedos roçando minha pele gelada pelo frio.
- Bruna… -ele murmurou, e havia algo na forma como ele disse meu nome que fez meu estômago revirar.
Afastei-me um passo, engolindo em seco.
- Isso é errado. -sussurrei.
- Errado é você ficar fingindo que não sente nada. -ele rebateu, sua voz mais firme.- Eu sei que você tá confusa. Sei que tá se sentindo culpada. Mas, Bruna, a gente não pode ignorar o que aconteceu.
Eu balancei a cabeça, fechando os olhos por um segundo.
- Eu não sei o que fazer. -admiti.
- Então para de fugir. -ele disse.- Para de me evitar, para de evitar seus sentimentos.
Eu queria gritar que era mais fácil falar do que fazer. Que eu não podia simplesmente apagar o que tinha com Harry e me jogar nos braços de Justin. Mas a verdade era que, desde aquele beijo, minha mente não tinha conseguido pensar em outra coisa.
Justin suspirou e passou a mão pelo cabelo, parecendo frustrado.
- Olha, eu não vou te pressionar. Só precisava que você soubesse que eu tô aqui. Que eu não me arrependo do que aconteceu.
Meu peito apertou. Eu sabia que ele falava sério.
- Eu… eu preciso de tempo. -murmurei.
Ele assentiu, embora seus olhos mostrassem que ele queria dizer muito mais.
- Tudo bem. -ele disse, dando um passo para trás.- Mas, Bruna, uma hora você vai ter que escolher.
Eu fiquei ali, observando enquanto ele se afastava pelo corredor, meu coração batendo forte. Porque eu sabia que ele estava certo. Mais cedo ou mais tarde, eu teria que tomar uma decisão.
Assim que entrei no dormitório, encontrei Marina sentada na poltrona, distraída enquanto lixava as unhas. Na TV, um clipe passava no YouTube, e ela cantarolava baixinho a melodia, parecendo completamente relaxada.
- As meninas estão aqui? -perguntei, fechando a porta atrás de mim.
Ela balançou a cabeça, sem tirar os olhos da unha que estava cuidando.
- Não. Olívia foi comprar algumas coisas pra festa, e Virgínia deve estar por aí, convidando mais gente.
Assenti, mordendo o lábio, sentindo aquele aperto no peito que me acompanhava desde sábado. Suspirei fundo e joguei minha mochila no chão, sentando-me no braço do sofá, olhando para Marina.
- Preciso de um conselho.
Ela finalmente ergueu os olhos para mim, arqueando uma sobrancelha, interessada.
- Sobre...?
Respirei fundo, sabendo que se não falasse logo, perderia a coragem.
- Sobre o Justin.
Marina revirou os olhos imediatamente, já prevendo onde a conversa iria parar.
- Bruna, sério?
- Eu não sei o que fazer! -soltei de uma vez, passando as mãos no rosto.- Desde aquele beijo, eu não consigo parar de pensar nisso. Não consigo nem encarar o Harry direito, porque me sinto culpada. E o Justin... ele me disse hoje que não se arrepende. Que eu preciso parar de fugir dos meus sentimentos.
Marina bufou, jogando a lixa de unhas na mesinha de centro e cruzando os braços.
- E você tá mesmo considerando jogar fora seu relacionamento por causa dele?
Hesitei, sentindo um nó na garganta.
- Eu só... tô confusa.
Ela suspirou, como se já soubesse exatamente o que eu estava sentindo.
- Bruna, olha, eu vou ser bem sincera com você porque te considero minha melhor amiga, e não quero te ver ferrar tudo por um momento de fraqueza. -ela disse, me olhando com firmeza.- Para de se martirizar por esse beijo. Aconteceu e já passou. O que você tem que fazer agora é ignorar o Justin e seguir seu caminho com o Harry. -abaixei o olhar, mas Marina não parou.- O Harry é um cara incrível. Ele é seu namorado, ele gosta de você, ele sempre foi bom pra você. E o Justin... Bruna, o Justin é meu irmão, mas eu conheço ele melhor do que ninguém. Ele não vale nada.
Engoli em seco.
- Mas...
- Mas nada. -ela me cortou, balançando a cabeça. - Eu aposto que ele tá adorando isso. Se divertindo com essa bagunça toda, brincando com você como sempre fez com outras garotas. Eu não quero te ver sendo mais uma na lista dele.
Mordi o lábio, me sentindo ainda mais perdida.
- Então você acha que eu devo simplesmente esquecer?
- Sim. -Marina afirmou sem hesitar.- Finge que esse beijo nunca aconteceu. Se você quer mesmo salvar seu relacionamento com o Harry, então foca nele. O Justin não merece sua atenção.
Suspirei, sentindo meu coração pesado. Eu queria acreditar que era tão simples assim.
Mas, no fundo, sabia que não era.