Luan Narrando
Acordei com o céu de Amsterdã meio cinza pela fresta da cortina. Olhei pro teto por alguns segundos, tentando lembrar onde eu tava — quarto de hotel, uma cama enorme só pra mim, bagunça de mala no canto. E um silêncio esquisito. Silêncio demais.
Peguei o celular no criado-mudo e abri o Instagram, como sempre fazia. Era meu ritual matinal. Curtir umas fotos aleatórias, responder directs, talvez postar um story. Mas hoje… hoje não foi como os outros dias.
A primeira coisa que apareceu no meu feed foi a foto. Preto e branco. Bruna e Justin.
Meu coração parou por um segundo.
Li o texto uma vez. Depois de novo. E mais uma. Não fazia sentido. Eles terminaram? Sem ninguém me falar nada? Sem nenhum sinal? Ontem mesmo a Bruna tinha postado uma selfie com cara de quem só queria um chocolate e paz.
"Depois de muitas conversas e reflexões, decidimos seguir caminhos diferentes…"
Cara, que porra é essa?
Saí da cama na hora, com o celular ainda na mão. Liguei pra Bruna. Toquei uma vez, duas, três. Nada. Recusou.
Tentei de novo. Caixa postal.
- Bruna, atende. -falei pra mim mesmo, andando de um lado pro outro no quarto.
Eu estava a milhares de quilômetros dela, e mesmo assim a sensação era de que ela tava bem mais longe. Mandei mensagem:
"Bruna, pelo amor de Deus, o que aconteceu?? Fala comigo."
Aquela era a minha irmã. Minha gêmea. Eu sentia quando ela tava mal, mesmo que ela dissesse que tava tudo bem. E agora… eu sentia um vazio estranho.
Apertei o celular com força e respirei fundo. Marina. Talvez ela soubesse de algo.
Abri o WhatsApp e vi que ela tava online há 18 minutos. Pensei em ligar, mas travei. Eu não sabia o que a gente era mais. A gente não brigou, mas… sei lá. A distância, a rotina, os silêncios entre uma ligação e outra. E agora ela e o Victor… Tão próximos de novo.
Suspirei e mandei mensagem:
"Mari, tá tudo bem aí? Você viu o post do Justin? Você sabe de alguma coisa da Bruna? Tô surtando aqui e ela não me responde…"
Fiquei olhando pra tela, esperando as duas setinhas ficarem azuis, mas nada. Será que ela tava gravando? Dormindo? Com o Victor?
O nome dele me incomodava mais do que eu gostaria de admitir. Não que eu não confiasse nela. Mas… ver os dois juntos daquele jeito nos bastidores, rindo, com intimidade, como se nada tivesse acontecido entre eles…
Eu não sabia mais se eu era parte da vida dela ou só alguém que ela tinha amado por alguns meses.
Me joguei de novo na cama, encarando o teto.
Justin terminou com a Bruna. A Bruna tava sumida. Marina parecia distante. E eu tava do outro lado do oceano, sozinho, tentando entender quando foi que tudo começou a desmoronar.
Talvez… talvez eu devesse pegar o primeiro voo de volta.
Logo meu celular vibrou na minha mão. A tela acendeu e vi o nome que eu mais queria naquele momento: Marina me chamando em videochamada.
Senti um nó na garganta e, sem pensar, deslizei pra atender. A imagem dela apareceu, ainda deitada na cama, cabelo bagunçado, cara de sono, mas linda como sempre. Ela estreitou os olhos com a claridade da tela, deu um leve bocejo e sorriu quando me viu.
- Oi, amor -ela disse, com a voz rouca, e meu coração se aqueceu como se alguém tivesse acendido uma luz num quarto escuro.
Era o tipo de saudade que doía até nos ossos. E, por um segundo, só por aquele segundo, tive a sensação de ter minha Marina de volta. A mesma que ria das minhas piadas ruins, que deitava no meu peito e bagunçava meu cabelo, a mesma que um dia disse que não conseguiria me esquecer mesmo que tentasse.
- Oi, minha menina linda. -respondi, com um sorriso que saiu antes de eu perceber. Eu já tava sorrindo quando abri a boca.
- Você viu o post? -ela perguntou, ficando um pouco mais séria, mas ainda com a voz suave.
- Vi. Por isso te chamei… Marina, o que aconteceu? A Bruna não atende, tô aqui do outro lado do mundo sem entender nada. O Justin postou aquela foto e… mano, tá tudo errado.
Ela suspirou, se ajeitou na cama e puxou o cobertor até o queixo, como se estivesse buscando coragem pra começar.
- Luan… a Bruna te ama demais. Você sabe disso. E ela ama o Justin com tudo o que tem. Mas... ela foi conversar com o Zach. Só conversar.
- Zach?! -falei o nome dele com uma careta automática. Aquele cara sempre teve algo estranho.
- Calma. Ela chamou ele pra conversar porque a Virgínia e a Olívia ficamos insistindo que ele tava com segundas intenções. E ela quis deixar claro que não queria nada com ele. Mas no meio da conversa… ele beijou ela. Sem permissão.
Meu sangue ferveu. Sentei na cama, encostando nas almofadas.
- Ele fez o quê?! Marina, esse cara…
- Calma, amor. Ela empurrou ele, deu um tapa na cara dele. Ela ficou em choque, não retribuiu, nada. Mas o Justin apareceu bem na hora. Viu tudo. Achou que ela tava dando trela pra ele.
Eu fechei os olhos por um momento, tentando absorver aquilo. Meu coração tava uma bagunça. Raiva, preocupação, tristeza.
- Ela tentou explicar, Luan. Foi atrás dele, no hotel. Implorou, chorou, disse que era inocente, que amava ele. Mas… ele terminou mesmo assim. E hoje ele postou aquele texto formal de merda, como se ela fosse só mais um capítulo que acabou.
Marina também parecia engasgada com as próprias palavras. Eu conhecia minha irmã. Ela podia parecer forte, mas por dentro… ela devia estar destruída.
- Ela te ama, Luan. Ela só não tá conseguindo falar com ninguém agora. E o Justin… você sabe como ele é. Quando ele se fecha, é difícil alguém entrar.
- É. Eu sei. Mas isso… isso não é justo com ela. -respirei fundo, passando a mão no rosto.- E você? Como você tá?
Ela hesitou, seus olhos encontraram os meus pela tela, e por um momento ficou em silêncio.
- Confusa. -respondeu por fim.- Mas com saudade de você. Muita.
Eu fechei os olhos por um segundo, absorvendo aquilo.
- Também tô com saudade. E se eu dissesse que tô pensando em largar tudo aqui e voltar pra Nova York?
Ela sorriu de leve, com aquele jeitinho dela, e sussurrou:
- Eu diria… vai. Porque tá tudo meio errado aqui também, e talvez a gente só precise estar no mesmo lugar de novo.
Meu coração deu um salto.
Bruna machucada. Justin inacessível. Eu e Marina, tentando não nos perder. E no meio de tudo isso, talvez, ainda houvesse um jeito de consertar.
Peguei o primeiro voo de volta pra Nova York. Minha cabeça tava um caos: Bruna sofrendo, Justin com o coração fechado, e Marina... Marina tão distante que às vezes parecia que nem era mais minha. Eu precisava entender o que tava acontecendo. Precisava olhar nos olhos dela. Sentir se ainda era a minha Marina ali dentro.
Após oito horas de viagem, logo já estava em Nova York.
O carro me deixou em frente ao prédio que, por muitas vezes, foi o nosso refúgio — o nosso lugar no mundo. Subi com o coração acelerado, ainda sem saber se ela estaria lá ou se eu ia me afogar nas minhas próprias dúvidas em silêncio.
Mas assim que abri a porta, me deparei com uma cena que eu não esperava.
Marina estava lá.
De calça jeans escura, blusa de manga comprida branca e tênis. O cabelo preso num rabo de cavalo despretensioso, com alguns fios escapando e moldando o rosto. Ela estava sentada no banco alto da cozinha americana, com uma caneca de café preto numa mão e um croissant na outra. Os olhos fixos na janela, como se estivesse perdida nos próprios pensamentos.
Ela me olhou. Por um segundo, parecia que ela não acreditava. Mas então seus olhos brilharam, e ela largou tudo e correu até mim. Eu abri os braços no mesmo instante, e ela se jogou neles como se o mundo inteiro estivesse despencando ao redor e só ali fosse seguro.
- Você tá aqui… -ela sussurrou contra meu peito, abraçando forte.- Cheguei faz meia hora também… Fiz café… não imaginei que viria mesmo.
- Eu precisava ver você. -falei baixinho, inspirando o cheiro do cabelo dela. O mesmo cheiro que me acalmava sempre.- Precisava saber se você ainda era minha.
Ela me olhou, confusa, e eu a puxei pela mão até o sofá. Não queria fingir que tava tudo bem. Não dava pra fingir. Sentamos lado a lado, e eu me virei pra ela, sério.
- Marina… eu preciso perguntar uma coisa. E quero que você seja sincera comigo, por favor.
Ela assentiu, os olhos atentos nos meus.
- Você… sente alguma coisa pelo Victor?
Ela franziu o cenho, surpresa com a pergunta.
- Luan…
- Espera. Deixa eu terminar. -respirei fundo.- Eu te amo. Com tudo o que eu sou. Mas ver você e ele juntos nos bastidores… tão próximos, rindo, se olhando daquele jeito… tem me feito mal. Tem me deixado inseguro. E eu não sou assim. Mas com você, Marina… com você eu sou vulnerável. Porque você é a única coisa que eu não quero perder. E você tem estado tão distante…
Ela abaixou o olhar. Silêncio.
O tempo pareceu desacelerar. Meu peito pesava. Mas eu precisava daquela resposta.
- Se você ainda quiser isso aqui… se ainda quiser nós dois… eu tô aqui. Eu lutei tanto por você, Marina. Mas eu preciso saber se você ainda quer lutar comigo.
Ela levantou os olhos, marejados, e finalmente falou:
- Luan, eu não sinto nada pelo Victor. Nada além de respeito. A gente ficou bem… como amigos. É só isso. Mas você tem razão. Eu fiquei distante. Tava tentando entender algumas coisas em mim… tentando não te prender, porque eu senti que você tava crescendo, voando… e eu tava travada.
- Marina… eu não quero voar sem você. -falei com a voz embargada.- Eu quero que a gente voe junto.
Ela sorriu, os olhos cheios d’água, e balançou a cabeça devagar.
- Eu ainda quero. Eu sempre quis. Só tava com medo de não ser suficiente pra você.
- Você sempre foi tudo pra mim.
Nos encaramos. Por um instante, tudo silenciou. E então ela se jogou em mim de novo, me abraçando com força, como se estivesse se agarrando a tudo o que ainda restava entre nós.
A gente se abraçou ali no sofá por longos minutos. Nenhum dos dois dizia nada, só escutávamos a respiração um do outro e o som abafado da cidade lá fora. O mundo podia estar virando de cabeça pra baixo, mas ali, naquele abraço, tudo parecia no lugar.
Ela se afastou só um pouquinho, o suficiente pra me olhar nos olhos. Sua mão subiu devagar até meu rosto, fazendo um carinho leve. Eu fechei os olhos por um instante, me permitindo sentir de verdade. Sentir ela. Minha Marina.
- Eu tava com tanta saudade disso. -ela sussurrou.
- Eu também. -respondi, a voz baixa, carregada de emoção.
Nosso beijo veio como um reencontro de almas. Nada apressado, nada desesperado. Era lento, cheio de vontade e carinho. Nossas bocas se reconhecendo, como se cada detalhe fosse precioso. Minhas mãos foram pra sua cintura, enquanto as dela subiam pro meu pescoço, puxando-me mais pra perto.
A gente se deitou ali mesmo, no sofá. Sem pressa, sem ruído. Cada toque era um alívio pra dor da distância, cada beijo era uma confirmação de que ainda éramos um do outro. Ela me olhava como se ainda tivesse medo, e eu me encarreguei de mostrar, com cada gesto, que ela não precisava ter.
Foi íntimo. Foi intenso. Foi nosso.
Depois, ficamos abraçados por alguns minutos em silêncio, até que Marina deu um suspiro e se levantou.
- Vem, vou esquentar o croissant.
Ela foi até a cozinha e eu fiquei só olhando. Ela era linda até andando descalça no piso gelado. Peguei minha camiseta e vesti de volta enquanto ela colocava mais croissants na mesa e dividia o café nas duas canecas.
Sentei na cadeira em frente à dela. Por um instante, tudo parecia tranquilo.
- Luan… eu tô muito preocupada com a Bruna.
Assenti, mexendo o café com a colher.
- Eu também. Ela me ignorou quando tentei ligar… mas depois você me contou tudo. Isso tá acabando com ela, Marina. E o Justin… ele foi duro demais.
- Eu entendo o lado dele também, sabe? -ela disse com um olhar triste.- Ver a cena, sem contexto… deve ter doído. Mas ele conhece a Bruna. Ele devia saber que ela nunca faria nada pra magoar ele.
- Pois é… -suspirei.- E ainda teve aquele post seco no Instagram. Cara, aquilo acabou com a Bruna.
- Ela tava destruída. Eu vi no olhar dela pela videochamada. E ela ama tanto ele, Luan… tanto. Ela me disse que chamou o Zach pra conversar porque queria esclarecer as coisas, depois dos conselhos da Virgínia e da Olívia. Ela não deu abertura. Ela foi clara. E ainda assim…
- E ainda assim o idiota beijou ela.
- Exato. -Marina bufou.- E o Justin achou que ela teve culpa. Ele tá magoado, mas isso não justifica.
- Você acha que eles ainda têm conserto?
Ela me olhou, com os olhos serenos.
- Eu acho que sim. Se eles se amam do jeito que a gente sabe que se amam… ainda dá tempo. Só espero que o orgulho não vença.
Assenti, olhando pro fundo da caneca. E pela primeira vez em dias, eu senti que as coisas iam se acertar.
Pelo menos ali, com Marina de volta nos meus braços… o mundo parecia um pouco menos cruel.
Chegamos à Columbia perto do fim da tarde. Aquele clima frio de outono deixava tudo ainda mais melancólico. Eu caminhava ao lado da Marina, com as mãos nos bolsos e o coração apertado. Não era o tipo de visita que a gente gostaria de fazer. Mas era necessária.
Entramos no prédio do dormitório das meninas, e logo que entramos no dormitório da Bruna, fomos recebidos por um silêncio carregado. Virgínia e Olívia estavam ali, sentadas no sofá, como se estivessem esperando por alguma notícia — ou um milagre.
Assim que viram Marina, elas se levantaram de um pulo. As três se abraçaram forte, como se precisassem lembrar umas às outras de que ainda estavam aqui, apesar de tudo.
- Ai, Ma… você voltou. -disse Virgínia, apertando ainda mais Marina nos braços.
- Eu precisava ver vocês. -Marina respondeu, com a voz embargada.- Eu precisava estar aqui por ela.
Melanie apareceu logo depois, meio hesitante na porta do corredor. Ela também se aproximou, abraçou Marina com força e depois se virou pra mim, me abraçando de leve.
- Que bom que vocês estão aqui. -disse baixinho.
O clima era de velório, literalmente. As meninas estavam com os rostos abatidos, os olhos fundos, e a energia era pesada.
- E a Bruna? -Marina perguntou, ansiosa.
- No quarto. Desde ontem não sai de lá. Não comeu nada, não fala com ninguém. Só… chora. -respondeu Olívia, triste.
Marina assentiu com firmeza e deu um passo em direção às escadas.
- Eu vou lá.
- Eu vou com você. -falei, acompanhando logo atrás.
Subimos em silêncio. Cada degrau parecia pesar mais. Quando chegamos à porta do quarto de Bruna, Marina nem hesitou. Apenas girou a maçaneta e entrou.
A luz do quarto estava apagada, só a claridade fraca da janela iluminava o espaço. Bruna estava encolhida na cama, usando um moletom largo do Justin, os cabelos bagunçados e os olhos vermelhos. Quando nos viu ali, a surpresa tomou conta do seu rosto por um segundo.
Ela não disse nada. Não perguntou o que estávamos fazendo ali, nem por que viemos. Só estendeu os braços.
- M-Marina… -ela sussurrou, quase sem voz.
Marina correu até a cama e caiu nos braços dela. Bruna chorou alto, como se o abraço da Marina tivesse desbloqueado um sentimento que ela vinha segurando há tempos. Aquele choro pesado, soluçado, que só quem tem o coração quebrado de verdade conhece.
- Tô aqui, mana… tô aqui. -Marina dizia, acariciando os cabelos dela.
Fiquei ali, parado na porta, com o peito doendo. Era difícil ver minha irmã daquele jeito. A garota forte, sonhadora, que sorria com qualquer coisinha… agora parecia um pedaço quebrado de si mesma.
Me aproximei devagar e sentei ao lado delas na cama. Toquei no ombro da Bruna com delicadeza.
- Bru… tô aqui também, tá? Você não tá sozinha.
Ela apenas assentiu com a cabeça, ainda deitada no colo da Marina, os olhos fechados, deixando as lágrimas caírem sem controle.
Eu e Marina trocamos um olhar silencioso. A gente sabia que esse era só o começo da cura. E a gente não ia sair dali até ajudar Bruna a juntar os pedaços de novo.
Marina foi a primeira a respirar fundo e puxar o assunto.
- Bruna… eu sei que agora tudo parece um caos. Que parece que o Justin nunca vai te perdoar. Mas você precisa entender que você não fez nada errado.
Bruna se virou devagar, sentando na cama, ainda com os olhos marejados. Sua voz saiu fraca, arrastada.
- Mas ele acha que eu fiz… acha que eu dei abertura pro Zach, e eu não dei… juro que não.
- Eu sei que não. -Marina disse, firme, segurando nas mãos dela.- E sabe como eu sei? Porque eu já estive nesse lugar.
Bruna piscou, confusa, e eu também olhei pra Marina. Ela respirou fundo e continuou:
- Josh. Lembra? Aquele beijo estúpido que ele tentou me dar, do nada? Eu também achei que era só amizade, que ele só tava sendo legal. E olha como terminou. Esses primos… eles gostam de mexer com a cabeça da gente. São manipuladores, intensos, metem aquele charme de garoto perfeito. Mas, no fundo, eles gostam de causar confusão.
Bruna abaixou o olhar, parecendo envergonhada.
- Eu só queria entender o que ele sentia, porque as meninas falaram pra eu abrir os olhos. Eu juro, Marina… juro que só queria clareza, só queria resolver. Eu nunca imaginei que ele fosse…
- Te beijar? -Luan completou, olhando com ternura pra irmã.- Bru, a culpa não é sua. Mas… talvez tenha sido um erro deixar ele se aproximar tanto. Todo mundo viu. Zach tava muito em cima. E o Justin viu isso também.
- Ele me avisou tantas vezes… -Bruna murmurou, passando a mão no rosto, limpando as lágrimas.- Mas eu achava que ele tava com ciúmes sem motivo.
- E ele tava, porque ele te ama. -Marina disse.- Mas também tava certo. Zach queria mais que amizade desde o começo. A gente precisa aprender a ler os sinais, Bruna. Eu demorei pra entender isso também. E doeu. Mas aprendi.
Bruna fungou, apertando a mão de Marina.
- Eu fui burra, né?
- Não. -eu disse.- Você foi inocente. Confiou em alguém que não merecia. Isso não te faz burra. Te faz humana.
Ela ficou quieta por um tempo, olhando pro chão. Depois levantou os olhos, cheios de dor.
- Vocês acham que o Justin nunca mais vai olhar na minha cara?
Marina olhou pra mim e depois voltou pra Bruna.
- Eu acho que, se tem uma coisa que o Justin sente por você, é amor. De verdade. Mas agora ele tá machucado. Precisa de tempo. E você também, Bru. Precisa se curar. Precisa se perdoar.
- Eu só quero ele de volta. -ela sussurrou.
- Eu sei, Bru. -Marina disse, puxando ela pra mais um abraço.- Mas agora, você precisa querer você de volta também. E a gente vai te ajudar nisso.
Eu me aproximei e abracei as duas ali, em silêncio, sentindo o peso daquele momento. A dor, a culpa, a saudade… tudo embolado no coração da Bruna. Mas também sabíamos que, com amor, paciência e apoio, ela ia sair dessa.
[...]
Segunda-feira de manhã. Ainda era cedo quando eu e Marina atravessamos os portões de Columbia. O ar fresco batia no rosto e, apesar de tudo que a gente tinha vivido nos últimos dias, aquele campus ainda tinha uma energia estranha… quase melancólica pra mim agora.
Marcamos de encontrar Bruna no jardim central, e lá estava ela, com o capuz da blusa jogado sobre a cabeça, o olhar baixo. Mas tava ali. E isso por si só já era uma vitória. Eu e Marina a cumprimentamos e fomos empurrando ela com jeitinho, incentivando, dizendo que era só o começo — que ela era forte, que aquilo ia passar.
- Você não vai se curar se continuar trancada no quarto, Bru. -Marina falou baixinho pra ela, com carinho.- Um passo de cada vez, tá?
Bruna só assentiu com a cabeça e soltou um suspiro profundo.
A deixamos no prédio onde seria a primeira aula do dia, e eu vi quando a Olivia e a Virgínia correram até ela pra dar apoio. Fiquei aliviado por saber que ela não tava sozinha.
Eu e Marina, então, seguimos pro prédio administrativo. Ela tava decidida: ia cancelar a matrícula. E eu sabia que aquilo não era impulso. Marina já vinha amadurecendo essa ideia há semanas. Ela tava no meio de um filme como protagonista, com uma agenda de gravações pesada, reconhecimento, oportunidades batendo na porta… fazia todo sentido.
- Tá nervosa? -perguntei, enquanto subíamos a escada do prédio.
- Um pouco… é uma fase da vida que tá se encerrando, né? -ela respondeu, me olhando de canto.- Mas eu tô em paz. Tô fazendo o que faz sentido.
- Orgulho de você, viu? -falei, e ela sorriu, aquele sorriso de canto que sempre me desmontava.
Sentamos num banco do corredor, em frente à sala do reitor. Marina tirou um elástico do pulso e prendeu o cabelo num rabo de cavalo meio bagunçado. Estava de calça jeans clara, blusa preta de manga comprida e um all star branco. Linda como sempre, com aquele ar de quem nem tenta, mas brilha.
Foi quando ouvimos passos se aproximando.
E aí ele apareceu.
Victor.
Alto, mochila jogada num ombro só, com aquele jeito despreocupado e despretensioso. Usava uma jaqueta jeans e uma camiseta branca simples. Assim que os olhos dele bateram na gente, ele abriu um sorriso surpreso.
- Marina?
- Victor? -ela respondeu, se levantando.
Eles se abraçaram rapidamente, como amigos. E eu fiquei ali, tentando não demonstrar o incômodo que subia em mim feito uma maré.
- O que você tá fazendo aqui? -ela perguntou, ajeitando o cabelo.
- Consegui uma folga das gravações e peguei um voo ontem à noite. -ele explicou.- Vim cancelar minha matrícula.
Ela arregalou um pouco os olhos, surpresa.
- Sério?
- Sério. Não faz mais sentido, né? A gente já tá vivendo o sonho. -ele sorriu, e os olhos deles brilharam com cumplicidade.- E você?
- Tô aqui pelo mesmo motivo. -ela respondeu, dando de ombros.
- Olha só. -ele riu, coçando a nuca.- Então a gente vai sair da faculdade no mesmo dia. Coincidência boa.
Ele então olhou pra mim. Aquele olhar de quem sabe que eu tô ali, que sou o namorado, que tô ouvindo e vendo tudo.
- E aí, Luan. -ele disse, estendendo a mão.- Tudo certo?
- Tudo. -respondi, apertando a mão dele com firmeza, mas mantendo o tom neutro.- Tranquilo.
- Bom… vou ali me despedir dos caras antes de passar na secretaria. Depois volto aqui. Foi bom te ver, Marina.
- Você também. -ela disse, sorrindo.
Ele saiu andando pelo corredor, e Marina sentou de novo ao meu lado, mexendo distraidamente nas unhas.
- Você tá bem? -perguntei, tentando manter a voz natural.
- Tô… por quê?
- Não sei. -respondi, olhando pro chão.- Só… ver vocês dois assim, tão em sintonia… me deixa meio inseguro, sabe?
Ela me olhou, séria, e pegou minha mão.
- Luan… você é o meu amor. O meu refúgio. Meu lugar seguro. O Victor é só um amigo. E vai continuar sendo isso. Só isso.
Eu respirei fundo, tentando me acalmar. Ela apertou minha mão de novo.
- Fica comigo. Confia em mim.
Assenti com a cabeça. E naquele momento, a porta da sala do reitor se abriu.
Era hora de encerrar uma etapa. E, quem sabe, começar outra ainda mais intensa — com sonhos se tornando realidade, e corações aprendendo a se equilibrar entre confiança, amor e tudo o que vem no meio disso.