Luan Narrando
- E se a gente fizesse uma noite italiana hoje? -Olívia sugeriu do nada.- Pizza, vinho… que tal?
- Por mim, tá aprovado! -Ryan concordou animado.
Todo mundo aceitou a ideia na hora, então fomos para o dormitório das meninas. Assim que entramos, o pessoal já começou a discutir sobre os sabores da pizza. Ryan queria uma de pepperoni, Virginia defendia marguerita, Justin e Bruna discutiam sobre qual borda recheada era melhor, enquanto Olívia, do nada, declarou que vinho branco era infinitamente superior ao tinto.
Eu estava apenas encostado no batente da porta, observando aquela bagunça, quando meus olhos foram parar em Marina. Ela se sentou encolhida no sofá, meio calada, diferente do normal.
Franzi a testa.
Ela percebeu que eu a observava e rapidamente tentou disfarçar, se endireitando e me olhando com um sorrisinho.
- Vai sentir falta de mim enquanto eu estiver no seu país? -perguntou, me encarando com aquela cara de quem já sabe a resposta.
Cruzei os braços, fingindo desinteresse.
- No máximo, vou sentir falta de te zoar.
Ela riu, balançando a cabeça, e eu aproveitei a deixa.
- Mas, na real, um dia o Brasil vai ser seu país também.
Ela franziu a testa, confusa.
- Como assim?
Me fiz de desentendido.
- Ué, quando a gente casar.
Marina soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça pra trás.
- Você tá muito confiante, hein? Isso não vai acontecer nunca!
A encarei, arqueando a sobrancelha.
- Tá duvidando?
Ela sorriu de lado e deu um tapinha no meu braço.
- Vai caçar seu green card em outro lugar, Santana.
Ri, balançando a cabeça.
- Você fala isso agora, mas espera só…
- Espera só nada. -ela cortou, ainda rindo.- Você não me engana.
Voltamos a prestar atenção na discussão dos sabores das pizzas. O assunto parecia mais sério do que qualquer prova da faculdade, porque ninguém conseguia entrar em um consenso.
- Eu voto em calabresa! -Justin disse, com convicção.
- Não! Pelo amor de Deus, chega de calabresa. -Olívia retrucou, revirando os olhos.- Ninguém gosta de comer isso.
- Eu gosto. -ele rebateu, dando de ombros.
- Mas e frango com catupiry? -Virginia sugeriu.
- Fechou! -Bruna disse animada.- Mas a borda tem que ser de catupiry também, senão nem vale a pena.
- Concordo. -Anthony assentiu.
- Tá, então frango com catupiry com borda recheada de catupiry. -Ryan confirmou, contando nos dedos.- Agora falta outra salgada.
- Portuguesa? -sugeri.
- Eu não gosto de ervilha. -Marina torceu o nariz.
- Ninguém liga pro que você gosta. -provoquei, e ela me mostrou a língua.
- Que tal quatro queijos? -Bruna perguntou.
- Não, muito enjoativo. -Ryan fez uma careta.
- Eu voto em bacon. -Olívia disse.
- Bacon com cheddar! -Marina completou, animada.
- Meu Deus, isso deve ser muito bom. -Anthony concordou, já com água na boca.
- Então fechou, frango com catupiry e bacon com cheddar. -Bruna confirmou.
- Com borda recheada de cheddar, né? -Marina reforçou.
- Claro. -Justin riu.
- Agora falta a doce. -Olívia lembrou.
- Nutella com morango. -Marina falou imediatamente.
- Boa! Mas coloca banana também? -pedi.
- Não! -Bruna fez cara de nojo.
- Só morango tá ótimo. -Ryan concordou.
Depois de mais algumas discussões, fechamos as escolhas: duas pizzas salgadas de 16 pedaços, uma de frango com catupiry com borda recheada de catupiry e outra de bacon com cheddar com borda de cheddar, além de uma pizza doce de Nutella com morango.
- Agora é só esperar. -Anthony disse, jogando-se no sofá.
- Se eu morrer de fome até lá, a culpa é de vocês. -Marina dramatizou.
Todos riram, já antecipando o banquete que estava por vir.
Virginia foi até o quarto e voltou com um baralho de Uno na mão, balançando as cartas no ar com um sorriso convencido.
- Vamos jogar enquanto esperamos a comida?
- Vai dar briga. -Marina comentou, cruzando os braços.
- Exatamente por isso que vamos jogar. -Ryan disse, pegando as cartas da mão da Virginia e começando a embaralhar.
Nos acomodamos ao redor da mesinha de centro da sala. Justin e Bruna sentaram no chão, encostados no sofá, enquanto Anthony e Olívia ficaram jogados de qualquer jeito nas almofadas. Marina estava ao meu lado no sofá, ainda um pouco encolhida, mas parecia mais disposta.
- Todo mundo sabe jogar? -Ryan perguntou.
- Sim! -respondemos em uníssono.
Ele distribuiu as cartas, e o jogo começou tranquilo… até que Olívia jogou um +4 pra cima da Virginia.
- Você tá de sacanagem?! -Virginia exclamou, olhando incrédula para a carta.
- Azar no amor e no jogo, amiga? -Olívia riu, piscando pra ela.
- Ah é? -Virginia pegou as quatro cartas da pilha e, na rodada seguinte, jogou um +4 em cima de Ryan.
- Ah, então é assim?! -Ryan pegou as cartas, já bolando uma vingança.
O jogo continuou com provocações e risadas. Quando chegou minha vez, só tinha duas cartas na mão: um número 7 e um +2. Olhei para Marina, que estava ao meu lado, e vi que ela também só tinha duas cartas.
- Marina… -chamei, segurando o riso.
- Não faz isso comigo, Luan. -ela me olhou desconfiada.
- Foi mal, ruivinha. -joguei o +2 pra cima dela.
- Eu te odeio! -ela exclamou, pegando duas cartas da pilha.
- Não odeia não. -pisquei, provocando.
Ela bufou, mas logo abriu um sorriso, revirando os olhos.
O jogo seguiu cheio de reviravoltas, e quando Justin finalmente gritou "UNO!", todos começaram a focar nele para não deixá-lo ganhar. Virginia jogou um bloqueio nele, Bruna inverteu a rodada, e Anthony soltou um +2.
- Vocês são muito falsos! -Justin reclamou, pegando as cartas.
- Aqui é guerra, bebê. -Bruna riu.
O jogo durou mais alguns minutos até que Marina conseguiu se livrar de todas as cartas e bateu na mesa, vitoriosa.
- CHUPA, OTÁRIOS! -ela gritou, levantando os braços.
- Eu devia ter te dado outro +2. -murmurei, fingindo indignação.
- Mas não deu. -ela sorriu convencida e escutamos alguém bater na porta.
- Chegou a comida! -Anthony avisou, levantando-se para pegar as pizzas.
O cheiro maravilhoso tomou conta do dormitório, e logo todos largamos as cartas para atacar o jantar.
Depois de devorarmos as pizzas, nos jogamos no sofá e nas almofadas espalhadas pelo chão, satisfeitos e um pouco preguiçosos. Anthony abriu a garrafa de vinho com uma facilidade impressionante, como se tivesse feito isso um milhão de vezes.
- Quem quer? -ele perguntou, já servindo sua taça.
- Eu! -Olívia esticou o copo primeiro.
Logo, todo mundo estava segurando sua taça, e as conversas foram ficando mais soltas. Do nada, o assunto mudou para filhos, e eu nem lembro exatamente como começou.
- Eu não me vejo tendo filhos tão cedo. -Virginia comentou, girando o vinho na taça.- Tipo, quero viver muito ainda antes de pensar nisso.
- Eu também. -Bruna concordou.- Ainda tenho muita coisa pra fazer antes de me preocupar com fraldas e noites sem dormir.
- Mas você quer ser mãe um dia? -Justin perguntou, olhando diretamente pra ela.
Bruna hesitou por um momento, depois deu de ombros.
- Talvez… no futuro. Mas tem que ser com a pessoa certa.
- Eu também penso assim. -Marina disse, bebendo um gole do vinho.- Mas sinceramente? Acho que não tenho paciência pra criança.
- Eu já imagino a Marina sendo uma daquelas mães que tentam ensinar ironia pra um bebê de dois anos. -Olívia riu.
- Pior que sim. -Justin concordou, rindo.
Marina revirou os olhos, mas riu junto.
- E você, Luan? Quer ter filhos? -Ryan perguntou, me encarando.
Todos os olhares se voltaram pra mim.
- Claro que sim. -respondi sem hesitar.- Mas igual vocês falaram, não agora. Ainda tem muita coisa que eu quero conquistar antes.
- Aposto que quer um mini-Luan pra ficar cantando sertanejo pela casa. -Marina zombou, me cutucando de leve.
- Óbvio. -sorri.- Imagina só, meu filho cantando junto comigo?
- Ai meu Deus, já tô até vendo ele fazendo dueto com o bebê do Justin. -Olívia brincou.
- Ei, por que o meu filho? -Justin protestou.
- Sei lá, vocês têm essa energia de "pais rivais" -Ryan provocou.
- Pior que tem cara mesmo. -Bruna riu.
- Se eu tiver um filho um dia, ele vai ser um astro do pop, óbvio. -Justin cruzou os braços.
- E o meu vai ser um astro do sertanejo. -rebati, rindo.
- Pronto, já criaram uma rivalidade de bebês que nem existem ainda. -Marina debochou.
O papo continuou leve, com todo mundo rindo e se divertindo, até que o assunto começou a puxar histórias do passado. Era engraçado como, mesmo vindos de lugares diferentes, nossas infâncias tinham mais em comum do que a gente imaginava.
- Nossa, minha mãe sempre foi muito rígida com a gente. -Bruna começou, olhando pra mim.- Mas ao mesmo tempo, ela mimava muito o Luan.
- Ei! -reclamei, rindo.- Você que era a queridinha do papai!
- Só porque ele te dava um violão por ano, né? -Bruna revirou os olhos.- Eu pedia uma boneca nova e ele falava que eu já tinha muitas.
- Mas é verdade, você tinha um exército de bonecas. -rebati.
Bruna riu, mas não negou.
- E seus pais, Virginia? -Anthony perguntou.
Virginia deu um gole no vinho antes de responder.
- Ah, eles sempre foram muito de boa. Nunca foram superprotetores, mas também não eram negligentes. Eu tinha bastante liberdade, contanto que não fizesse merda.
- Já eu… -Olívia suspirou.- Minha mãe era neurótica! Eu mal podia respirar sem ela querer saber onde, com quem e por quê.
- Isso explica muita coisa. -Ryan comentou, provocando, e levou um tapa no braço.
Depois foi a vez de Marina e Justin falarem sobre os pais deles.
- O nosso pai nunca foi muito presente. -Marina começou, olhando para o irmão.- A gente via ele quinze dias no verão e só.
- E mesmo quando a gente ia, parecia que ele tava sempre ocupado com outras coisas. -Justin acrescentou.
- Mas pelo menos a gente ficava na casa da nossa avó, que é o melhor lugar do mundo. -Marina sorriu.
- Nossa avó é incrível. -Justin concordou.- E a casa dela também. Tinha um pé de manga no quintal, e a gente tentava subir nele toda vez que ia pra lá.
- E a Melanie dedurava a gente sempre! -Marina revirou os olhos.
- Nossa irmã é uma chata. -Justin riu.- Sempre foi. Mas hoje em dia até que melhorou… um pouco.
- Um pouco! -Marina enfatizou, e todos riram.
- Mas fala aí, Marina, conta a história das panelas da vovó. -Justin incentivou, rindo sozinho só de lembrar.
- Ai, meu Deus, essa foi épica. -Marina riu, colocando a taça de vinho no chão.- Uma vez, o Justin pegou as panelas da nossa avó e decidiu que elas seriam a bateria dele.
- Ela quase teve um infarto. -Justin completou, rindo.
- Ele colocou as panelas no chão da cozinha e começou a bater com as colheres de pau, como se fosse um show de rock. -Marina continuou, gargalhando.- Só que fez um barulho infernal!
- No primeiro segundo, nossa vó veio correndo da sala, achando que a casa tava desmoronando. -Justin riu.
- E aí, em vez de brigar com ele, ela ficou parada, assistindo, com aquela cara de “meu neto é um artista”. -Marina balançou a cabeça.
- No fim, ela só mandou eu tomar cuidado pra não riscar as panelas dela. -Justin sorriu, nostálgico.
Todo mundo riu, e Anthony comentou:
- Cara, eu quero conhecer sua avó. Parece que ela é demais.
- É mesmo. -Marina e Justin responderam ao mesmo tempo.
O clima ficou mais tranquilo, meio nostálgico, mas ainda leve. Era bom compartilhar essas histórias, lembrar de onde a gente veio, de como crescemos.
O tempo foi passando e, antes que percebêssemos, já estávamos na segunda garrafa de vinho. A conversa ainda fluía bem, embora alguns já estivessem bêbados. Justin e Ryan estavam competindo para ver quem conseguia falar espanhol com mais fluência (os dois estavam errando tudo), enquanto Olívia e Virginia estavam caídas no sofá, rindo de qualquer coisa que alguém dissesse.
Anthony contava uma história animada sobre uma viagem que fez quando era mais novo, e eu prestava atenção, mas, de repente, senti um olhar sobre mim.
Virei um pouco o rosto e percebi Marina me encarando.
Ela não desviou quando nossos olhares se encontraram. Pelo contrário.
Ela manteve os olhos fixos nos meus, um pequeno sorriso no canto da boca, como se estivesse avaliando alguma coisa.
- O quê? -perguntei baixinho, sem entender.
Ela não respondeu.
No segundo seguinte, senti sua mão segurar a gola da minha blusa e, antes que eu pudesse reagir, ela me puxou para perto e me beijou.
Na frente de todo mundo.
Minha mente ficou em branco por um segundo, mas logo reagi, segurando sua cintura e correspondendo ao beijo.
Foi quando percebi que a conversa ao redor tinha morrido.
Anthony, que estava no meio da sua história, parou de falar no meio da frase.
- … e aí eu… -silêncio.
Senti todos os olhares sobre nós.
- Caralho. -Ryan murmurou.
Justin pigarreou, e eu senti a tensão aumentar.
Marina se afastou lentamente, abrindo os olhos e me olhando como se nada tivesse acontecido. Eu ainda estava tentando entender o que diabos tinha acabado de rolar, quando ouvi os sussurros ao nosso redor.
- Mano, vocês viram isso?
- Eu achei que isso nunca mais fosse acontecer.
- Eu pensei que a Marina ia fazer ele sofrer mais um pouco.
- Hm… ainda pode ser só o vinho falando.
Marina se jogou de volta no sofá como se nada tivesse acontecido, pegou sua taça e tomou um gole do vinho.
- O que foi? -ela perguntou, como se não entendesse por que estavam todos nos encarando.
- O que foi? -Justin repetiu, cruzando os braços.- Eu que te pergunto, Marina.
Ela deu de ombros.
- Só beijei o Luan. Algum problema?
- Depois de fazer ele sofrer esse tempo todo? Sim! -Virginia exclamou, apontando para mim.
Eu ainda estava tentando processar tudo, mas, honestamente? Eu não me importava com os comentários.
Porque, naquele momento, só uma coisa importava: ela me beijou.
E isso queria dizer alguma coisa.
Alguns dias depois...
Os dias se passaram desde aquela noite do vinho, e nada tinha sido dito sobre o beijo. Nem por mim, nem por Marina. Ela continuava me tratando da mesma forma de sempre, como se nada tivesse acontecido. Parte de mim queria trazer o assunto à tona, mas ao mesmo tempo, não queria estragar o que quer que estivesse acontecendo entre nós.
Era quarta-feira, e eu estava indo para minha aula de musical. Justin tinha decidido matar essa aula para resolver algumas coisas para a festa de sexta-feira — a festa que estávamos organizando para comemorar o aniversário dele, que cairia no sábado.
Quando entrei na sala, Marina já estava lá, sentada em uma das cadeiras do meio, conversando com uma garota que eu não conhecia muito bem. Essa aula misturava teatro e música, então sempre havia gente diferente por ali, e era uma das razões pelas quais eu gostava tanto dessa matéria.
Antes que eu pudesse me aproximar, Victor entrou na sala também e passou direto por mim, sentando-se atrás de Marina. Às vezes eu esquecia que esse cara fazia parte da turma de teatro.
A garota ao lado dela se levantou e saiu da sala, e eu aproveitei para me sentar ali.
- Bom dia, Bieber. -me joguei na cadeira ao lado dela.
- Bom dia, Santana. -ela respondeu com um meio sorriso, mas antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Victor se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e abrindo um sorriso convencido.
- Fala aí, Marina, já foi correndo se jogar nos braços do Santana de novo ou ele te deu outro fora?
Marina travou por um segundo, mas logo revirou os olhos e ignorou. Pegou o celular, como se estivesse ocupada demais para responder.
Eu, por outro lado, fechei a cara.
- Tá sem nada pra fazer, Victor?
- Relaxa, cara, só estou comentando… -ele riu e se inclinou um pouco mais para a frente, como se fosse compartilhar um segredo. Sua voz saiu baixa, mas suficientemente alta para que Marina ouvisse também.- É engraçado ver como você parece o último a perceber o óbvio. Você não faz ideia do quanto essa garota sempre gostou de você.
Minha respiração falhou por um segundo, mas me recuperei rápido, engolindo em seco.
Marina finalmente ergueu os olhos do celular e olhou para Victor, dessa vez com um sorriso debochado.
- Eu juro que ainda me pergunto como a Columbia é uma universidade tão renomada e mesmo assim deixam qualquer delinquente estudar aqui.
Victor riu, como se tivesse gostado da provocação.
- Ah, então você tá com medo do que eu sei?
- Eu só acho que você devia arrumar um emprego, um hobby… sei lá. Ah, esqueci, você já trabalha né? Vendendo drogas.
A professora entrou na sala, cortando o clima tenso, e Victor apenas ergueu as mãos como se se desse por vencido.
Mas aquilo tinha me deixado inquieto.
Porque, no fundo, eu sabia que Victor não estava apenas tentando provocar.
- Hoje, vamos falar sobre improvisos em musicais. -a professora começou, caminhando lentamente pelo espaço.- Como vocês sabem, o teatro musical exige mais do que saber atuar ou cantar. É preciso interpretar uma música, transmitir emoção, contar uma história através da voz e do corpo.
Ela fez uma pausa, nos observando com aquele olhar de quem estava prestes a jogar alguém na fogueira.
- Para isso, eu irei selecionar aleatoriamente alguns alunos para improvisar uma apresentação agora. Cada dupla terá que cantar uma música aleatória e, ao mesmo tempo, interpretá-la teatralmente.
Senti Marina se encolher ao meu lado e, antes mesmo que eu olhasse para ela, ouvi seu sussurro:
- Tomara que eu não seja escolhida… sou péssima cantando.
E foi exatamente nesse momento que a professora ergueu os olhos e abriu um pequeno sorriso.
- Marina Bieber e Luan Santana, por favor, venham aqui na frente.
Eu e Marina nos entreolhamos, e pude ver o pânico estampado no rosto dela.
- Puta que pariu. -ela murmurou baixinho antes de se levantar.
Eu ri e a segui até a frente da sala. A professora me entregou um violão, o que era um alívio, porque pelo menos eu teria algo familiar para me concentrar.
- Vocês podem escolher a música, mas lembrem-se: quero emoção. Preciso sentir o que estão cantando.
Olhei para Marina, que parecia ainda mais nervosa agora.
- Eu sou péssima nisso. -ela murmurou de novo.
- Relaxa. -eu disse, tentando tranquilizá-la.- Vamos fazer "Shallow". Você já viu o filme, certo?
Ela me olhou como se eu tivesse acabado de assinar a sentença de morte dela.
- Você tem noção de que a Lady Gaga alcança notas absurdas nessa música?
- Confia em mim. -pisquei para ela e ajeitei o violão no colo.
Respirei fundo e comecei os primeiros acordes.
Assim que comecei a cantar, vi que Marina fechou os olhos, como se estivesse se preparando mentalmente. Eu sabia que ela estava nervosa, mas a conhecia o suficiente para saber que ela não fugiria do desafio.
Quando chegou a parte dela, ela abriu os olhos e me olhou por um segundo antes de começar a cantar, hesitante no início, mas logo entrando no ritmo.
E então, como se tivesse se transportado para o filme, ela começou a interpretar exatamente como Ally fazia no palco com Jackson Maine. Seus gestos, sua expressão… Era como se estivéssemos realmente naquela cena.
O nervosismo inicial foi se dissipando, e ela começou a se soltar. Quando chegou no refrão, Marina respirou fundo e foi com tudo, atingindo as notas com confiança.
Eu toquei o violão com mais intensidade, entrando no clima da performance.
O pessoal na sala começou a murmurar, surpreso. Alguns até começaram a bater palmas no ritmo da música.
Marina e eu nos aproximamos no final, e quando demos a última nota, um silêncio breve tomou conta da sala antes de todos começarem a bater palmas e assoviar.
Eu me virei para Marina, sorrindo.
- Você disse que era péssima cantando?
Ela revirou os olhos, mas sorriu de volta.
A professora bateu palmas também, parecendo satisfeita.
- Isso foi exatamente o que eu queria! Emoção, entrega… Muito bem, vocês dois!
Marina suspirou, aliviada.
- Nunca mais faço isso de novo.
Eu ri, sabendo que, no fundo, ela tinha gostado tanto quanto eu.
A professora bateu palmas novamente, caminhando até nós com um sorriso satisfeito no rosto.
- Isso, pessoal! -ela se virou para o restante da turma.- Isso é o que eu quero ver nos palcos! Emoção, entrega, química! Não importa se vocês vão seguir para o teatro musical depois da faculdade ou não, a interpretação é essencial para qualquer forma de arte.
Ela nos olhou de cima a baixo, parecendo impressionada.
- Luan e Marina, vocês captaram exatamente o que eu esperava. Essa conexão entre vocês… é disso que estou falando!
Marina soltou um pequeno suspiro ao meu lado, ainda parecendo nervosa, enquanto eu apenas sorri, tentando conter o riso.
- Eu gostaria de ver essa mesma energia em todos vocês. -a professora continuou, voltando-se para a turma.- Especialmente para aqueles que querem seguir para o teatro. É essa química que faz o público acreditar na história que vocês estão contando.
Marina enfiou as mãos nos bolsos da calça, provavelmente sem saber onde enfiar a cara com tantos elogios.
Foi então que a professora, com um olhar travesso, acrescentou:
- E aliás… vocês são um casal?
Marina arregalou os olhos e eu senti um sorriso se formar nos meus lábios.
- Não. -respondemos juntos.
- Ah, que pena. -a professora brincou.- Porque eu vi faíscas entre vocês dois.
A sala toda começou a rir e eu olhei para Marina de canto de olho, esperando para ver sua reação. Ela apenas cruzou os braços, tentando disfarçar o constrangimento, mas o tom rosado no rosto dela entregava tudo.
- Bom, independentemente disso, parabéns pela apresentação. -a professora concluiu.- E que sirva de exemplo para o restante da turma. Agora, vamos para a próxima dupla!
Eu e Marina voltamos para nossos lugares. Assim que nos sentamos, ela me cutucou discretamente.
- Você ouviu isso? “Faíscas” -ela sussurrou, revirando os olhos.
- Eu ouvi. E a professora tem razão, hein? -brinquei, piscando para ela.
Marina soltou um suspiro e fingiu que não me ouviu, mas eu vi um pequeno sorriso surgir nos lábios dela antes de virar o rosto para prestar atenção na próxima apresentação.