Justin Narrando
Eu tinha conseguido passar só cinco dias em Nova York. Só cinco. Mas a verdade é que, quando a ideia de fazer uma surpresa pra Bruna surgiu, o tempo parecia curto demais. Eu precisava ver ela. Sentir o cheiro dela. O gosto da boca dela. Ouvir a risada que sempre, sempre, me fazia esquecer o resto do mundo.
A noite passada tinha sido exatamente o que eu precisava. O reencontro. O riso. A cerveja. A gente meio bêbado falando bobagem. O corpo dela colado no meu de novo. A pele quente, familiar. A certeza de que era ali que eu queria estar.
Agora, deitado na cama gigantesca da suíte presidencial do hotel do meu pai, eu olhei pro lado e encontrei a Bruna encolhidinha nos lençóis brancos, os cabelos espalhados pelo travesseiro, e um sorrisinho no canto da boca mesmo dormindo. Linda pra caramba.
Estiquei a mão devagar e passei os dedos pela cintura dela, que ainda estava coberta pelo lençol. Ela se mexeu, murmurou alguma coisa, e virou o rosto pra mim.
- Bom dia... tá vivo? -ela perguntou com a voz rouca, meio arrastada.
- Bom dia. Por milagre. -dei um riso baixo.- Acho que o vinho queria me enterrar ontem.
Ela riu fraco, abrindo os olhos devagar, e me encarou com aquela carinha de sono que me matava.
- Meu Deus, que dor de cabeça...
- Culpa sua. Me fez beber mais do que devia. Eu tava sóbrio até você me fazer misturar cerveja com vinho.
- Ah, claro. Porque o Justin Bieber é facilmente influenciado, né?
- Quando é por você... sou. -pisquei e dei um beijo leve no ombro dela.
Ela fechou os olhos por um segundo, sorrindo.
- Eu tava com tanta saudade, Ju...
- Eu também, Bru. Você não tem noção. Eu conto os dias, as horas... fico vendo foto sua no celular como se fosse um adolescente idiota apaixonado.
- Porque você é um adolescente idiota apaixonado.
- E você ama isso.
- Amo mesmo. -ela se virou de frente pra mim e enfiou o rosto no meu pescoço, me abraçando.- Posso te prender aqui pra sempre?
- Pode. Só não conta pro Scooter.
Ficamos ali, abraçados, sem pressa. O sol invadia o quarto pelas cortinas abertas, e o clima era calmo, quase mágico. Eu acariciava as costas dela devagar, ouvindo os suspiros que ela soltava com o rosto colado ao meu peito.
- Sabe. -falei baixinho. -Cinco dias é pouco. Já tô sofrendo só de pensar em ir embora.
Ela levantou a cabeça e me olhou, séria.
- Então não vai. Estica. Fica mais.
- E se eu te disser que tô começando a considerar isso?
Ela sorriu, mas os olhos estavam cheios de saudade acumulada.
- Eu adoraria.
Beijei a testa dela, puxei ela mais pra perto, e a gente ficou assim. Esquecendo da ressaca. Ignorando o tempo. Só nós dois. Como se o mundo lá fora pudesse esperar.
- Tô com fome. -Bruna murmurou, jogada em cima de mim, o cabelo bagunçado cobrindo metade do meu rosto.
- Eu também. -fingi pensar.- Mas não de comida.
Ela levantou a cabeça, rindo daquele jeito debochado.
- Nossa, que criativo, Bieber. Já usou essa com quantas?
- Só com você. E funcionou todas as vezes.
- Idiota. -ela deu um tapinha no meu peito e depois se deitou de novo.- Mas admito que é meio sexy quando você faz essa cara de safado.
- Qual? Essa aqui? -fiz a pior cara sensual possível, com uma sobrancelha arqueada e um biquinho ridículo.
Ela gargalhou alto.
- Meu Deus, para! Você parece o Ken tentando ser sedutor depois de uma ressaca!
- Oi? Tá falando do Ken, mas dormiu com ele, né?
- Dormi porque o Ken tem uma suíte presidencial. -ela piscou, se divertindo.
- Interesseira. -rolei em cima dela, prendendo os braços dela acima da cabeça.- Sabe que posso te prender aqui até você pedir desculpa?
- Ameaça ou promessa?
- As duas.
Ela mordeu o lábio inferior, ainda sorrindo, e eu senti meu autocontrole ir pro espaço. A respiração dela batia quente no meu pescoço, e o olhar dela me desafiava como sempre fazia — ela adorava me provocar, e eu adorava ceder.
- Você tem noção do que provoca em mim, Bruna Santana? -murmurei, encostando minha testa na dela.
- Tenho. E gosto. -ela respondeu, sem nem hesitar, puxando meu rosto pra mais perto.
O beijo veio intenso, daqueles que parecem não ter fim. Ela se virou comigo, montando em cima de mim, e as mãos dela desceram pelas minhas costelas devagar. O jeito como ela me olhava, como me tocava… era impossível não querer tudo ali, agora, de novo.
- A gente devia levantar e comer alguma coisa de verdade. -falei contra os lábios dela, só porque meu estômago roncou.
- Bacon ou eu?
- Por que não os dois?
Ela riu e deitou de novo no meu peito, preguiçosa.
- Acho que esse hotel vai ficar com a energia erótica abalada depois desses cinco dias.
- E a cama com a estrutura comprometida. -completei, rindo.
- Pelo menos não precisa lavar lençol. Vantagem do luxo.
- E desvantagem do cansaço físico. -comentei, passando os dedos pelas costas nuas dela.
- Acha mesmo que a gente vai descansar?
- Com você aqui? Nem em sonho.
Ela ergueu o rosto de novo, o olhar agora mais carinhoso, mais doce.
- Eu senti tanto sua falta, Bieber.
- E eu tava ficando doente de saudade sua.
Ficamos nos olhando em silêncio por alguns segundos, como se o mundo lá fora tivesse desaparecido. E, sinceramente? Naquele quarto, com ela nos meus braços, tudo o que eu precisava tava ali.
- Promete que vai me avisar sempre que sentir saudade assim? -ela pediu, a voz baixinha.
- Prometo. E prometo vir correndo, igual agora.
- Eu amo quando você vem correndo.
- E eu amo vir por você.
Ela mordeu o lábio outra vez, e sorriu com aquela carinha arteira que só ela sabe fazer. Me puxou de volta pra um beijo lento, e eu já sabia… o café da manhã ia esperar um pouco mais.
[...]
Eu estava largado na cama, com Bruna meio deitada sobre minha perna, um pote de pipoca equilibrado entre a gente e o controle na minha mão. A TV tava passando algum episódio aleatório de You, aquele da terceira temporada em que o Joe tenta ser um cara normal — e, como sempre, falha miseravelmente.
- Eu juro, se esse homem matar mais uma pessoa e disser que foi "pelo bem do amor", eu vou jogar a pipoca na TV. -Bruna resmungou, enfiando um punhado na boca.
- Você disse isso nas duas outras temporadas, amor. E ainda tá aqui assistindo, firme e forte. -falei, rindo, enquanto pegava uma batata Pringles do tubo entre nós.
- Porque eu quero ver se dessa vez ele se ferra de verdade. Ele é muito cara de pau. E a mulher dele também, né?
- A Love? Rainha do surto. Eu amo essa mulher. Tá ali competindo com o Joe pra ver quem é mais psicopata.
Bruna me olhou, semicerrando os olhos.
- Você tá dizendo isso com um pouco de admiração, Bieber. Preocupante.
- Não! Só acho… interessante o comprometimento dela.
- Ah, claro. Porque você também mataria por amor?
- Se alguém encostar um dedo em você, Bruna, eu viro documentário da Netflix rapidinho.
Ela caiu na gargalhada, jogando a cabeça pra trás e quase derrubando o pote de pipoca.
- Você é um idiota. Mas um idiota fofo.
- Esse é meu charme. Idiota funcional.
A gente deu uma pausa no massacre psicológico da série pra pegar os chocolates que estavam no frigobar. Bruna voltou com um pacote de M&M's e uma Coca Zero.
- Coca Zero pra balancear os crimes alimentares, né? -comentei, pegando a lata da mão dela.
- Sempre. -ela sentou de novo, cruzando as pernas.- Acha que se a gente tivesse uma série, seria tipo You ou tipo Friends?
- Friends, com certeza. Mas com uns toques de Elite quando a gente tá no quarto.
- Nossa! Justin! -ela me deu uma almofadada, rindo.- Você é ridículo!
- Mas você ama o ridículo.
- Infelizmente, sim.
Voltei a dar play no episódio, mas nem prestei atenção direito. Tinha algo em ficar com ela assim, sem obrigação de sair, de se arrumar, de fingir nada… só a gente, com a TV de fundo e comida demais. Isso sim era paraíso.
- Se fosse a gente nessa série, quem seria o assassino? -perguntei, depois de um tempo.
Bruna pensou por dois segundos e respondeu séria:
- Eu. Com certeza eu.
- Uau, zero hesitação.
- Eu ia fazer com estilo. Tipo… ninguém ia desconfiar. Ia parecer um acidente. Você ia ser o cúmplice fofo.
- Eu ia esconder o corpo e depois escrever uma música sobre isso.
- Justin! -ela riu de novo, deitando no meu peito.- A gente é muito doido, sabia?
- Por isso dá tão certo.
Ela assentiu, me abraçando mais forte. E ali, com ela rindo no meu colo, a TV falando sozinha e o quarto cheirando a chocolate e pipoca, eu tive certeza: não tinha lugar melhor no mundo pra estar.
Já estava escurecendo quando a gente percebeu que ficou o dia todo no quarto. Entre episódios, risadas e mordidas em cada doce do frigobar, o tempo simplesmente passou. Bruna ainda estava deitada sobre meu peito, traçando círculos preguiçosos com o dedo na minha barriga.
- A gente devia sair pra jantar? -perguntei, preguiçoso, mexendo no cabelo dela.
- E perder a chance de pedir hambúrguer no quarto e continuar assistindo série enquanto você tenta me convencer que é o Joe versão fofa?
- "Versão fofa" é bom. Joe Bieber: mata por amor, mas traz sorvete depois.
- Ok, agora você foi longe demais. -ela se ergueu pra me olhar nos olhos, rindo.- Você jamais seria o Joe. Sabe por quê?
- Por quê?
- Porque você não consegue nem matar uma barata. Aquela vez em Toronto, você me deixou sozinha com um chinelo e fugiu pro banheiro.
- Aquela barata voava, Bruna! Ela veio na minha direção com propósito!
Ela caiu na cama de novo, rindo sem parar.
- Eu namorando um astro do pop mundial que tem medo de inseto. É sobre isso.
- E tá tudo bem. -me inclinei e beijei o topo da cabeça dela.- Você é a destemida aqui.
Ela suspirou e ficou em silêncio por alguns segundos, me olhando com aquele sorrisinho de canto que me matava.
- Sabia que eu sonhei com isso? Estar assim com você, sem pressa, sem ninguém enchendo o saco… só a gente?
- Também sonhei com isso. Às vezes, quando tô no meio da correria e não aguento mais sorrir pra foto, tudo que eu quero é isso aqui. Você, pijama, série ruim e chocolate.
- You não é ruim! -ela fingiu indignação.
- Ok, ok! É… artisticamente duvidosa. Melhorou?
- Hum… passa. -ela pegou o controle.- Mais um episódio?
- Só se você prometer que vai me proteger da barata assassina caso ela tenha me seguido.
Ela ergueu o braço como uma guerreira viking:
- Por você, eu enfrento até inseto mutante.
- Te amo, sabia?
- Eu também, Bieber. Com ou sem medo de barata.
Nos ajeitamos de novo, com as pernas entrelaçadas, a TV como trilha sonora e o coração leve. A gente sabia que só tinha mais alguns dias ali, mas isso só fazia cada minuto valer ainda mais.
[...]
Os dias seguintes foram exatamente o que a gente precisava. Acordávamos tarde, pedíamos café no quarto, assistíamos besteira na TV e comíamos o que dava vontade, sem culpa. Era como viver numa bolha fora do mundo real. Só eu e Bruna.
No segundo dia, fomos pra piscina do hotel. A Bruna apareceu com um biquíni preto que me fez esquecer até meu nome. Ela sabia disso, claro. Jogou o cabelo de lado, colocou os óculos escuros e desfilou como se fosse dona do lugar. E eu, bobo, fui atrás feito sombra.
A gente mergulhou, nadou, se beijou debaixo d’água. Teve um momento que ela tentou me empurrar na parte funda e acabou caindo junto comigo. Quando voltamos pra superfície, estávamos rindo tanto que chamamos atenção.
- Tô falando sério, Bruna! -reclamei depois, rindo mesmo assim.- Quase morri ali!
- Drama. Você tem tipo… dois metros. Ficou em pé na parte funda!
A gente foi expulso do escorregador da piscina porque, tecnicamente, era só pra crianças. Mas Bruna não resistiu, subiu e gritou "VAI EUA!" antes de descer. Eu desci logo atrás, claro. A funcionária do hotel deu uma bronca, e a Bruna tentou se justificar dizendo que estava "explorando a cultura local"
- E que parte da cultura estadunidense é quebrar as regras de toboágua, Bruna? -perguntei, saindo da piscina com ela, molhados e morrendo de rir.
- A parte divertida.
À noite, voltávamos pro quarto, cansados, cheios de cloro e risadas. Ela sempre dizia que precisava estudar, que tinha prova… mas aí eu puxava ela pra cama, fazia carinho, ou oferecia mais um episódio da série. E ela cedia. Sempre.
Até que no quarto dia, depois de ver ela ignorar o alarme da aula de novo, eu falei sério.
- Bru, você não pode continuar faltando. -disse, sentado na beira da cama, enquanto ela se enterrava no edredom como uma tartaruga.
- Só mais hoje… por favor. -resmungou, sem nem abrir os olhos.
- Bruna, escuta. -me aproximei, puxando o edredom com carinho.- Eu sei que tá tudo incrível. Eu também queria viver aqui contigo pra sempre. Mas você sabe como são as regras. Você é estudante de fora, não pode ficar faltando assim.
Ela me olhou com aquele olhar pidão, mas eu mantive o tom firme.
- Se você perder o visto, a faculdade… tudo que você conquistou aqui… você vai se arrepender. E eu também.
- Tá. Tá bom. -ela suspirou, jogando o braço por cima dos olhos.- Eu vou amanhã. Prometo. Hoje ainda é nosso penúltimo dia. Só mais um dia com você assim. Depois eu volto a ser responsável.
- Jura?
- Juro. Pela sua carreira. Pela minha. Pelo nosso futuro. -ela abriu um olho e sorriu.- E porque, sinceramente, esse travesseiro aqui vale mais que minha aula de estatística.
- Aí, você tem um ponto.
Nos beijamos ali mesmo, com o sol entrando pela janela e o som da cidade ao fundo. A gente sabia que só tinha mais um dia inteiro juntos, e cada minuto era precioso.
[...]
O último dia chegou rápido demais. Era como se o tempo tivesse acelerado só pra sacanear a gente. Acordamos juntos, em silêncio, sem falar sobre isso. Só aproveitando os últimos momentos. Mas eventualmente, ela teve que se vestir, colocar a mochila nas costas e encarar a realidade. E eu, mesmo com o coração apertado, fui com ela até a Columbia.
O carro parou em frente ao portão principal, e quando ela olhou pra cima, pude ver nos olhos dela que aquela fachada mexia com alguma coisa lá dentro.
Ela se virou pra mim, os olhos marejados.
- Não vai embora, Justin…
Meu coração doeu com força.
- Bru… eu queria ficar. Você sabe disso. Mas eu preciso voltar pra estrada. Tenho shows, ensaios, estúdio. A vida não para. Mas isso aqui -apontei entre nós- não vai parar também.
- Eu sei… -sussurrou, mordendo o lábio, tentando conter o choro.- Mas eu odeio quando você vai embora. Eu fico me sentindo meio… vazia.
- Eu também. Mas a gente sobreviveu até agora, né? E agora a gente tá mais forte. Eu confio em você. Confio na gente. E você precisa confiar também.
Ela se inclinou e me abraçou forte, o rosto escondido no meu pescoço. Senti os ombros dela tremerem um pouco.
- Não faz isso… você me fazendo chorar, Bieber… -ela sussurrou, com a voz embargada.
Abracei ela mais apertado.
- Eu te amo, Bruna. Tá ouvindo? Não esquece isso nem por um segundo.
Ela se afastou só o suficiente pra me olhar nos olhos.
- Também te amo. Com tudo que eu sou. Vai com cuidado, tá? Se cuida. Dorme direito. Come direito. E me liga sempre.
- Prometo. E você vai direto pra aula agora, mocinha. Sem mais faltas, ou eu volto aqui só pra te colocar de castigo.
Ela riu em meio às lágrimas, enxugando o rosto com a manga da blusa.
- Idiota.
Nos beijamos uma última vez, devagar, tentando guardar cada segundo, cada toque.
Ela desceu do carro, andou alguns passos, mas antes de entrar no campus, se virou de novo. Acenou, com aquele sorrisinho triste, e desapareceu por entre os prédios da Columbia.
E eu fiquei ali, parado, olhando pro mesmo lugar onde ela sumiu, com o peito apertado, já contando os dias pra ver ela de novo.
Voltar pra estrada depois daqueles dias com a Bruna foi… estranho. Eu costumava sentir um tipo de adrenalina antes de um show, uma ansiedade boa. Mas agora, parecia que faltava alguma coisa. Tipo, eu tava lá, com a galera gritando meu nome, mas minha cabeça tava em Nova York. Pensando se ela chegou bem na aula, se comeu direito, se tá com saudade.
Scooter tentou me distrair, como sempre. Me levou direto pra uma reunião com a equipe de produção, depois pro ensaio. No fim da noite, quando tudo já parecia ter dado uma acalmada, ele chegou com aquele olhar animado.
- Justin, preciso te apresentar alguém. -disse, com aquele sorriso de empresário empolgado.- Uma parceria de peso. Ela tem uma voz incrível, presença de palco absurda. Topou fazer um feat com você.
- Quem é? -perguntei, meio cansado.
E então ela entrou.
Alta, estilosa, um sorriso confiante no rosto. Óculos escuros mesmo dentro do estúdio e de noite, o perfume forte e marcante. Era a Maya Vega. Uma estrela em ascensão. Voz potente, hits no topo das paradas, milhares de seguidores, e uma reputação de ser… intensa.
- Finalmente te conheci, Bieber. -ela tirou os óculos e me encarou com aquele olhar direto, como se me despisse inteiro com um só movimento.- Ouvi dizer que a gente vai fazer história juntos.
- Se depender da música, talvez sim. -sorri, educado.
- Não só da música, né? -ela disse, se aproximando demais.- Eu sempre achei você mais bonito ao vivo.
Scooter riu, achando que era piada.
Eu, nem tanto.
- Obrigado… -desviei o olhar, dando um passo discreto pra trás.- Vamos focar no estúdio primeiro, né?
Ela sorriu, um sorriso lento e malicioso.
- Claro, claro… mas se sobrar tempo, a gente pode explorar outras… melodias.
Me forcei a rir, mas por dentro, já tava mandando mensagem pra Bruna. Porque uma coisa eu aprendi com ela: mulher sente o clima de longe. E esse aqui, tava prestes a esquentar de um jeito que eu não tava nem um pouco afim.
Depois daquele "encontro" com a Maya, a noite inteira ficou com um gosto estranho. Não que eu fosse bobo. Eu sabia quando alguém tava interessada de um jeito que ia além da música. E ela não fazia questão nenhuma de esconder.
No estúdio, ela era profissional — até certo ponto. Cantava bem, sabia exatamente o que queria, mas entre uma gravação e outra, sempre soltava uma provocação.
- Justin, você tem um perfume bom demais. Quase me desconcentra.
Ou:
- A letra ficou boa… mas se a gente tivesse escrito juntos, duvido que conseguiríamos terminar a música. -com aquela risadinha que não deixava dúvidas.
Eu tentava levar na esportiva, respondia com neutralidade, mas por dentro, só conseguia pensar em uma coisa: "A Bruna ia surtar se visse isso."
E, sinceramente? Eu também tava começando a surtar.
Naquela noite, no quarto do hotel em L.A., jogado na cama depois de horas de gravação, liguei a câmera e chamei a Bru. Era madrugada em Nova York, mas ela atendeu com a voz sonolenta.
- Oi, amor… tudo bem?
A imagem dela, descabelada, com a camiseta larga e a cara inchada de sono, era tudo que eu precisava ver pra lembrar do que importava.
- Agora tá. -sorri.- Você tá linda até com cara de quem brigou com o travesseiro.
Ela riu fraco.
- Tô morrendo de saudade… Tá tudo bem aí?
Pensei em contar da Maya. Mas a Bruna já era ciumenta, e eu não queria alimentar nenhuma insegurança — até porque, eu era 100% dela. Então só respondi:
- Tá tudo bem. Só cansativo. Mas fiquei o dia inteiro pensando em você.
Ela sorriu, daquele jeitinho bobo e apaixonado.
- Eu também. Até coloquei sua camiseta pra dormir. -mostrou, puxando o tecido da gola com orgulho.
- Cuidado, hein. Se algum gringo aí sentir o cheiro e te reconhecer, vai me dar problema. -brinquei.
- Relaxa. Só tenho olhos pra você. -ela piscou.- Mas tô com saudade do seu cheiro de verdade. Do seu abraço. De dormir com você...
- Da minha pegada? -arqueei a sobrancelha, provocando.
- Também. -ela riu.- Mas principalmente de conversar com você assim, olhando nos seus olhos. Mesmo que seja por tela.
Ficamos um tempo em silêncio, só nos olhando. E naquele instante, tive certeza de uma coisa: ninguém, nem Maya, nem nenhuma estrela pop, ia me fazer desviar da Bruna. Ela era minha casa, meu ponto de paz no meio do caos.
- Me promete uma coisa? -ela perguntou baixinho.
- O que quiser.
- Que você não vai esquecer de mim mesmo rodeado de gente famosa e bonita.
- Bruna… -suspirei.- Você é a pessoa mais linda e real que eu conheço. E a única que eu quero do meu lado, quando tudo isso passar.
Ela mordeu o lábio, segurando as lágrimas.
- Eu te amo, Bieber.
- Eu te amo mais, Bru.
Desligamos depois de uns vinte minutos trocando "boa noite" de mil formas diferentes. E naquela noite, dormi melhor. Com o coração leve.
Porque mesmo longe, ela ainda era meu lugar favorito.
[...]
O suor ainda escorria pela minha nuca quando entrei no camarim. A adrenalina do show correndo solta nas veias. A plateia tinha gritado cada verso, cada nota — aquele tipo de noite que me lembrava por que eu amava tanto estar em cima de um palco.
Tirei a camiseta encharcada, jogando em um canto, e peguei uma garrafinha de água gelada, tentando controlar a respiração. Foi aí que vi Scooter, encostado na parede, braços cruzados e uma expressão meio difícil de decifrar.
- Aconteceu alguma coisa? -perguntei, ainda ofegante.
- A gente precisa conversar. -ele disse, direto.
Meu estômago revirou um pouco. Quando o Scooter começava assim, nunca era bom sinal.
- Manda. -me sentei no sofá, passando a toalha no rosto.
- Falei com a empresária da Maya hoje. -ele começou, se aproximando.- E ela sugeriu uma ideia que… bom, pode fazer sentido estrategicamente.
- Que tipo de ideia? -franzi o cenho.
Ele suspirou, tirando o boné pra coçar a cabeça, e então soltou:
- Um namoro fake. Entre você e a Maya. Só por um tempo. Nada muito elaborado, só alguns flagras juntos, um post ou outro, aquela coisa pra fazer burburinho antes de lançar a música de vocês. A ideia é transformar isso em viral, sabe? Tipo… "casal do momento", essas coisas.
Fiquei em silêncio por dois segundos, tentando absorver aquilo. Depois, ri. Um riso seco.
- Você tá brincando comigo, né?
- Justin…
- Cara, não. -levantei, ainda com a toalha na mão, andando de um lado pro outro.- Eu não preciso disso. Desde quando a gente precisa inventar namoro pra lançar música?
- Eu sei, mas…
- Qualquer música que eu lançar, o pessoal vai ouvir. Eu sou o Justin Bieber. Eu não preciso de estratégia de marketing adolescente pra fazer uma faixa virar hit.
Scooter não respondeu de imediato. Apenas me observava.
- Eu tô com a Bruna, cara. E mesmo que não tivesse, eu não toparia. Isso não tem nada a ver comigo. Eu não sou esse tipo de artista.
Ele respirou fundo.
- Eu sei. E eu não tô dizendo que você tem que aceitar. Mas achei que deveria te contar a proposta. Eles estão empolgados com o projeto.
- Que ótimo pra eles. -disparei, voltando a sentar.- Mas comigo não rola. Eu tenho uma vida real. Eu tenho uma garota real esperando por mim do outro lado do país. E eu não vou jogar isso fora por causa de uma música.
Scooter assentiu lentamente. Respeitava minha decisão, eu sabia. Mas também sabia que ele era empresário. Sempre pensava em números, gráficos, buzz.
- Tá bom. Eu falo com eles. -ele disse por fim.- Só queria que você soubesse.
- Obrigado. Mas deixa bem claro que esse tipo de coisa não tem espaço na minha carreira.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. A euforia do show já começava a se dissipar, dando lugar à exaustão e a uma leve irritação. Eu precisava de um banho… e de ouvir a voz da Bruna.
Peguei o celular e mandei um "saudade de vc" com um coraçãozinho. Meio bobo, eu sei. Mas era o jeito mais simples de dizer: aqui fora, é tudo barulho. Mas com você, tudo faz sentido.