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Capítulo 61

Marina Narrando

Era só mais uma terça-feira qualquer. Aquelas em que o tempo se arrasta e o café parece não dar conta de manter os olhos abertos. Eu tava ali, sentada na segunda fileira da sala, tentando focar na aula de atuação, mas minha cabeça insistia em vagar… Luan. Cada vez que o professor falava em "conexão emocional", eu lembrava do jeito que ele segurava meu rosto quando me beijava. A saudade me pegava desprevenida nos momentos mais bobos, como quando passava o dedo no anel que ele me deu antes de ir embora. Quinze dias com ele pareciam um sonho do qual eu não queria ter acordado.

A aula terminou com os alunos levantando aos poucos, rindo, alguns fazendo planos pra almoçar juntos. Eu comecei a guardar minhas coisas na bolsa quando ouvi minha professora, a Sra. Whitmore, me chamando.

- Senhorita Bieber? Senhor Everleigh? Um minutinho, por favor?

Meu estômago deu um leve revirar. Sério? Logo eu e o Victor?

Ele me lançou aquele olhar frio e entediado, como se estivéssemos sendo punidos juntos — de novo. Revirei os olhos e esperei os outros alunos saírem da sala, cada um com sua pressa habitual. A porta se fechou e o silêncio ficou mais denso.

- Queria conversar com vocês dois sobre uma oportunidade. -a professora começou, apoiando-se na mesa.- Eu recebi uma ligação ontem à noite de um amigo meu, produtor em Los Angeles. Ele está finalizando o elenco para uma produção que vai começar a ser gravada em breve. E ele está procurando dois jovens atores para papéis pequenos, mas com tempo de tela real. Talvez até algumas falas.

Victor levantou uma sobrancelha, com aquele ar convencido de quem já se vê indicado ao Emmy.

- Não seriam figurantes, então? -ele perguntou, cruzando os braços.

- Não, nada disso. -respondeu ela.- E eu indiquei vocês dois.

Senti um frio percorrer minha espinha. Eu?

- Por quê... nós dois? -perguntei, com a voz mais baixa do que eu queria.- Quero dizer… juntos?

- Porque, apesar das diferenças… -ela nos olhou com aquela expressão de professora que sabe mais do que diz.- Vocês são os melhores da turma. Vocês têm brilho. E química em cena, mesmo quando fingem que não se suportam fora dela.

Meu rosto queimou. Victor bufou.

- E quanto às aulas? -perguntei, tentando ignorar o olhar dele ao meu lado.

- Já falei com a coordenação. Vocês não vão perder nada. Vão manter presença, sem penalização. Tudo acertado.

Meu coração batia acelerado. Los Angeles. Uma chance real. Eu sabia que era uma oportunidade rara. Mas com o Victor? Logo ele?

- Vocês não precisam responder agora. Mas o teste com o produtor é em dois dias. Lá mesmo em LA. Eles pagam a viagem. -ela sorriu, animada.- Pensem com carinho. Às vezes, as portas se abrem nos momentos mais inesperados.

Assenti, um pouco atordoada. A professora saiu da sala e nos deixou sozinhos. O clima virou um gelo.

- Nem pensa que eu tô feliz de ter que te acompanhar nessa viagem. -Victor falou antes que eu dissesse qualquer coisa.

- O sentimento é recíproco. -respondi, guardando o último caderno na bolsa.

Ele soltou um riso cínico. 

- Claro que é. Você nunca me perdoou por não ter te contado o que eu fazia. Mas você também escondeu de mim algo muito maior, Marina. Então, não venha bancar a santa.

- Eu não tô aqui pra discutir com você. -respondi firme, respirando fundo.- Isso é profissional. Se você topar ir, ótimo. Mas finge que eu sou invisível.

- Com prazer. -ele respondeu, dando meia-volta e saindo da sala.

Fiquei ali por um instante, respirando fundo.

Los Angeles.

Talvez fosse exatamente o que eu precisava. Um recomeço. Uma distração. Ou um teste… pra saber até onde eu realmente queria chegar com meu sonho.

Assim que saí da sala, meu coração ainda batia acelerado. Eu nem fui direto pro refeitório. Sentei num dos bancos do jardim central, tirei o celular da bolsa e disquei o número que minhas mãos já sabiam de cor. Luan atendeu no segundo toque.

- Oi, meu amor. -a voz dele veio abafada, mas ainda assim com aquele tom carinhoso que fazia tudo em mim desacelerar.- Tá tudo bem?

- Sim! Quer dizer... mais ou menos. Tenho uma coisa pra te contar.

- Ih, fala logo que já fiquei nervoso. -ele riu baixinho.

Respirei fundo, o celular colado na orelha, como se ele pudesse me ver.

- Uma produtora aqui da faculdade indicou meu nome pra um teste em Los Angeles. É uma produção pequena, mas a gente vai ter tempo de tela... talvez até falas.

Do outro lado da linha, o silêncio durou dois segundos.

- Sério? Caramba, Marina, isso é incrível! -ele exclamou, com entusiasmo genuíno.- Você tem que ir! Essa é a tua chance, amor. Teu talento merece o mundo.

- Mas é com o Victor. -mordi o lábio, sabendo que ele entenderia o peso daquela informação.

- Tudo bem… -ele falou mais baixo agora.- Mas foca no que isso representa pra você, não em quem vai junto. Você é forte, corajosa. Não vai deixar ninguém te atrapalhar.

Suspirei, emocionada com o apoio.

- Obrigada, Luan. Eu precisava ouvir isso. Sério.

- Vai lá, arrasa, brilha. Depois me conta tudo, quero saber cada detalhe.

- Te amo.

- Também te amo, princesa.

Desliguei sorrindo. Era exatamente o que eu precisava: o empurrão emocional que só ele conseguia me dar.

Atravessar o campus até o refeitório foi como caminhar sobre nuvens. O cheiro de pizza e batata frita me puxou de volta pra realidade. Bruna, Virgínia e Olívia já estavam sentadas na mesa de sempre, rindo de alguma coisa que provavelmente envolvia alguém sem noção da sala de biologia.

- Aê, sumida! -Olívia acenou quando me viu.

- Onde cê tava, mulher? -Bruna perguntou com um pedaço de pizza na mão.

- Gente... eu tenho uma bomba. -falei, puxando uma cadeira.

- Tá grávida? -Virgínia arregalou os olhos.- Porque se for, juro que eu jogo esse refrigerante no chão e faço um escândalo.

- Não! -ri.- É coisa boa. Eu fui chamada pra fazer um teste numa produção em Los Angeles.

As três ficaram em silêncio por dois segundos antes de explodirem:

- O QUÊÊÊ???

- MARINA! -Bruna praticamente gritou.- COMO ASSIM???

- A professora Whitmore me indicou. E... eu vou com o Victor. -fiz careta antes que elas surtassem.

- Putz... -Bruna fez uma cara feia.- Mas e daí? Isso é enorme! Você tem que ir! Quer que eu vá junto pra dar tapa na cara dele se ele respirar perto de você?

- Eu apoio. -Virgínia levantou a mão.

- Eu levo uma raquete elétrica pra separar vocês. -completou Olívia.

- Vocês são doidas. -falei, rindo.

- Mas sério, amiga, é a sua chance. -Bruna pegou minha mão.- Vai lá, representa todas nós. E se for fazer cena de beijo, você fala que não pode, porque seu namorado é ciumento.

- Muito. -murmurei, sorrindo.

Elas comemoraram comigo e encheram minha bandeja de comida, como se eu precisasse de energia extra pra ir até LA. E talvez precisasse mesmo. Porque por mais que meu coração estivesse ansioso, também estava cheio de esperança.

Voltar pro dormitório com aquela notícia ainda borbulhando dentro de mim parecia surreal. O quarto virou um caos gostoso: risadas, roupas jogadas na cama, malas abertas no chão e Bruna esparramada no tapete como se fosse a stylist oficial da Beyoncé.

- Isso aqui... -ela ergueu um conjuntinho monocromático rosa chiclete.- É perfeito pro aeroporto. A vibe é "estou casual, mas rica". Vai que tem paparazzi.

- Bruna, não vai ter paparazzi. É uma produção pequena, só um teste. -falei, rindo, sentada na beirada da cama.

Ela me lançou aquele olhar dramático, quase ofendida.

- Você é Marina Bieber, irmã do Justin Bieber, namorada do Luan Santana. Você não é uma Zé Ninguém! Não existe "casual" pra você mais, aceita logo.

- Amiga, ela tá certa. -Virgínia falou enquanto passava uma blusa na chapinha pra tirar os amassados.- Você pode espirrar no aeroporto e viralizar.

- Cês tão exagerando. -resmunguei, mas por dentro… eu adorava esse carinho todo.

Melanie apareceu na porta do quarto com um milkshake na mão e a cara de quem veio ver o circo pegar fogo.

- Então é verdade que você vai pra Los Angeles? -ela entrou sem ser convidada e se jogou no pufe.- Achei que fosse mentira. Ou, sei lá, uma tentativa de chamar atenção.

Bruna ergueu uma sobrancelha, pronta pra responder, mas eu fui mais rápida.

- É verdade, e não, não tô tentando chamar atenção. Mas obrigada pela preocupação.

Melanie deu de ombros, tomando mais um gole do milkshake.

- É... meio legal, vai. Tipo, eu não ia dizer isso, mas... tomara que você arrase. De verdade. Só... não esquece que foi comigo que você assistiu "High School Musical" umas 37 vezes. Então se rolar cena de musical, você já tá preparada, graças a mim.

- Mel, nem vai ser musical. -falei, rindo.

- Mas se for, você canta "Breaking Free", tá? -ela piscou.- Tô torcendo por você.

- Uau. Isso foi o mais próximo de um elogio que você já me deu desde 2020. -brinquei, pegando a mala do armário.

- É porque eu tô amadurecendo. -ela respondeu, jogando o cabelo pra trás, dramática.

Bruna se aproximou com o look montado e colocou em cima da cama: calça wide leg bege, top branco canelado e um óculos escuro estilo diva de Cannes.

- Pronto. Tá linda. Tá poderosa. Tá Bieber. -ela declarou.

- E a mala? Já sabe o que vai levar? -Olívia perguntou, com um biscoito na boca.

- O mínimo do mínimo. São só alguns dias. Uns looks básicos, maquiagem, escova de cabelo… e meu travesseiro.

- Nada é básico com você, Marina. -Virgínia comentou.- Ainda mais com o Luan provavelmente fazendo FaceTime de hora em hora.

Ficamos ali, embaladas pela empolgação, entre uma escolha de roupa e outra, piadinhas, conselhos e memórias. Até Melanie, de forma sutil, ajudou a escolher o brinco que combinava com o look. Talvez ela ainda fosse meio invejosa, mas... era minha irmã. E no fundo, eu sabia que ela estava feliz por mim.

Quando a noite caiu, a mala já estava pronta, o look separado e meu coração pulando como se tivesse glitter dentro dele.

[...]

O avião pousou em Los Angeles bem cedo, e o céu estava de um azul exagerado, como se até o clima soubesse que minha vida estava prestes a mudar de novo.

Desci do avião ainda sonolenta, segurando meu travesseiro rosa contra o peito, enquanto Victor vinha atrás, arrastando a mala dele como se estivesse carregando o peso do mundo. E talvez estivesse — ou talvez só fosse drama mesmo, o que não seria novidade.

- Bom dia, Hollywood. -murmurei, sorrindo pra mim mesma, assim que senti o vento californiano no rosto.

- Você não vai começar com frase de filme clichê, vai? -Victor resmungou atrás de mim, com aquele tom de voz que fazia questão de me lembrar que ele era insuportável.

Revirei os olhos, me virando pra ele.

- Cala a boca, Victor.

- Só estou dizendo. Você já chegou achando que tá no set de “La La Land”.

- E você já chegou como? Achando que é o Leonardo DiCaprio?

- Não, eu sou mais carismático. -ele respondeu, debochado.

- Com certeza. Igualzinho. -balancei a cabeça, rindo sozinha, tentando não deixar o bom humor do momento ser estragado por ele.

Fomos recebidos no portão de desembarque por uma assistente de produção chamada Kelly, super simpática e animada, que carregava uma prancheta e um crachá pendurado no pescoço.

- Marina Bieber e Victor Everleigh? Bem-vindos a LA! -ela disse, sorrindo.- O produtor tá muito animado pra conhecer vocês. Vocês vão amar o estúdio.

- Uau, já começamos bem. -murmurei, enquanto ela nos guiava até um carro preto estacionado na área VIP.

No trajeto, tentei manter a calma, mas meu estômago dava saltos de ansiedade. Não era só um papel. Era a chance de mostrar quem eu era. Não só a irmã do Justin, não só a namorada do Luan… mas eu, Marina, atriz, sonhadora e apaixonada por tudo isso.

Victor ficou em silêncio boa parte do caminho, mexendo no celular, o que era ótimo. Qualquer momento longe das alfinetadas dele já era uma vitória.

Chegamos ao hotel onde ficaríamos hospedados — um lugar charmoso, discreto, mas muito elegante. Eu ganhei um quarto com vista para a cidade, e a primeira coisa que fiz foi abrir a janela e deixar o vento bagunçar meu cabelo.

Peguei o celular e mandei uma foto da vista pro Luan.

"Cheguei. Tá tudo lindo aqui. Mas sem você, não tem graça."

Em menos de dois minutos, ele respondeu com um áudio:

- Você vai brilhar aí, amor. E eu tô aqui, do outro lado do mapa, torcendo por você em cada respiração. Só não esquece de mim, tá?

Meu coração apertou. Respirei fundo.

- Como eu poderia?

Acordei cedo no outro dia, mesmo com o fuso ainda bagunçando nossos relógios internos. A produção mandou um carro pra nos buscar e nos levar até os estúdios onde aconteceria nossa primeira reunião oficial com o diretor do projeto. Eu coloquei um jeans escuro, uma blusa de gola alta preta e joguei um blazer por cima, tentando passar uma imagem profissional, mas por dentro eu estava borbulhando de curiosidade.

Victor, claro, chegou atrasado três minutos, com cara de sono e um café gigante na mão.

- O diretor vai amar esse seu ar de bad boy cansado. -provoquei, enquanto entrávamos juntos no elevador.

- Ah, então finalmente você admite que eu tenho ar de bad boy? -ele sorriu de lado.

- Só tô tentando manter suas expectativas baixas pra você não se decepcionar depois. -retruquei, cruzando os braços.

Rimos juntos — coisa rara — e entramos na sala onde um homem de aparência elegante, cabelos grisalhos perfeitamente penteados e um sorriso entusiasmado nos esperava de braços abertos.

- Marina Bieber e Victor Everleigh, sou Domingo González. -ele se apresentou, apertando nossa mão com firmeza.- É um prazer finalmente conhecer vocês dois. Estava muito animado pra esse encontro.

Nos sentamos numa mesa ovalada, com luz suave e telas ligadas com moodboards do projeto. Domingo falava com brilho nos olhos, enquanto nos contava sobre a estética, o clima da produção, os personagens, e até algumas ideias de trilha sonora. Mas conforme ele falava… Victor e eu trocamos um olhar confuso.

- Desculpa, senhor González. -interrompi educadamente.- Eu... só queria entender melhor. Achei que viemos pra um papel pequeno, uma participação rápida, coisa de poucos dias…

Domingo deu uma gargalhada gostosa, relaxada.

- Ah, isso foi só um truque da sua professora pra garantir que vocês viriam sem hesitação. -ele sorriu.- Mas não, meus queridos. Vocês são os protagonistas.

Meus olhos arregalaram, e eu senti meu coração disparar. Ao lado, Victor soltou uma risada nervosa.

- Protagonistas? -ele repetiu.- Não fomos informados de nada disso. Disseram que era algo pequeno e rápido… que logo voltaríamos pra Nova York.

Domingo deu de ombros, ainda sorrindo.

- E se quiserem mesmo que seja pequeno, tudo bem. Eu consigo novos protagonistas ainda hoje. Tem fila de jovens talentosos batendo na minha porta.

Olhei pra Victor de relance, mas voltei rapidamente os olhos pro diretor.

- Eu topo. -falei, antes mesmo de pensar duas vezes.- Se o papel é meu, eu quero ele. Pode contar comigo.

Victor me encarou por um segundo, como se estivesse tentando decidir se isso era loucura ou genialidade. Então suspirou.

- Tá… tudo bem. Eu também aceito.

O brilho nos olhos de Domingo quase iluminou a sala.

- Excelente! Vocês dois têm química, têm presença. A câmera vai amar vocês. E a história… é quente, intensa, cheia de conflitos. O público jovem vai pirar.

Ele se levantou e foi até uma tela onde projetou as primeiras imagens do que parecia ser o mood do filme. Então se virou pra nós.

- O nome do projeto é Minha Culpa, e é inspirado numa trilogia best-seller chamada Culpables. Se o primeiro filme fizer sucesso, o que eu acredito que fará, a sequência já está prevista: Sua Culpa, e depois Nossa Culpa.

Eu engoli em seco. Três filmes.

Três.

- No primeiro longa, Minha Culpa, vocês viverão Noah e Nick. -Domingo andava de um lado pro outro, animado.- Noah é uma garota de 17 anos que precisa deixar tudo para trás: cidade, namorado, amigos, quando a mãe se casa com um milionário chamado William Leister. Eles vão morar numa mansão absurda. Noah odeia aquilo tudo... até conhecer Nick, o filho de William.

- Meio-irmãos? -Victor arqueou uma sobrancelha.

- Exatamente. -Domingo assentiu.- Mas Nick é tudo menos o que parece. Por fora, ele é o garoto perfeito. Por dentro, vive envolvido com corridas de rua ilegais, apostas, brigas, e um passado conturbado. Noah e Nick se detestam de cara, mas não demoram a se sentir atraídos um pelo outro. E o que começa como desprezo... vira uma paixão intensa, cheia de tensão e desejo.

Victor se remexeu na cadeira, desconfortável.

- Meio-irmãos e apaixonados. Isso vai gerar polêmica.

- Exatamente o que queremos. -Domingo sorriu.- A internet vai surtar.

Eu tentava processar tudo. Era muito. E muito rápido.

Mas parte de mim estava animada como nunca. Meu sonho não era só atuar, era viver personagens intensos, cheios de conflitos, dramas, paixões perigosas.

E agora… eu seria Noah.

Victor seria Nick.

Domingo ainda falou sobre os testes de figurino, as leituras de roteiro, e que começaríamos as gravações dentro de duas semanas, mas só depois de um workshop com um preparador de elenco conhecido.

Enquanto ele explicava, meu celular vibrou com uma mensagem do Luan:

"Boa sorte hoje, meu amor. Tenho certeza que você vai arrasar."

Olhei pra tela por um segundo, tentando lembrar que o mundo real ainda existia.

Porque naquele momento… tudo parecia uma ficção prestes a se tornar real.

Assim que saí da reunião com Domingo, senti a necessidade de andar. Respirar. Processar tudo.

Pedi licença ao pessoal da produção, avisei que precisava de um tempo, e simplesmente segui pelas ruas de Los Angeles. Aquela cidade era tão minha quanto meu sobrenome. Cresci ali. Tanta coisa da minha vida tinha acontecido entre aqueles prédios, entre aquelas avenidas cheias de palmeiras altas e céu quase sempre azul.

O ar da Califórnia era diferente, mais leve. Tinha cheiro de infância, de começo, de lembranças com minha mãe, com Justin e até com Melanie nas raras vezes em que a gente não estava se bicando.

Meus passos me levaram quase sem querer até um bairro que eu conhecia bem. Os cafés descolados, as vitrines vintage, os muros grafitados... Era como se cada esquina me contasse uma história. Um calor subiu pelo peito. Saudade. Nostalgia. Uma pontada de pertencimento.

As pessoas me olhavam enquanto eu passava. Algumas franziam o cenho, curiosas. Me fitavam com aquele olhar típico de "eu te conheço de algum lugar". E aquilo me fez pensar.

Logo, eu não ia mais conseguir andar assim. Solta. Livre. Anônima o bastante pra escolher meu próprio caminho.

Entrei numa cafeteria que ficava numa ruazinha charmosa. Era pequena, com luz baixa e cheirinho de café moído na hora. A mesma que eu, Olívia e Virgínia íamos quase todo fim de tarde no ensino médio, sentar num dos sofás fundos e passar horas conversando sobre a vida.

A porta se fechou atrás de mim com o tilintar do sino, e uma moça atrás do balcão levantou os olhos.

- Meu Deus… Marina? Marina Bieber?

Sorri, meio surpresa.

- Você me reconheceu?

- Claro que sim! -ela sorriu, limpando as mãos num pano.- Você vinha sempre aqui com suas amigas. Pedia sempre um cappuccino com leite de aveia e um muffin de mirtilo. Acertei?

- Acertou em cheio.

- Pode se sentar, eu levo pra você.

Agradeci e fui até minha mesa preferida, perto da janela. O mesmo lugar onde, anos atrás, eu sentava com meu fone pendurado no pescoço, caderno rabiscado na mão e sonhos de atriz girando na cabeça.

Suspirei fundo e tirei o celular da bolsa. Cliquei na tela do Luan e iniciei uma chamada de vídeo. Ele atendeu rápido, ainda com o cabelo molhado, provavelmente do banho pós-ensaio.

- Oi, minha atriz de Hollywood. -ele sorriu, e só de ver aquele rosto, meu coração deu um nó.

- Oi, amor... -forcei um sorriso.

- Que cara é essa? Achei que ia me ligar pulando de alegria.

- Eu... é que tá tudo acontecendo tão rápido. -suspirei.- A gente chegou achando que ia fazer uma pontinha num filme qualquer. E agora... agora eu sou a protagonista. A personagem principal, Luan.

- Isso é incrível, Marina! É tudo que você sempre sonhou.

- É, eu sei. -baixei o olhar.- Mas o roteiro... eu vou viver um casal com o Victor. Um par romântico. A história é intensa, tem beijo, tem cenas quentes... E eu não sei se tô pronta pra isso. Não sei se é certo.

Luan ficou em silêncio por alguns segundos, apenas me olhando pela tela. Depois, falou com aquele tom calmo que só ele tinha:

- Amor, você é atriz. Essa é a sua profissão. Você estudou pra isso. E se o papel te desafia, se ele te tira da zona de conforto, então ele é perfeito. Eu confio em você. E confio em nós.

Mordi o lábio, emocionada. Ele continuou:

- Eu sabia desde o dia que te vi na Columbia que você nasceu pra isso. Não deixa a insegurança te parar agora. Vai com tudo, Mari. Mostra pra todo mundo quem você é.

- Eu te amo. -murmurei, engasgada.

- Eu também te amo. E tô aqui, sempre. Mesmo que seja só pela tela, por enquanto.

Sorri, deixando uma lágrima escapar no canto do olho. A atendente chegou com minha bebida e o muffin, me desejando “boa sorte na carreira” com um sorriso cúmplice.

Desliguei o celular depois de mais alguns minutos de conversa com Luan, sentindo o peito um pouco mais leve.

Talvez eu não tivesse todas as respostas.

Talvez eu não soubesse se voltaria pra Columbia.

Mas uma coisa era certa: aquele café com gosto de passado marcava o começo de um novo futuro. E eu estava disposta a viver tudo — mesmo que isso significasse encarar meu ex todos os dias no set... e fingir que éramos apaixonados.

Seja o que Deus quiser.

Duas semanas depois...

Era final de setembro, o calor em Los Angeles estava mais ameno naquele dia, com uma brisa gostosa atravessando as janelas do estúdio. O coração batia acelerado no meu peito — hoje começariam oficialmente as gravações de Minha Culpa. Não era mais preparação, nem ensaio. Hoje a câmera ia rodar pra valer.

Cheguei cedo ao set. O estúdio já estava movimentado, com gente andando de um lado pro outro, carregando cabos, testando iluminação, ajustando os microfones. Fui direto pro camarim, onde minha cadeira já tinha meu nome colado com fita branca: "Marina Bieber". Senti um friozinho na barriga só de olhar.

A figurinista me entregou o primeiro look da personagem Noah. O figurino dela era uma mistura de rebeldia e dor — o reflexo da história que a personagem carregava.

Enquanto eu me trocava, focada, tentando respirar fundo e me concentrar, alguém bateu na porta.

- Marina? -era uma das assistentes de produção.- Chegou isso pra você.

Ela entrou carregando um buquê enorme de flores. Lírios, rosas brancas e lavandas, tudo arrumado de um jeito delicado e elegante. Meus olhos se arregalaram.

- Meu Deus… -sussurrei, caminhando até o arranjo.

No meio das flores, havia um envelope com meu nome escrito à mão. Reconheci a letra na hora.

Abri o bilhete devagar, sentindo o coração se aquecer:

"Meu amor,
Sei o quanto esse dia significa pra você. Começar um filme, ser protagonista, mostrar pro mundo todo o seu talento... isso é só o começo.

Eu te conheço como ninguém, e sei que você vai arrasar. Você nasceu pra brilhar, Marina. E mesmo estando longe, tô aqui torcendo, sentindo orgulho de tudo que você conquistou.

Vai com tudo, minha atriz favorita.

Com amor,
Luan."

Minhas mãos tremiam levemente enquanto eu segurava o papel. Um sorriso bobo se abriu no meu rosto, e meus olhos encheram d’água.

Luan. Ele sempre sabia o que dizer. Mesmo à distância, mesmo com a correria da vida dele e a minha, ele encontrava uma forma de me fazer sentir segura, amada, forte.

Eu encostei o bilhete no peito por um momento, fechei os olhos, respirei fundo.

- Vamos começar a gravar a primeira cena, Marina. -chamou um dos assistentes de direção, batendo levemente na porta.

Abri os olhos. Enxuguei rapidamente os olhos com os dedos, sorri pra mim mesma no espelho e peguei o bilhete de Luan, guardando dentro da minha bolsa como um amuleto.

- Hora de brilhar. -murmurei.

E saí do camarim em direção ao set, sentindo que aquele seria o primeiro dia do resto da minha vida.

Claro! Aqui está a mesma cena, agora com Marina narrando em primeira pessoa, mostrando suas emoções durante o primeiro dia de gravação como Noah:

Enquanto me ajeitava no banco do carro e olhava pela janela, senti meu coração acelerar. O diretor estava ali fora, ajustando os últimos detalhes da câmera. Era a minha primeira cena como Noah. A primeira fala. A primeira chance de provar que eu realmente merecia aquele papel.

Respirei fundo, tentando ignorar o frio na barriga. Eu já tinha decorado cada linha, mas naquele momento parecia que tudo tinha sumido da minha mente.

- Atenção! Gravando em 3… 2… 1… AÇÃO!

Meus dedos foram direto para o botão da janela. Abri e fechei duas vezes, como dizia no roteiro, e senti meu corpo inteiro mudar. Eu era a Noah agora.

Olhei para a rua com aquele olhar perdido, cheio de frustração, e deixei a raiva contida transparecer na voz:

- Muitas coisas que você faz me deixam nervosa, e eu tenho que aturar isso.

A atriz que fazia minha mãe respondeu no tempo exato. Nossa troca foi natural, intensa. Meus olhos começaram a marejar na hora certa, sem esforço.

- Você não entende, mãe! Não parou pra pensar que esse também é o MEU último ano do ensino médio? Eu tenho amigos, minha escola... toda a minha vida, mãe!

A voz saiu com a exata mistura de desespero e mágoa que eu tinha ensaiado tantas vezes. Foi como se eu tivesse deixado um pedacinho de mim naquela fala.

Quando o diretor gritou "CORTA!", a tensão finalmente saiu do meu corpo. A equipe ficou em silêncio por alguns segundos, e então ouvi ele dizer:

- Perfeito, Marina. Foi exatamente isso.

Fechei os olhos por um segundo, tentando absorver tudo. Eu tinha conseguido. A primeira cena estava feita. Noah estava viva. E eu… eu me sentia mais viva do que nunca.

Depois de gravar a continuação de conhecendo a mansão, o novo padrasto, fui gravar a primeira cena com Victor, o que me deixou nervosa.

Desci as escadas com o celular encostado na orelha, tentando entrar de vez no espírito da Noah. Fingi estar em ligação com uma amiga e disse com a voz carregada de sarcasmo:

- Tenho certeza que essa gente não tem nenhum sanduíche na geladeira.

Caminhei até a cozinha e abri a geladeira com um ar debochado. Olhei por dois segundos, revirei os olhos e fechei com força.

- Como eu imaginava, não tem nenhum sanduíche.

Assim que virei, dei de cara com ele.

Victor.

Ou melhor... Nick.

Na hora, meu corpo reagiu antes de mim. Dei um passo pra trás, deixei o celular cair e murmurei automático:

- Merda.

A tensão subiu como se fosse de verdade. A vibe entre os personagens era desconfortável, e eu senti isso na pele.

Victor soltou no tom exato de deboche:

- Você deve ser a filha da nova mulher do meu pai. Eu não sei o que você come na roça, mas, se você vai vomitar...

Revirei os olhos e cruzei os braços:

- Nicolas, não é?

Ele sorriu de lado.

- O próprio. E você é...?

Suspirei fundo, tentando não sair da personagem:

- É sério?

E aí veio a voz da Betty, ainda ligada no celular jogado no chão:

- Você ainda tá aí? Noah?

Victor arqueou as sobrancelhas, quase rindo.

- Noah? Esse nome é de menino, né?

Soltei na hora, sem nem pensar:

- Qual é, playboy? No seu vocabulário limitado não existe a palavra "unissex"?

Me abaixei pra pegar o celular — e juro, quase soltei um grito de verdade. Dei de cara com o Thor. Um rotwailler enorme, rosnando bem na minha frente.

Tentei mostrar o medo nos olhos, controlar a respiração. O bicho tava treinado, mas ainda assim… era um cachorrão.

Victor falou bem calmo, olhando pro Thor:

- Você sabe qual é a palavra que o Thor mais gosta do meu vocabulário?

Thor latiu.

Victor completou, com aquele ar provocador:

- Começa com A...

Outro latido.

- ... e termina com taca.

Eu engoli seco, ainda meio abaixada, e sussurrei olhando pro cachorro:

- Isso não tem graça nenhuma.

Victor continuou, todo no papel:

- Por que ele não gostou de você? Deve pensar que entrou na casa sem permissão. Mas não é verdade, né?

Grudei o celular e disparei:

- Já chega, Nicolas.

Ele deu de ombros.

- Ele é como um poodle… só que mais inteligente.

Me levantei rápido, com raiva, e disparei sem filtrar:

- Por acaso você bateu a cabeça quando era pequeno, seu imbecil?

Thor latiu mais alto, me fazendo recuar um pouco.

Victor se aproximou, bem no meu ouvido:

- O Thor não gosta que me ofendam.

Automaticamente, puxei o Victor pra frente e me escondi atrás dele, colocando as mãos nos ombros dele.

- Fica calma. -ele disse, baixinho.

Alterei o tom da voz, meio apavorada:

- Vai, diz alguma coisa pra ele!

Victor se virou pro cachorro:

- Thor, para.

O cachorro latiu mais ainda.

- Senta.

E ele... deitou. Comportado. Como se nada tivesse acontecido.

Meu coração ainda tava acelerado, mas dessa vez por outro motivo. Eu e Victor nos viramos um pro outro, e os olhares se encontraram.

Silêncio. O tipo de silêncio que grita.

Ele sussurrou, com aquele sorrisinho safado:

- Você é louca, né?

Ficamos nos olhando. Meus olhos nos dele. O meu coração disparado, o dele também — dava pra sentir. Eu queria continuar ali. Só mais um segundo. Só mais um olhar.

E aí:

- Corta!

A voz do diretor me tirou daquele transe. Respirei fundo, tentando voltar a mim. Mas por dentro, ainda era Noah. E um pouco Marina também.

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Marina Rhode Bieber Tem 18 anos, é natural de Los Angeles, é meia-irmã de Justin, irmã de Melanie e mora em Nova York, caloura da Columbia. Justin Drew Bieber Tem 18 anos, é natural de London (Canadá), é meio-irmão de Marina e Melanie, mora em Nova York, calouro da Columbia. Luan Rafael Domingos Santana Tem 18 anos, natural de Campo Grande, recém chegado em Nova York, é irmão gêmeo de Bruna, calouro da Columbia. Bruna Domingos Santana Tem 18 anos, natural de Campo Grande, recém chegada em Nova York, é irmã gêmea de Luan, caloura da Columbia. Melanie Marie Bieber Tem 17 anos, natural de Los Angeles, irmã mais nova de Marina e meia-irmã de Justin, estudante do último ano do Ensino Médio. Olivia Sidney Mitchell Tem 18 anos, natural de Londres, mora em Nova York, caloura da Columbia. Virginia Weston Yeardley 18 anos, natural de Washington, mora em Nova York,  caloura da Columbia. Chloe Araya Collins 19 ...

Capítulo 93

Marina Narrando Já era segunda-feira e minha cabeça estava a mil. Eu caminhava pelos corredores do estúdio com uma mão apoiada na barriga já bem arredondada e um café descafeinado na outra, tentando organizar todos os pensamentos que martelavam desde o fim de semana. Eu ter voltado com o Luan… ainda parecia surreal. Quando deitamos no sofá ontem à noite e ele me puxou pra perto, me chamando de “minha namorada” com aquele sorriso bobo, eu senti um alívio no peito que não sabia que precisava. Mas também… tinha o outro lado. O post sobre a Bruna e nossa amizade, explodindo nas redes sociais. Eu vi cada comentário de ódio direcionado a ela e era revoltante. Pior ainda porque, embora os fatos estivessem todos distorcidos, eles não eram totalmente mentira.  Quando cheguei à sala de reunião no set, já estavam todos lá. O elenco completo, produtores, roteiristas, técnicos. Era aquele burburinho animado de sempre, todo mundo empolgado porque a divulgação do segundo filme já ia começar, com ...

Capítulo 91

Luan Narrando  Eu senti meu peito subir e descer rápido, ainda sem conseguir me afastar dela. Marina tava ali, entre os meus braços, a respiração dela quente contra a minha pele, e tudo em mim gritava pra não soltar. Aquela boca… aquele gosto dela… eu não lembrava quanto era viciante até provar de novo. Me sentei melhor no sofá, trazendo-a junto, acomodando-a no meu colo com cuidado por causa da barriga. Ela deixou escapar um riso nervoso quando ajeitei as mãos na cintura dela, quase como se pedisse permissão outra vez. - Você fica linda assim… -murmurei perto do pescoço dela, sentindo o cheiro do cabelo, descendo uma mão até descansar na curva do quadril.- …tão linda que eu fico até meio burro. Ela soltou uma risadinha, mas arfou quando minha mão subiu devagar pelas costas dela, desenhando a curva da coluna por baixo da blusa. Eu sentia a pele dela arrepiar debaixo dos meus dedos. - Luan… -ela murmurou, meio que em protesto, mas sem força nenhuma pra realmente me parar. - Shhh… -p...