Marina Narrando
Sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2025
Eu percebi que estava me apaixonando por Luan de novo.
Foi naquela noite em que pedimos pizza e abrimos uma garrafa de vinho. Tudo parecia tão casual, tão natural, mas eu me peguei observando-o mais do que deveria. Admirando cada detalhe. O jeito como ele franzia as sobrancelhas quando se concentrava no celular, como seus olhos se fechavam por um segundo mais longo quando ele ria. E aquele sorriso… Deus, aquele sorriso.
O vinho tornou tudo mais fácil, ou talvez mais difícil. Porque, sem pensar muito, eu o beijei. Só por um momento, mas o suficiente para sentir de novo tudo o que eu tentei ignorar.
E eu não deveria.
Eu tinha acabado de passar por uma situação difícil. Tinha acabado de tirar o bebê de outro cara. E Luan já tinha me dado um fora antes. O medo de isso acontecer de novo me consumia. Eu não podia arriscar.
Hoje era sexta-feira, 28 de fevereiro. O dia da festa no dormitório dos meninos para comemorar o aniversário de Justin.
Acabei de sair da minha última aula e fui até o mural de avisos ver os papéis escalados para a peça da qual eu tinha feito audição. Meu coração acelerou um pouco quando procurei meu nome na lista. Mas ele não estava lá.
Franzi a testa.
Sério?
Passei os olhos pela lista de novo, como se tivesse lido errado. Mas não. Meu nome simplesmente não estava ali.
Suspirei e cruzei os braços, irritada.
- Essa peça é ridícula mesmo. -murmurei para mim mesma.- Sem mim, vai flopar.
- Uau, que humildade, Marina.
Arregalei os olhos e me virei rápido, assustada com a voz vinda de trás de mim.
Victor estava ali, um sorriso divertido no rosto, os braços cruzados.
Meu estômago revirou na hora.
Fazia um tempo que a gente não conversava direito. Eu tinha evitado. Ele também não fez muita questão. Mas agora, ali, ele parecia determinado a me encarar.
- Você me assustou. -resmunguei, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Ele deu um passo mais perto, ainda com aquele meio sorriso.
- Foi mal. -disse, mas não parecia muito arrependido.- Posso te fazer uma pergunta?
Cruzei os braços e levantei uma sobrancelha.
- Você já fez.
Ele revirou os olhos e soltou um riso curto.
- Você sempre faz isso.
- Isso o quê?
- Age como se não se importasse.
Engoli seco.
Victor respirou fundo e ficou sério.
- Podemos finalmente conversar sobre tudo o que aconteceu?
Eu sabia que esse momento ia chegar. Mas, agora que estava aqui, minha vontade era fugir.
Suspirei pesadamente, sentindo meu peito apertar.
- Tá bom. -murmurei.
Victor arqueou as sobrancelhas, claramente surpreso com minha resposta.
- Sério?
Assenti.
- Mas não aqui. E nem na lanchonete perto do campus.
Ele inclinou a cabeça, me analisando por um momento, antes de dar de ombros.
- Tudo bem. Onde e quando?
- Agora. A gente pode ir ao centro da cidade. Mas separados.
Ele sorriu de lado, quase como se achasse graça da minha precaução, mas não questionou. Apenas concordou com a cabeça.
- Certo. Te vejo lá.
E saiu sem dizer mais nada.
Quando cheguei à lanchonete combinada, vi Victor já sentado a uma mesa perto da janela. Ele mexia distraidamente no celular, com um copo de refrigerante na frente.
Parei na porta por um segundo, me perguntando se realmente fiz a escolha certa de ter vindo.
Respirei fundo.
Pelo menos, agora, a gente ia resolver tudo de uma vez.
Caminhei até ele, tentando parecer confiante, mas sentindo meu coração acelerar a cada passo.
Victor ergueu os olhos quando me viu e sorriu de leve.
- Você veio.
- É...
Me sentei na cadeira de frente para ele e ajeitei minha bolsa no colo.
- Pode começar.
- Começou no ano retrasado, no meu primeiro ano. -ele disse, mexendo distraidamente no canudo do refrigerante.- Meu pai... você sabe como ele é. Nunca apoiou meu sonho de ser ator. Sempre achou que era perda de tempo.
Assenti. Eu sabia bem disso. Victor sempre falava do quanto queria seguir na atuação, mas o pai dele via aquilo como um capricho.
- Desde que entrei na Columbia, ele parou de me dar dinheiro pra qualquer coisa. Só pagava a mensalidade por obrigação, porque minha mãe insistia. Se dependesse dele, eu ia estar em qualquer outro lugar, menos aqui.
Ele suspirou, esfregando a mão no rosto antes de continuar.
- Foi quando conheci Harry. Ele já tinha uns contatos e me apresentou a essa ideia de vender. Disse que seria fácil, que o dinheiro era rápido. E eu aceitei.
Minha garganta secou.
- No começo, era só uma forma de ter dinheiro pra mim. Comprar minhas coisas, pagar algumas contas. Aí foi crescendo. Quando percebi, já estava envolvido demais.
Mordi o lábio, sentindo um aperto no peito.
- E por que você ainda tá nisso?
Ele desviou o olhar para a janela e demorou um instante para responder.
- No começo do semestre passado, minha mãe conseguiu fazer meu pai mudar um pouco. Ele começou a me dar um pouco mais de dinheiro, mas não o suficiente pra eu simplesmente largar tudo. Além disso... -ele hesitou, respirando fundo antes de me encarar de novo.- Eu comecei a usar. Usava o que era pra vender. Primeiro só um pouco, depois mais. Com a cocaína... comecei a dever dinheiro.
Me inclinei para frente, sentindo meu coração acelerar.
- Victor...
- Eu sei. -ele me cortou.- Eu sei que foi um erro. Mas agora, se eu sair, pode dar ruim. Pra mim e pro Harry também.
Engoli em seco.
Eu sabia que ele estava falando sério. E sabia que não era tão simples quanto "só parar".
Fiquei em silêncio, tentando processar tudo. Victor encarava a mesa, os dedos girando o copo de refrigerante, mas eu sabia que ele estava atento à minha reação.
- E quando foi que isso ficou fora de controle? -perguntei, minha voz mais baixa do que eu pretendia.
Ele riu sem humor, passando a mão pelos cabelos.
- Quando eu percebi que nada era suficiente. Eu queria vender mais, conseguir mais dinheiro, não só pra mim, mas pra... você.
Franzi a testa, confusa.
- Pra mim?
Ele assentiu, me olhando nos olhos.
- Você vem de uma família rica, Marina. Sempre teve tudo, sempre pode comprar o que quiser, viajar pra onde quiser. E eu... -ele riu de novo, balançando a cabeça.- Meu pai nunca me deu nem dez dólares sem reclamar. Sempre foi assim. Então, quando começamos a sair, eu queria te impressionar. Queria te levar pra lugares legais, te dar presentes, te fazer sentir que eu podia te dar algo também.
Fiquei sem palavras por um momento. Nunca pedi nada disso pra ele. Nunca me importei se saíamos para um restaurante caro ou só pegávamos um lanche qualquer no campus.
- Victor...
- E foi aí que eu comecei a me afundar. -ele me interrompeu.- A pressão de vender mais, de conseguir mais dinheiro, de manter um padrão que nem era seu, mas que eu coloquei na minha cabeça... Isso foi me consumindo. E nas festas... bom, você sabe.
Sim, eu sabia.
Eu tinha visto Victor usar cocaína em festas. Muitas vezes. Ele nunca escondeu de ninguém. Eu via, todo mundo via. Mas eu nunca soube que era tão grave.
Olhei para ele, sentindo um nó na garganta. Victor sempre foi um cara carismático, confiante, engraçado. Agora, diante de mim, ele parecia alguém completamente diferente.
Victor passou a mão pelo rosto, respirando fundo antes de me encarar de novo.
- Marina, eu sei que devia ter te contado tudo antes. Eu fui um idiota. E ainda me sinto assim.
Eu continuei em silêncio, observando a forma como ele evitava meu olhar por mais do que alguns segundos, como se tivesse medo do que encontraria neles.
- Saber que você descobriu tudo pela boca dos outros foi a pior coisa que poderia ter acontecido. -ele continuou, sua voz carregada de arrependimento.- Eu te amo, e a última coisa que eu queria era te decepcionar.
Fechei os olhos por um segundo, sentindo meu peito apertar.
- Você me ama? -minha voz saiu quase num sussurro.
Ele assentiu imediatamente.
- Sempre amei.
Uma parte de mim queria acreditar. Queria aceitar suas palavras, esquecer tudo o que aconteceu, apagar a dor que senti quando descobri a verdade. Mas a outra parte… A outra parte gritava para eu lembrar do quanto sofri, do quanto ele escondeu de mim.
Cruzei os braços, desviando o olhar para a janela da lanchonete. O movimento da rua parecia mais fácil de encarar do que a intensidade dos olhos de Victor.
- Marina… -ele chamou meu nome baixinho, tentando me puxar de volta para aquele momento.
Eu o encarei de novo.
- Você devia ter me contado.
- Eu sei.
- Eu podia ter te ajudado.
- Eu sei.
Suspirei, balançando a cabeça.
- Mas você não quis. Você preferiu continuar nessa sozinho.
- Porque eu não queria que você me visse assim. Fraco, perdido… um viciado.
A dor em sua voz era real.
E aquilo me desarmou um pouco.
Victor abaixou a cabeça por um momento, respirando fundo, como se reunisse coragem para continuar. Quando ergueu o olhar novamente, segurou minha mão entre as suas.
Eu senti o calor de sua pele contra a minha, mas não recuei.
- Marina… -ele apertou minha mão levemente, seu olhar penetrante me analisando como se quisesse gravar cada detalhe do meu rosto.- Você foi a mulher mais incrível que eu já conheci.
Minha respiração vacilou por um instante.
- Você tem apenas dezoito anos, mas é tão forte, tão destemida. Nada te enfraquece. Você nunca aceita menos do que merece. Com você, não tem meio termo, é oito ou oitenta.
Engoli em seco, sentindo meu coração acelerar.
- Você não liga pro que falam ou pensam sobre você. -ele continuou, sua voz suave, mas cheia de emoção.- E, apesar de tudo isso… Você ainda é linda.
Ele sorriu de leve, um sorriso pequeno, mas genuíno.
- Tão simpática, mesmo quando tenta fingir que não se importa. Tão cheia de vida. E sua beleza…
Ele balançou a cabeça, como se as palavras falhassem.
- Seu cabelo ruivo, seus olhos verdes hipnotizantes… Você é surreal, Marina.
Meu peito subia e descia rapidamente. Eu não sabia o que responder. As palavras dele, sua voz, a sinceridade nos seus olhos… Tudo me atingia como um soco no estômago.
Eu sabia que precisava dizer algo. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia sem palavras.
Meus olhos se fixaram nos dele, mas, por dentro, minha mente estava a mil.
Dias atrás, eu estava numa clínica, interrompendo uma gravidez que nem sabia como lidar. Um filho dele.
A lembrança me fez vacilar. Minha respiração ficou mais curta, meu estômago revirou, e, por um momento, minha mão tremeu levemente dentro da dele. Será que ele me perdoaria se soubesse?
Eu engoli em seco. Ele estava ali, me chamando de incrível, de destemida, de forte… Mas e se soubesse da verdade? Será que ainda me olharia assim? Será que ainda me diria essas coisas?
Uma parte de mim queria acreditar que sim. Outra parte dizia que não.
A verdade era que Victor já estava tão afundado em problemas que essa notícia só o destruiria ainda mais. E eu não queria carregar isso. Não agora. Não desse jeito.
Soltei um suspiro longo e baixo, desviando o olhar por um momento. Talvez ele tenha percebido a mudança em minha expressão, porque sua testa se franziu um pouco.
- Marina? -ele chamou, apertando minha mão.
Voltei a olhá-lo, forçando um sorriso fraco.
- Nada, só… Muita coisa pra processar. -murmurei.
Ele assentiu devagar, parecendo entender.
Mas ele não entendia. Ele nem fazia ideia.
Victor me olhava com uma intensidade que me fez prender a respiração por um momento.
- Eu tenho saudades de você, Marina. De nós.
Minha garganta secou. Ele segurava minha mão com firmeza, como se estivesse se agarrando a qualquer esperança que ainda restava.
Eu queria sentir algo quando ouvi aquilo. Talvez raiva, talvez um resquício da paixão intensa que tivemos. Mas tudo que senti foi um peso no peito. Uma confusão esmagadora.
- Victor… -comecei, mas as palavras não saíam.
Ele abaixou a cabeça por um segundo, respirou fundo e voltou a me encarar.
- Eu sei que errei. Sei que fiz tudo errado. Mas você foi a melhor coisa que já me aconteceu. E eu só queria… -ele hesitou, apertando os lábios.- Eu só queria saber se ainda existe alguma chance.
Senti meu estômago revirar. Não era justo. Não depois de tudo.
Ele não sabia o que eu tinha feito. Não sabia da decisão que tomei. E eu não sabia se um dia teria coragem de contar.
- Victor… -repeti, mais baixo dessa vez.- Eu não sei.
Eu vi a esperança vacilar nos olhos dele, mas ele não soltou minha mão.
- Se precisar de tempo, eu espero. -ele disse.- Só não me diz que acabou de vez.
Eu fiquei em silêncio, sentindo o peso daquelas palavras. Porque, no fundo, eu não tinha certeza de nada.
Saí da lanchonete quase tropeçando nos meus próprios pés, minha mente rodando em um milhão de pensamentos. Eu só queria fugir. Não estava pronta para lidar com aquilo.
Peguei o primeiro ônibus de volta para o campus e fui direto para o meu dormitório.
Assim que abri a porta, encontrei Bruna e Luan agachados na frente da geladeira, fazendo malabarismo com potes e garrafas para esconder um bolo enorme lá dentro.
- Isso aqui já passou da validade tem um século! -Luan reclamou, segurando um pote com um líquido suspeito.
Bruna fez uma careta e se afastou como se aquilo fosse explodir.
- Deve ser coisa da Marina. -acusou.- Ela é a rainha de esquecer comida na geladeira até virar um experimento científico.
- Ei! -protestei, fechando a porta atrás de mim.
Luan olhou para mim, segurando o pote podre com dois dedos e uma expressão de puro nojo.
- Você quer explicar o que exatamente é isso?
Me aproximei para ver e me arrependi imediatamente.
- Ugh… Talvez um iogurte?
- Isso já passou do estado de iogurte. -Luan retrucou, indo jogar no lixo.- Se bobear, tem vida própria.
- Ele tem razão -Bruna riu.- Marina, se um dia a gente sumir, procura dentro da geladeira.
Bufei, cruzando os braços.
- Ingratos! Eu tento manter uma alimentação variada!
- Variada ou radioativa? -Luan debochou.
Bruna caiu na risada, e até eu tive que rir.
Olhei para Luan e, por um impulso maluco, decidi testá-lo.
- Ah, a propósito… -comecei casualmente, pegando uma maçã da fruteira e dando uma mordida.- Encontrei o Victor hoje. Conversamos bastante.
Bruna parou de ajeitar as coisas na geladeira e me olhou surpresa.
- O quê?!
Luan, que estava jogando fora os restos estragados, congelou por um instante. Depois, fechou o pote com tanta força que o plástico estalou.
- Como assim "conversaram bastante"? -ele perguntou, tentando soar casual, mas eu notei a tensão na voz dele.
Bruna cruzou os braços, claramente preocupada.
- Marina, me diz que você não caiu na conversa dele.
- Ele só quis se explicar. Me contou coisas que eu não sabia…
Luan largou o pote no lixo e se virou para mim, os braços cruzados no peito.
- E o que exatamente ele disse?
Suspirei, fingindo estar pensativa.
- Ah, foi uma conversa longa… -dei mais uma mordida na maçã, de propósito.- Fomos a uma lanchonete fora do campus. Ele já estava lá quando cheguei, e parecia nervoso. Disse que nunca quis esconder nada de mim, que se sentia um idiota por tudo. Que me amava e não queria me decepcionar.
Luan bufou baixinho.
- Ele ainda tá com esse papo?
- Ele foi sincero, Luan. Contou como começou a vender drogas porque o pai dele nunca apoiou o sonho dele de ser ator. Como caiu no vício porque a pressão era demais. Disse que fez tudo isso pra ter dinheiro pra me levar pra sair… porque sabia que eu tinha uma vida diferente da dele.
Bruna fez uma careta.
- Uau. E ele acha que isso justifica alguma coisa?
- Não disse que justifica. Mas faz sentido… -olhei para Luan, esperando alguma reação.
Ele estava tenso, a mandíbula travada.
- Ele também disse que sente saudades de mim. De nós.
Luan riu sem humor.
- Que conveniente, né? Agora que tá ferrado, vem com essa.
- Ele tava arrependido, dava pra ver. -continuei, inclinando a cabeça de leve.- E foi tão estranho, sabe? Conversar com ele depois de tudo… Foi como voltar no tempo. Teve um momento em que ele segurou minha mão e…
- Ele O QUÊ?! -Luan interrompeu, erguendo uma sobrancelha.
- Segurou minha mão. -repeti, sem esconder o sorriso provocativo.
Luan bufou mais alto dessa vez e passou a mão pelos cabelos.
- Ah, que maravilha! E você deixou?
- Eu não recuei.
- Ótimo. -ele disse, a voz carregada de ironia.- Muito bom saber que você ainda dá espaço pra esse idiota.
Bruna arregalou os olhos e cruzou os braços.
- Eita! Desde quando você tem tanta opinião sobre as escolhas da Marina, hein, Luan?
Ele abriu a boca para responder, mas fechou de novo, como se percebesse que estava se entregando.
- Eu só acho… que ela já se ferrou o suficiente por causa desse cara. -resmungou, desviando o olhar.
- Ah, claro, obrigada pela preocupação. -retruquei, sarcástica.- Mas eu sei me cuidar.
- Sei… -Luan balançou a cabeça e bufou.- Sabe tão bem que foi encontrar ele sozinha, fora do campus, depois de tudo que aconteceu. Muito esperta, Marina.
- O que você queria que eu fizesse? Fingisse que ele não existe?
- Seria um bom começo!
Bruna olhava de um para o outro, desconfiada.
- Gente, tem alguma coisa acontecendo aqui que vocês querem me contar? Porque esse clima tá muito estranho.
- Não tem nada acontecendo! -Luan e eu respondemos ao mesmo tempo.
Ela estreitou os olhos.
- Sei…
Luan passou a mão pelos cabelos, claramente irritado.
- Você faz o que quiser, Marina. Só não vem me pedir pra juntar seus pedaços depois.
Cruzei os braços e encarei Luan, sentindo o calor da raiva subir pelo meu corpo.
- Como é que é? -minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.
Ele me olhou, ainda com aquele ar irritado, mas sem dizer nada.
- Você acha que eu sou o quê, Luan? Uma boneca de porcelana que quebra fácil?
- Não foi isso que eu quis dizer… -ele começou, mas eu já estava no meu limite.
- Ah, não? Porque foi exatamente o que pareceu! -avancei um passo, apontando para ele.- Eu sei me virar muito bem sozinha, obrigada! Nunca pedi nada pra você.
Ele riu sem humor e cruzou os braços também.
- Ah, claro que sabe. Por isso que se meteu com um traficante e foi parar numa confusão gigante.
Bruna fez uma careta.
- Luan, chega…
- Ah, vai se ferrar, Luan! -joguei as mãos para o alto, frustrada.- Eu não preciso de você me julgando. Eu fui conversar com o Victor porque eu quis, e não devo satisfação pra ninguém, muito menos pra você!
Os olhos dele brilharam de raiva por um segundo, e depois ele forçou um sorriso debochado.
- Tá bom, Marina. Só não reclama quando ele te ferrar de novo.
Bufei e revirei os olhos.
- Você fala como se fosse muito melhor do que ele.
O ar na cozinha ficou pesado. Luan me olhou com uma expressão indecifrável, e Bruna arregalou os olhos.
- Opa… Acho que eu vou só… continuar arrumando espaço pro bolo. -ela murmurou, pegando um pote qualquer da geladeira e fingindo que estava muito interessada nele.
Luan ficou me encarando, a mandíbula travada.
- Eu nunca menti pra você. -ele disse, a voz mais baixa, mas ainda cheia de tensão.
Engoli em seco.
- Mas já me magoou. -retruquei, sem pensar.
Ele piscou, como se minha resposta o tivesse pegado desprevenido.
Bruna, que claramente estava adorando a treta, levantou uma sobrancelha.
- Tá, agora eu sei que tem alguma coisa acontecendo aqui.
- Não tem nada! -falei, enquanto Luan permanecia quieto.
Luan voltou a mexer na geladeira, ainda emburrado.
Subi para o meu quarto, o peito apertado, a mente em um turbilhão de pensamentos. Eu estava irritada, frustrada, e, principalmente, magoada. Tudo o que eu tentava fazer parecia dar errado, e no final, mais uma vez, Luan tinha me feito me sentir como se minhas emoções não importassem. Como se eu fosse apenas mais uma opção, algo que ele podia pegar ou deixar, dependendo do seu humor ou do seu ego.
Eu estava completamente confusa. Ele me queria, claro, eu sentia isso nos momentos em que ele se entregava, quando nossos corpos se encontravam, mas quando se tratava de sentimentos, ele simplesmente… recuava. Como se nada disso fosse importante. Como se eu não fosse nada para ele. Só mais uma garota. Só mais um "rolê", sem valor real.
As lágrimas escorriam pelo meu rosto, sem que eu tivesse controle. Eu nem queria estar chorando, mas não conseguia impedir. De repente, o peso da situação, das palavras não ditas, das atitudes dele, tudo me atingiu de uma vez. Eu estava tão cansada de tentar entender. Tão cansada de me entregar e não receber nada de volta.
Eu me atirei na cama, enterrando o rosto no travesseiro, tentando abafá-las, mas não havia jeito. Luan não estava lá para me dar as respostas que eu precisava, e, por mais que tentasse afastar esses sentimentos, a dor era inescapável.
Mais tarde, decidi que a festa seria a minha chance de dar a volta por cima. Eu era Marina Bieber, e nada poderia me abalar, certo? Eu não iria deixar que os sentimentos confusos com Luan me controlassem. Então, me arrumei para a festa, mesmo sabendo que o clima não estava bom. Mas, se tinha algo que eu sabia fazer bem, era me transformar.
Escolhi um vestido curto e decotado, que deixava claro que eu não estava ali para brincar. Era uma peça que chamava a atenção, sem pedir licença. Ajeitei meu cabelo com cuidado, criando ondas soltas e perfeitas, que caíam sobre meus ombros. A maquiagem foi ousada, olhos marcados, lábios sedutores. Coloquei um salto alto que me fazia sentir poderosa. Eu estava sexy, e, mais importante, estava pronta para me divertir.
Respirei fundo, me olhando no espelho. Por mais que eu quisesse ignorar a dor e o cansaço mental, não havia jeito. Mas naquela noite, nada disso importaria. Eu sairia, me jogaria na pista de dança e faria com que todos, especialmente Luan, vissem que eu não precisava de ninguém para ser incrível.
Quando cheguei no dormitório, com o presente de Justin nas mãos, um perfume que sempre renovava para ele e, dessa vez, uma jaqueta que tinha a cara dele, me senti mais confiante do que nunca. Justin me recebeu com um sorriso largo, todo animado, e o ambiente estava cheio de gente, dentro e fora do quarto. A festa estava pegando fogo, mas logo notei que Justin estava me olhando de um jeito estranho. Ele franziu a testa e me perguntou, com uma ponta de ciúmes, o que eu estava vestindo.
- Que porra de roupa é essa, Marina? -ele questionou, sem esconder a surpresa.
Eu sabia o que ele estava pensando, mas, naquela noite, eu não queria saber de nada além de me divertir. O que eu vestia não tinha mais importância, nem as críticas de Justin. Ignorei o tom ciumento dele e, com um sorriso forçado, apenas disse:
- É só um vestido, Justin, relaxa.
Já fui direto para onde estavam uma variedade de bebidas. Hoje não era noite para cerveja, decidi, e peguei um copo de vodka, despejando generosamente. Eu não estava ali para pensar em mais nada, só queria deixar as coisas rolarem e me perder um pouco.
Enquanto tomava a bebida, sentindo o álcool começar a esquentar meu corpo, Luan apareceu. Ele veio até mim, com aquele olhar de quem queria conversar. Olhei para ele, fiz um movimento de corpo para o lado, tentando ignorá-lo, mas ele não desistiu e deu um passo à frente, com a voz baixa e insistente.
- Marina, precisamos conversar. -ele disse, a preocupação evidente em sua voz.
Eu sabia o que ele queria, mas não estava disposta. Respirei fundo e, com um tom firme, respondi:
- Eu não quero falar com você, Luan. Você me magoou demais. E a partir de hoje, tudo o que aconteceu entre a gente vai ficar só na sua memória. Porque você nunca mais vai me ter, nem como amiga.
Fui virando as costas, tentando me afastar, mas antes que eu pudesse dar o último passo, ele falou, e as palavras soaram como um raio em meu coração.
- Eu te amo, Marina. -Luan disse, sua voz baixa e cheia de sinceridade.
Meu coração deu um salto no peito, e eu parei no meio do caminho. O impacto das palavras me fez recuar, e eu me virei devagar para olhar nos olhos dele. Ele repetiu, com mais convicção, o que havia dito:
- Eu te amo, Marina.
Tudo ao meu redor parecia parar naquele momento. As risadas, as conversas, os sons da festa… Tudo se transformou em um fundo borrado. O único som que eu conseguia ouvir era a batida acelerada do meu coração, e, por um momento, eu me senti vulnerável. O que eu devia fazer agora? Ele havia dito o que eu tanto esperava, mas eu estava tão confusa, tão magoada com tudo que aconteceu entre nós, que não sabia como reagir.
Eu queria dizer algo, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. Meus olhos não podiam esconder a mistura de emoções que estavam borbulhando dentro de mim.
Luan se aproximou de mim, os olhos fixos nos meus, e seu tom de voz estava mais suave, mas cheio de sinceridade.
- Eu não tenho mais medo, Marina. -ele disse, e pude sentir a intensidade daquilo que ele estava tentando me transmitir.- O que a gente tem, eu sei que é bom. Mas eu sei que pode ser melhor. Eu te quero, e eu te acho incrível. Linda. Foda. Você é a mulher com quem, pela primeira vez, eu imaginei passar o resto da minha vida.
Eu não conseguia olhar para ele sem sentir meu peito apertado. Suas palavras faziam meu coração acelerar, mas também me faziam duvidar, me faziam questionar tudo o que eu havia vivido até ali. Luan fez uma pausa, como se estivesse ponderando o que dizer a seguir.
- Eu sei que é um pouco precoce, que a gente se conhece há pouco mais de seis meses… Mas é isso que você desperta em mim, Marina. Então, eu peço, deixa tudo o que o Victor disse pra lá, e me dá uma chance. Não faz sentido mais esperar.
Meu coração estava em um turbilhão de sentimentos. Como assim ele estava falando essas coisas agora? Como ele pode querer tudo isso, quando no começo ele foi o que mais me rejeitou? Eu fechei os olhos por um momento, tentando processar tudo o que estava acontecendo. Quando eu abri novamente, respirei fundo.
- Desde o início era você quem eu queria, Luan. Mas você me rejeitou. Você me afastou, não quis me dar a chance de ser mais do que uma amiga, mais do que uma opção.
Luan balançou a cabeça, com um olhar arrependido.
- Eu fui um otário. -ele disse, com sinceridade.- Eu desperdicei a oportunidade de ficar com uma mulher como você. E eu sei disso agora.
Eu queria acreditar nele, queria voltar atrás e aceitar o que ele estava oferecendo. Mas minha cabeça estava tão cheia de tudo o que Victor me disse mais cedo. As palavras dele ainda ecoavam na minha mente, e tudo que ele havia contado, tudo que ele me revelou sobre seu passado e os sentimentos que ele ainda nutria por mim, me impediam de tomar qualquer decisão impulsiva.
Eu queria Luan. Mas não podia ignorar o que estava acontecendo dentro de mim.
Antes que eu pudesse responder, de repente, uma voz familiar ecoou atrás de mim, cortando o clima intenso que havia se formado entre mim e Luan.
- E aí, Marina, vai ser o Luan ou vai ser eu? -a voz de Victor estava carregada de um tom provocador, mas eu podia perceber que havia algo de sério por trás de sua pergunta.
Eu congelei. Meu corpo ficou paralisado enquanto eu me virava lentamente para encarar Victor. Ele estava ali, parado, com a expressão que sempre carregava quando estava decidido, mas eu podia ver uma faísca de vulnerabilidade em seus olhos.
Luan e Victor estavam ali, um de cada lado, ambos me observando, esperando minha resposta. Eu senti o peso de sua pergunta, como se eu estivesse em uma encruzilhada, e qualquer escolha que eu fizesse mudaria tudo.
Luan olhou para Victor com um olhar desafiante, e Victor retribuiu com a mesma intensidade. O clima estava tenso, carregado de um tipo de competição que eu não sabia se queria fazer parte.
- Vai ser o Luan ou vai ser eu? -Victor repetiu, mais uma vez, sem desviar o olhar.
Eu não sabia o que responder, minha mente estava uma bagunça. Ambos queriam algo de mim. Ambos estavam me dando a chance de escolher. Mas eu sabia que, no fundo, essa escolha não seria fácil.