Luan Narrando

Era difícil admitir, mas a rejeição da Marina ainda pesava em mim. Eu sabia que não era porque ela não sentia nada por mim —era por causa daquele desgraçado do Victor. Ele conseguiu plantar dúvidas na cabeça dela bem na hora em que eu finalmente tinha coragem de abrir o jogo sobre o que sentia.
E agora, enquanto ela estava no Brasil, curtindo a vida, eu estava aqui, enfiado no dormitório, sem ânimo pra nada. Meus amigos tinham saído, o campus estava quieto, e eu estava deitado na minha cama, encarando o teto antes de pegar o celular.
Abri o Instagram por pura falta do que fazer e, claro, a primeira coisa que apareceu foi uma foto nova da Marina.
marinabieber Rio de Janeiro, I already love you ✨🫶🏻 @brusantanareal
Suspirei e rolei mais um pouco o feed, tentando evitar a tentação, mas não aguentei. Entrei no perfil dela e abri os stories.
O primeiro era um vídeo dela sentada num quiosque, segurando um prato de feijão tropeiro com farofa.
- Gente, eu comi pela primeira vez… como é mesmo, Bruna?
- Feijão tropeiro com farofa, Marina.
- Isso! Feijão tropeiro com farofa. -ela repetiu, olhando pra câmera com um sorrisinho.- E só tenho uma pergunta pra fazer: Por que ninguém me contou que isso era tão bom?!
Bruna caiu na gargalhada ao lado dela.
- Eu te falei, você não acreditou!
O próximo story era Marina comendo um brigadeiro.
- Agora é a vez do tal do brigadeiro. Se o feijão tropeiro já mudou a minha vida, imagina isso aqui?
Ela deu uma mordida e seu rosto imediatamente se iluminou.
- SOCORRO! Como eu vivi 18 anos sem isso? Eu vou ter que levar um estoque pros Estados Unidos!
Outro story mostrava as duas segurando copos de caipirinha, rindo enquanto Marina fazia uma careta depois do primeiro gole.
- Que isso?! Tem álcool aqui!
Bruna caiu na gargalhada.
- Lógico que tem! Você achou que era suco de limão?
- Eu não tava preparada! -Marina riu, abanando a mão na frente do rosto.
Eu sorri involuntariamente assistindo. Ela estava tão radiante, tão feliz. E eu não estava lá pra viver isso com ela.
Bufei e joguei o celular ao meu lado na cama.
Victor tinha ferrado tudo.
Mas isso não ia ficar assim.
Peguei o celular de novo, incapaz de resistir. Continuei assistindo aos stories da Marina, sentindo uma mistura de ciúme, frustração e saudade.
O próximo vídeo mostrava ela e Bruna andando pela orla, com Marina de óculos escuros enormes e um chapéu de palha que claramente comprou de algum vendedor ambulante.
- Isso aqui é um paraíso, de verdade. Eu nunca vi uma praia tão linda assim na minha vida! -Marina dizia, girando a câmera para mostrar o mar azul brilhante e as areias de Copacabana.
- E essa branquela aqui já tá toda vermelha. -Bruna brincou, apontando pra Marina, que puxou a alça do biquíni e mostrou a marca vermelha no ombro.
- Olha isso! Eu passei protetor solar, mas parece que não adiantou nada! -Marina fez um biquinho dramático.
Bruna gargalhou.
- Gringa sofre no sol do Brasil!
Outro story começou logo em seguida, agora com as duas em uma feira de rua, explorando as barracas de comida.
- Ok, agora chegou a vez da coxinha. -Marina anunciou, segurando um salgado dourado na mão.- Eu já amei o feijão tropeiro, já amei o brigadeiro… vamos ver se essa tal de coxinha é tudo isso mesmo. Me filma aí Bruna.
Ela entregou o celular pra Bruna e deu uma mordida, ficando em silêncio por alguns segundos.
- … Eu vou chorar.
Bruna começou a rir.
- Eu te avisei que era a melhor coisa do mundo!
- Isso aqui… -Marina segurou a coxinha com as duas mãos, como se fosse um troféu.- Isso aqui não é só um salgado. Isso é um abraço de mãe, é felicidade em formato de comida!
Eu revirei os olhos e sorri ao mesmo tempo. Ela tinha esse jeito exagerado de falar, sempre cheia de drama.
O último story me pegou de surpresa. Era uma foto dela segurando um copo de caipirinha, com um sorriso divertido no rosto e óculos escuros enormes. Mas foi a legenda que fez meu coração disparar:
"Acho que vou ter que casar com um brasileiro pra ele me trazer pro Brasil sempre..."
Meus dedos apertaram o celular com força.
Marina queria casar com um brasileiro, hein? Eu conhecia um que tava bem interessado.
Passei a mão no rosto e soltei um suspiro pesado.
Antes que eu pudesse continuar vendo os stories da Marina, alguém bateu na porta do meu quarto.
- Entra. -falei, ainda segurando o celular.
A porta se abriu devagar, e Justin entrou, meio hesitante. Ele olhou ao redor como se não tivesse certeza se deveria estar ali.
- E aí, cara. -ele disse, fechando a porta atrás de si.
- E aí. -bloqueei o celular e me sentei na cama. Algo na expressão dele me dizia que ele queria falar sério.- Que foi?
Justin puxou a cadeira da escrivaninha e sentou de frente pra mim. Ele parecia nervoso, passando a mão no joelho e mordendo o lábio antes de começar a falar.
- Então… Tem uma coisa que eu preciso te contar.
- Manda.
Ele respirou fundo.
- Um empresário musical me ligou alguns dias atrás. Ele queria uma reunião.
Minha testa franziu.
- Como assim, um empresário?
- Um cara do meio, sabe? Lembra que nosso professor mandou nossos clipes pra algumas pessoas? -assenti.- Então, ele mandou pra um empresário que depois de meses, assistiu e se interessou.
Meus dedos se fecharam contra o lençol da cama.
- Caramba, e aí? -perguntei, tentando soar apenas curioso.
- Fui na reunião. O cara ficou empolgado e no dia seguinte já me chamou pro estúdio.
Engoli seco.
- Sério?
- Sério. Gravei algumas músicas. Ele disse que vai me lançar na mídia em breve.
Uma pontada de inveja subiu pelo meu peito, mas eu a engoli antes que transparecesse. Forcei um sorriso animado.
- Cara, isso é incrível!
Ele sorriu, aliviado.
- Pensei em te contar antes, mas… Sei lá, fiquei receoso. Achei que você poderia ficar mal porque ninguém te ligou também.
Isso doeu mais do que eu queria admitir.
Eu também sonhava com isso. Também queria estar em um estúdio agora, gravando minhas músicas, tendo a chance de ser ouvido por um empresário. Mas a realidade era que, entre nós dois, Justin sempre teve mais visibilidade. Ele cantava em inglês, tinha aquele estilo pop internacional que chamava atenção. Eu, por outro lado, queria seguir o sertanejo e, até agora, ninguém do meio tinha me dado uma oportunidade.
Mas eu não ia deixar meu ego estragar isso. Justin merecia.
- Tá maluco? Fico feliz demais por você, cara! -bati no ombro dele.- E aí, posso ouvir o que você gravou?
O sorriso de Justin se abriu de vez.
- Claro! Vou pegar aqui.
Enquanto ele mexia no celular, eu forçava minha mente a se concentrar na felicidade pelo amigo, e não na sensação incômoda de estar ficando pra trás.
Justin mexeu no celular por alguns segundos até conectar no meu fone de ouvido Bluetooth, que estava na minha mesa. Ele me entregou o fone e ficou me observando enquanto eu colocava no ouvido e dava play na primeira música.
Assim que a melodia começou, eu senti um arrepio na espinha. A produção era impecável. O instrumental combinava perfeitamente com a voz dele, e eu tinha que admitir… A música era boa. Boa demais.
Fechei os olhos por um momento, absorvendo a letra. Era daquelas que grudavam na cabeça, com um refrão forte e melodia envolvente. Eu conseguia imaginar essa música tocando no rádio, nas playlists, fazendo sucesso.
Quando terminou, abri os olhos e olhei pra Justin. Ele estava ansioso, esperando minha reação.
- E aí? -perguntou.- O que achou?
Tirei o fone devagar e soltei um suspiro.
- Cara… Isso tá incrível.
Os olhos dele brilharam.
- Sério?
- Sério! A produção tá impecável, sua voz tá absurda… Essa música tem tudo pra estourar.
Justin riu, aliviado.
- Puts, que bom ouvir isso, mano. Eu tava nervoso, porque você é a primeira pessoa de fora do estúdio que tá ouvindo.
- E quantas você gravou?
- Umas quatro por enquanto. Mas o empresário quer que eu grave mais algumas antes de decidir o primeiro single.
Assenti, tentando manter a expressão empolgada, mas lá no fundo… Meu coração estava pesado.
Por que ninguém nunca tinha me chamado pra isso?
Por que ninguém me viu do jeito que viram o Justin?
Ele estava vivendo o nosso sonho, e eu… Bom, eu tava aqui, sentado no meu dormitório, assistindo isso acontecer de longe.
Mas ele era meu amigo. Eu precisava ser justo.
- Cara, isso é só o começo pra você. Tenho certeza que você vai explodir.
- Espero que sim. -Justin sorriu.- E você sabe que, quando eu tiver uma chance, eu vou falar de você.
Eu ri, balançando a cabeça.
- Valeu, mas eu quero conseguir isso por mim mesmo.
Justin assentiu, respeitando minha resposta.
- Você vai, Luan. Não tenho dúvidas disso.
Queria ter a mesma certeza que ele.
Assim que Justin saiu do meu quarto, fiquei ali, encarando o teto, perdido em pensamentos. Será que eu estava fazendo algo errado? Será que deveria recalcular minha rota? O Justin estava avançando tão rápido, e eu continuava no mesmo lugar.
Suspirei, tentando não me cobrar demais. Cada um tinha seu tempo, certo? Era isso que eu queria acreditar.
Quando a noite caiu, fomos jantar no refeitório. Justin, Ryan e Anthony estavam animados, conversando sobre qualquer coisa — um jogo que rolou no fim de semana, uma garota bonita que Anthony estava tentando conquistar, besteiras do dia a dia.
Eu, por outro lado, estava alheio à conversa, meu olhar preso no celular. Atualizei os stories do Instagram de novo, esperando mais alguma atualização da Marina ou da Bruna, mas nada. Elas tinham sumido.
- Você tá viciado nesse celular, cara. -Ryan comentou, me dando um leve empurrão no ombro.
- O quê? Não tô, não. -resmunguei, travando a tela.
- Sei. -Anthony riu.- Aposto que tá de olho nas fotos da Marina.
Justin me lançou um olhar rápido, mas não disse nada.
- Cala a boca. -murmurei, pegando meu suco.
- Ele tá de olho, sim! -Ryan zombou.- O cara tá apaixonado e nem disfarça!
Bufei.
- Dá um tempo, Ryan.
Ryan riu, mas mudou de assunto, voltando a falar sobre futebol.
Depois do jantar, voltamos pro dormitório. Eu me joguei no sofá, exausto, mas minha mente ainda estava inquieta. Peguei o celular e atualizei o Instagram.
Foi quando apareceu.
Uma nova foto, postada por Bruna, há dois minutos.
Minha respiração parou por um segundo.
Na imagem, Bruna e Marina estavam na Sapucaí. As luzes brilhantes do desfile ao fundo criavam um cenário espetacular, mas nada brilhava mais do que Marina.
Ela estava usando uma roupa cheia de brilho, dourada, colada no corpo. Seu cabelo solto caía em ondas perfeitas, e seu sorriso… Deus, aquele sorriso.
Eu senti meu peito apertar.
brusantanareal Minha americana favorita vivendo o Carnaval do jeito certo! @marinabieber

Engoli seco.
Eu conseguia imaginar Marina lá, se divertindo, dançando, rindo… enquanto eu estava aqui, sentado no sofá do meu dormitório, rolando o feed do Instagram como um idiota.
Na manhã seguinte, acordei com um propósito claro: checar os stories da Marina.
Peguei o celular ainda deitado e deslizei o dedo pela tela, ansioso. Como esperado, ela tinha postado uma tonelada de stories da noite anterior.
No primeiro, ela aparecia sorrindo, com um copo de caipirinha na mão, enquanto dançava com Bruna no meio da multidão. Depois, vieram vídeos do desfile: carros alegóricos enormes, fantasias brilhantes, bateria estrondando. Mas o que me prendeu foi um story gravado por Bruna.
Marina estava com os olhos brilhando, boquiaberta, enquanto assistia ao desfile passar. Sua expressão era de pura emoção.
- Isso é incrível! -ela exclamava no vídeo, mal conseguindo falar de tão deslumbrada.- Eu nunca vi nada assim na vida!
Eu sorri sem nem perceber.
Ela estava feliz.
E eu… estava feliz por ela.
Suspirei e me levantei. Segunda-feira. Hora da aula. Mas, sinceramente, eu não estava com a mínima vontade de ir.
Fiquei sentado na cama por um tempo, ainda com o celular na mão, e uma ideia arriscada surgiu na minha mente.
Se Marina sentia algo por mim, ela deveria ter deixado alguma pista no quarto dela, certo? Alguma anotação, alguma lembrança… alguma coisa que provasse que eu não estava maluco ao pensar que, lá no fundo, ela também me queria.
Antes que eu pudesse mudar de ideia, me troquei e saí do dormitório.
O campus estava relativamente vazio, já que as aulas estavam rolando. Caminhei até o prédio do dormitório feminino, sem ninguém me parar.
Quando cheguei no dormitório dela, respirei fundo. Virginia e Olívia tinham aula nesse horário, então o dormitório estaria vazio.
Entrei e subi direto pro quarto de Marina, mas quando cheguei perto…
A porta estava entreaberta.
Meu coração acelerou.
Estranho. Marina nunca deixaria a porta aberta assim.
Empurrei a porta com cuidado e, assim que olhei para dentro, congelei.
Victor estava ali.
Sentado na cama de Marina.
Ele segurava algo nas mãos — um caderno pequeno, de capa escura.
Um diário?
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, vi que ele enxugava discretamente os olhos, como se estivesse chorando.
- Que porra você tá fazendo aqui? -perguntei, sem esconder minha irritação.
Ele se sobressaltou um pouco, como se não tivesse me ouvido chegar. Seus olhos estavam vermelhos, e ele enxugou o rosto rapidamente, tentando disfarçar.
Mas ele estava puto.
Victor se levantou de um salto e jogou um caderno em mim, sem nem pensar duas vezes. Peguei no reflexo e olhei para ele, confuso.
- Se você quer tanto ficar com a Marina, ela é toda sua! -ele cuspiu as palavras, cheio de raiva.- Porque eu não vou querer ficar com uma pessoa como ela.
Eu franzi a testa, ainda sem entender.
O que diabos estava acontecendo?
Olhei para o caderno que ele havia jogado. Era um diário. O diário da Marina.
Meus olhos caíram na página em que Victor havia parado.
Meu estômago revirou.
"Descobrir que estava grávida foi a pior coisa que já me aconteceu. Mas o pior de tudo foi saber que essa criança seria de um babaca metido a traficante.
Eu não podia ter esse filho. Não com ele. Não agora. Não nunca.
Então eu fiz o que tinha que fazer. Eu não me arrependo. Nunca vou me arrepender.
Esse segredo eu vou levar pro túmulo. Só Bruna sabe. E só Bruna vai saber."
Engoli em seco.
As palavras pesaram em mim como um soco no peito.
Victor bufou, passando a mão pelos cabelos, transtornado.
- Ela matou o meu filho, Luan! O MEU filho! -gritou, com a voz embargada. E antes que eu pudesse reagir, deu um soco na parede, com força.
O som do impacto ecoou pelo quarto, mas Victor parecia nem sentir a dor.
Por um instante, senti pena dele.
Mas, ao mesmo tempo, entendi a Marina.
Eu também não teria um filho com alguém como o Victor.
Ele continuava a esbravejar, xingando Marina de todas as formas possíveis, e foi nesse momento que algo dentro de mim estalou.
- Cala a boca, Victor -falei firme, encarando ele nos olhos.
Ele arregalou os dele, como se não acreditasse no que eu tinha dito.
- Cala a porra da boca! -repeti.
Ele riu, debochado.
- Tá defendendo ela agora? Se essa criança fosse sua, ia aceitar isso de boa?
Eu inspirei fundo, tentando manter a calma.
- Não existe essa possibilidade -respondi simplesmente.
Victor riu de novo, sarcástico.
- Se coloca no meu lugar, Luan. Como você se sentiria se descobrisse que a Marina abortou um filho seu?
Pensei por um segundo e olhei bem nos olhos dele antes de responder:
- Marina tem 18 anos. Está no primeiro ano da faculdade. O sonho dela é ser atriz. Você realmente acha que um filho, seja meu ou seu, era a melhor coisa pra acontecer na vida dela agora?
Victor abriu a boca para responder, mas nada saiu.
Ele sabia que eu estava certo.
Mas, ainda assim, não conseguia aceitar.
- Sai daqui, Victor. -falei, jogando o diário na cama de Marina.- Antes que eu te faça sair à força.
Ele me lançou um último olhar cheio de ódio antes de sair do quarto, batendo a porta com força.
Fiquei ali, parado, tentando processar tudo.
O diário ainda estava ali, aberto.
Fechei os olhos e soltei um suspiro longo.
Essa viagem de Marina para o Brasil… estava servindo para ela se afastar de tudo isso.
E agora, mais do que nunca, eu entendia por quê.
Olhei para o diário jogado na cama de Marina.
Minhas mãos coçaram para pegá-lo.
Por mais errado que fosse invadir a privacidade dela, a curiosidade me consumia.
Peguei o diário e sentei na beirada da cama. A capa era simples, mas as páginas dentro carregavam tudo o que Marina sentia.
A primeira data era de agosto do ano passado, quando começamos as aulas na Columbia.
Fui virando as páginas, lendo cada pedaço da vida dela que havia sido registrado ali.
E, para minha surpresa, me deparei com meu próprio nome diversas vezes.
"Desde o primeiro dia que vi Luan, achei ele lindo. Mas não só isso… Tem algo nele que me atrai de um jeito diferente. O sotaque, o jeito dele… Sei lá, eu só sinto que ele é especial."
Sorri sem perceber.
Continuei lendo.
"Sempre que estamos juntos, sinto que meu coração dispara. Quando ele sorri para mim, quando ele toca no meu braço, quando fala olhando nos meus olhos… Parece que só existimos nós dois no mundo."
Meu coração acelerou.
Ela realmente sentia isso?
Virei mais páginas.
A cada vez que Marina mencionava nossas interações, eu via o quanto eu a fazia se sentir especial. Mas então, cheguei numa parte diferente.
"Hoje aceitei namorar com o Victor."
Minha expressão mudou.
A leitura agora era diferente.
"Eu só queria me sentir importante. Sempre que estou com o Luan, é como se eu não fosse suficiente. Eu o desejo tanto, mas ele nunca parece querer mais do que sexo. Com o Victor, pelo menos, eu sei que sou suficiente. Ele me quer."
Meu peito apertou.
Eu rejeitei Marina e, por isso, ela correu para Victor.
E então veio mais uma frase:
"Mas não era ele quem eu queria."
Fechei os olhos por um momento.
Eu podia ter tido Marina esse tempo todo, mas deixei ela escapar.
Continuei lendo, passando por mais páginas onde ela falava sobre os momentos com Victor. Ela dizia que ele a fazia feliz… Mas, ao mesmo tempo, se chamava de idiota por ainda pensar em mim.
Então, cheguei na página sobre o aborto.
Engoli em seco ao reler aquelas palavras.
Marina havia sido firme em sua decisão.
Mas a parte que veio depois foi o que mais me atingiu.
"Quando beijei Luan, depois de tanto tempo, meu coração quase saiu pela boca. Foi como se tudo voltasse ao lugar. Eu tentei esquecer, tentei seguir em frente… Mas não tem como fugir. Eu ainda sou apaixonada por ele."
Minha garganta secou.
Continuei.
"Mas e se ele me rejeitar de novo? Eu não sei se posso passar por isso outra vez."
Eu segurei o diário com mais força.
Ela estava com medo de ser rejeitada. Por isso, nunca disse nada.
As páginas seguintes mostravam sua confusão depois da conversa com Victor. Ela não sabia como se sentir, mas lá no fundo, os sentimentos dela eram claros.
Então, cheguei à última página escrita.
E meu coração disparou.
"Preciso escrever rápido, estou indo para o aeroporto."
Eu me inclinei mais para frente, prendendo a respiração.
"Hoje Luan se declarou para mim."
Senti um arrepio percorrer meu corpo.
"Minhas pernas ficaram bambas, meu coração quase saltou do peito. Eu quis tanto correr para os braços dele. Eu o queria tanto quanto ele me queria."
Passei a língua nos lábios, sentindo uma onda de calor percorrer meu peito.
"Se Victor não tivesse aparecido e me colocado contra a parede, eu teria corrido para os braços de Luan ali mesmo."
Meus dedos apertaram o diário.
"Eu não quero me sentir assim. Confusa. Porque, no fundo, meus sentimentos são claros. É o Luan quem eu quero."
Pisquei algumas vezes, tentando processar.
"Quando eu voltar… Eu vou resolver isso."
Soltei um suspiro longo e fechei o diário.
Marina me queria.
Ela só precisava de tempo.
E quando ela voltasse… Eu estaria esperando.
