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Capítulo 62

Bruna Narrando

Estava sendo difícil. Mais difícil do que eu queria admitir.
A ausência do Justin já me fazia sentir um buraco no peito — aquele tipo de vazio silencioso que acompanha a gente no café da manhã, nas aulas e até quando a gente deita na cama à noite. Mas agora era mais do que isso. Era ele, era o Luan... e até a Marina.

Minha irmã de alma, minha parceira, confidente, vizinha de quarto — agora estava gravando cenas, ocupada, seguindo o sonho dela. E eu? Eu também estava seguindo o meu. Mas de outro jeito.

Respirei fundo olhando o mural do meu quarto. Cheio de inspirações, recortes de revistas de moda, desenhos meus, lembretes com provas, deadlines de projetos, e um post-it amarelo que dizia: “Você só precisa terminar o que começou.”
Era o que me mantinha firme.

Agora, no segundo ano da faculdade, eu sentia que o tempo estava correndo. Faltavam só dois anos. Dois anos pra eu pegar aquele diploma que ia validar tudo o que eu já sabia fazer. Porque sim, minha carreira dependia de talento — mas também de um certificado.
E eu queria aquilo. Não só por mim. Mas por tudo que eu tinha sonhado desde pequena.

As saudades do Justin às vezes vinham como ondas. Tinha dias que eu aguentava bem. Ligava pra ele no fim da tarde, ou mandava mensagem durante o almoço. Às vezes, ele me mandava vídeos fofos, cantando alguma coisa só pra mim, e eu sentia meu coração explodir de amor e vontade de pular dentro da tela.
Mas em outros dias... como hoje... era difícil.

A Marina também fazia falta. A gente conversava por Skype sempre que dava, ela me contava das gravações, do clima no set, do Victor, e eu via os olhos dela brilhando. Eu ficava feliz, claro. Orgulhosa até. Mas também me sentia sozinha.

O Luan… esse nem me atendia direito. Tava ocupado com os próprios corres, e eu tentava entender. Mas era estranho passar pela universidade sem esbarrar nele nos corredores, sem trocar piadinhas ou ouvir as músicas que ele escrevia escondido.

Ainda bem que o Zach tava por perto.

Eu e ele começamos a conversar de verdade em setembro, meio por acaso, numa aula de história da arte aplicada à moda. Ele era engraçado, inteligente, e tinha um jeito leve de me ouvir — sempre com aquele sorrisinho meio torto no rosto.
Ele dizia que queria ser designer de moda masculina e falava com uma empolgação tão grande que, às vezes, eu esquecia que sentia falta de todo mundo.
A gente começou a almoçar juntos, estudar juntos, até rabiscar ideias no caderno um do outro.

E eu, boba, achava que ele só queria ser meu amigo.

Mas o olhar dele demorava mais do que o normal no meu rosto.
As mensagens de boa noite vieram acompanhadas de emojis com corações, e os convites pra sair começaram a parecer menos "amigáveis".

Eu tava tão focada em manter minha vida nos trilhos, que talvez não quisesse ver o que estava bem na minha frente: Zach estava se apaixonando por mim.
Ou talvez... apenas desejando o que não era dele.

E eu? Eu ainda era da pessoa que estava lá longe, do outro lado do país, mas que bastava ouvir a voz no telefone pra eu lembrar do porquê valia a pena esperar.

Justin.

Suspirei, olhando o celular.
Nenhuma mensagem nova.

Mas tudo bem.
O meu foco estava aqui.
Dois anos.
Era só o que faltava.

E eu não ia deixar nenhuma distração — nem Zach, nem saudade, nem solidão — me tirar do meu caminho.

Eu tava sentada no chão do quarto, de moletom e cabelo preso de qualquer jeito, desenhando umas ideias de croquis no meu caderno, quando a Olívia entrou com um pacote de salgadinhos e jogou pra mim.

- Toma. Você precisa de sal e realidade. -ela disse, se jogando na minha cama.

Virgínia veio logo atrás, com aquele jeito mais direto dela.

- Bruna, a gente precisa conversar.

Eu já sabia o tom. Aquele tom de "melhor amiga preocupada", mas com uma pitada de "te avisei".

- Se for sobre o Zach de novo… -comecei, revirando os olhos.

- Claro que é sobre o Zach! -Virgínia sentou na escrivaninha, cruzando os braços.- Você tá muito inocente nessa história. Ele tá na sua. E não tá nem tentando esconder.

- Ai, gente… Ele só é gentil, ele é assim com todo mundo.

- Não, ele não é assim com todo mundo. -Olívia respondeu, pegando um salgadinho.- Ele não manda mensagem de boa noite com coraçãozinho pra “todo mundo”. Nem fica te esperando depois da aula como se fosse segurança particular.

Eu dei um risinho, tentando disfarçar o leve desconforto que aquilo me causava. No fundo, eu sabia que elas estavam certas. Mas eu não queria alimentar paranoia.

- E se o Justin souber? -Virgínia continuou, me olhando sério.- Porque ele vai saber. E ele vai ficar puto, Bruna.

- Não tem nada acontecendo. -eu rebati.- E o Zach sabe que eu namoro.

- Mas homem não respeita isso quando sente abertura. -Olívia disse, dando um gole no refrigerante dela.- E, amiga… você tá dando. Sem perceber, talvez. Mas tá.

Fiquei em silêncio. Me senti meio mal, meio em negação, meio querendo que aquilo não fosse verdade.

- E outra, -Virgínia falou, com um meio sorriso- você ainda é sortuda que a Melanie não percebeu essas coisas. Porque se ela visse, ela já tinha ido correndo contar pro Justin, que iria brotar aqui na hora.

- Melanie com fofoca é um perigo. -Olívia concordou, rindo.- Ainda bem que ela tá ocupada demais tentando copiar a Marina no primeiro ano dela.

Suspirei, largando o caderno no colchão.

- Eu só quero focar nos meus estudos. De verdade. Eu nem penso em outra pessoa que não seja o Justin.

- A gente sabe disso, Bru. -Virgínia respondeu mais calma agora.- Mas o mundo fora do seu coração é cheio de gente que quer o que não é deles. E o Zach... bom, ele tá sorrindo demais pra quem "só quer amizade".

- Tá bom, eu vou conversar com ele. Colocar um limite. -prometi.- E se ele não entender, aí... é melhor se afastar mesmo.

Olívia estendeu a mão pra mim, e eu bati a minha na dela.

- Boa, Brubru. Só não deixa essa história virar novela mexicana. Sua vida já tem drama suficiente sem isso.

- A gente só quer te proteger, tá? -Virgínia completou, e eu sorri.

- Eu sei. E obrigada. De verdade.

Mas enquanto eu deitava e encarava o teto, uma coisinha martelava na minha cabeça:
"E se o Justin realmente soubesse… como ele reagiria?"

Alguns dias depois... 

Tinha algo dentro de mim me incomodando desde aquela conversa com Olivia e Virgínia. O Zach. A forma como ele vinha se aproximando, as indiretas disfarçadas de brincadeira, os olhares longos demais... tudo isso começou a pesar. Eu precisava esclarecer as coisas. Encerrar qualquer dúvida.

Mandei uma mensagem pra ele, marcando de conversar na praça central do campus. Lugar movimentado, público... seguro. Porque mesmo que ele fosse gentil, divertido e um ótimo amigo, eu não podia mais ignorar o clima estranho que pairava entre a gente.

Cheguei primeiro. Sentei num dos bancos de madeira debaixo de uma árvore com folhas alaranjadas de outono e fiquei encarando os pés. Minhas mãos estavam geladas, e meu coração acelerava só de pensar na conversa.

Zach apareceu logo depois. Estava com aquele moletom azul escuro que ele usava quase sempre e uma expressão leve, quase animada demais. Se sentou ao meu lado sem cerimônia.

- Você sumiu essa semana. -ele comentou, olhando pra mim com aquele sorriso torto.

- Tava cheia de coisa, Zach. Desculpa. Mas... eu queria falar com você.

Ele me olhou por um segundo, como se soubesse o que viria. Mas não disse nada.

- Eu gosto da nossa amizade. De verdade. Mas tenho sentido que... talvez você esteja confundindo as coisas. E eu não quero te magoar, mas preciso ser clara: eu tô com o Justin. Eu amo ele.

Zach respirou fundo. Ficou em silêncio por um instante, depois deu um riso curto, quase nervoso.

- Eu sabia que você ia dizer isso. Mas, Bruna... -ele virou o corpo na minha direção- eu não consegui evitar. Desde que a gente se aproximou, eu... você é incrível. Você me faz rir, me escuta, me entende. Eu tentei ser só seu amigo. Eu juro que tentei.

- Zach, por favor...

- Não. Me deixa terminar. -ele insistiu, e então... me puxou.

Tudo aconteceu tão rápido. De repente, o rosto dele tava perto demais, os lábios encostando nos meus. Eu congelei. Fiquei em choque, travada, sem reação. Não retribuí. Não beijei de volta.

E quando voltei a mim... foi como se tudo estourasse dentro de mim.

Empurrei ele com força e levantei num pulo.

- QUAL É O SEU PROBLEMA?! -gritei, sem nem pensar, e a palma da minha mão foi direto na cara dele.

O estalo foi alto. Zach levou a mão à bochecha, claramente sem acreditar no que tinha acabado de acontecer. Mas o pior ainda estava por vir.

Ele desviou o olhar, encarando algo atrás de mim. Arregalou os olhos. O corpo paralisado.

Virei na hora, com o estômago já apertando.

E lá estava ele.

Justin.

Parado, a poucos metros. A mochila ainda pendurada num ombro, a expressão dura, congelada. Os olhos dele não piscavam. Não se mexiam.

Só encaravam. A mim. E ao Zach.

Puta. Que. Pariu.

O tempo congelou.

Eu nem sabia se ainda respirava. Senti meu corpo inteiro formigar. Meu peito subir e descer mais rápido do que o normal, e minhas mãos suavam como se eu tivesse corrido uma maratona.

- Justin… -minha voz saiu num sussurro, quebrada, quase sem som.

Ele ainda estava parado. O maxilar travado. Os olhos cravados em mim, como se estivesse tentando entender se o que tinha visto era real. E, por um momento, eu quis poder rebobinar o tempo. Explicar. Gritar que não era o que parecia. Mas, meu Deus… parecia.

Zach tentou falar alguma coisa. Deu um passo na direção dele.

- Justin, cara, espera aí, não foi...

- Nem abre a boca. -a voz do Justin veio fria. Diferente de tudo que eu já ouvi sair da boca dele. Sem o tom doce. Sem a calma. Era gelo puro.

Zach recuou. E eu fiquei ali, no meio dos dois. Sentindo a cabeça girar.

- Justin, por favor… ele me beijou do nada. Eu não retribuí. Eu empurrei ele, eu juro por tudo que é mais sagrado. Eu… -comecei a falar rápido, desesperada, as palavras tropeçando umas nas outras.

- Eu vi. -ele respondeu, ainda sem se mexer.- Eu vi você empurrando. Eu vi você dando o tapa.

Meu coração se apertou.

- Então por que você tá assim?

Ele finalmente se aproximou. Os olhos estavam vermelhos. E agora, mais do que raiva… eu vi decepção.

- Porque ele achou que podia. Porque um cara só tenta isso quando sente que tem alguma chance, Bruna. E isso… isso dói mais que qualquer beijo.

Meus olhos encheram d’água. Eu balancei a cabeça.

- Eu nunca dei espaço. Eu nunca deixei ele pensar que tinha alguma chance. Eu só fui amiga, Justin. Ele confundiu tudo. Eu tô com você. Sempre fui sua. Só sua.

Justin me olhou por mais alguns segundos. Como se estivesse procurando a verdade no fundo dos meus olhos.

E então ele suspirou.

- Me deixa sozinho um pouco.

- Justin…

- Por favor, Bruna. Só… me dá um tempo. -e ele virou as costas.

Eu fiquei ali, parada, vendo ele se afastar. Sem forças pra ir atrás. As lágrimas começaram a escorrer, pesadas. Meu coração parecia um vidro trincado prestes a se partir por completo.

Zach ainda estava ali. Mas eu nem olhei pra ele. Apenas me virei e saí, andando rápido, querendo sumir, querendo acordar de um pesadelo que eu nunca pedi pra sonhar.

E dentro de mim, uma única pergunta: Será que perdi o amor da minha vida por um erro que nem foi meu?

Entrei no quarto com o rosto encharcado, as lágrimas escorrendo sem controle. Meus olhos ardiam, meu peito parecia que ia explodir. A cada passo, eu sentia como se estivesse desabando por dentro.

Virgínia estava deitada no sofá mexendo no celular, Olívia sentada na poltrona lendo um livro. Quando elas me viram daquele jeito, largaram tudo de imediato.

- Bruna? -Virgínia levantou num pulo, o celular caiu no chão.

- O que aconteceu? -Olívia correu até mim, segurando meus braços.- Fala comigo!

Mas eu não consegui. Minha boca tremia, minhas pernas estavam fracas, e tudo que eu fiz foi cair no chão do dormitório, chorando. As lágrimas vinham com tanta força que pareciam sufocar. Eu me encolhi ali mesmo, sentindo o chão gelado contra a pele e o calor da dor dentro de mim.

- Meu Deus, o que tá acontecendo?! -Virgínia já pegava o celular de novo, discando.

Olívia correu até a pia e voltou com um copo d’água, se ajoelhou do meu lado, tentando me fazer beber.

- Bruna, respira, por favor. A gente tá aqui.

Eu vi Virgínia se afastar e dizer com urgência no celular:

- Marina? Larga tudo. Agora. É caso de vida ou morte. Eu tô falando sério, Bruna tá mal, tá desabando aqui.

Ouvir o nome da Marina me fez chorar ainda mais. Eu queria ela ali. Eu precisava dela. Do jeito que só ela sabia me abraçar e dizer que tudo ia ficar bem.

Virgínia se aproximou de novo e virou o celular pra mim. A imagem na tela tremia um pouco, mas eu consegui ver… Marina. Do outro lado da chamada, de moletom, em algum lugar de Los Angeles. Assim que ela me viu, com o rosto vermelho, os olhos inchados e a respiração descompassada, ela arregalou os olhos e levou a mão à boca.

- Bruna… meu Deus, o que aconteceu?

- Marina… -minha voz saiu falha, entrecortada pelos soluços.- Eu… -eu chorei mais ainda. Eu só queria ela aqui, agora.

- Se vocês não conseguirem acalmar ela, eu pego o primeiro voo pra Nova York. Tô falando sério. Eu não tô nem aí pras gravações. -ela disse, olhando diretamente pras meninas, com os olhos marejados.- Ela é minha cunhada. Eu vou estar aí se precisar.

Olívia e Virgínia me levaram até o sofá. Eu me sentia esgotada, vazia, como se todo o ar tivesse sido arrancado dos meus pulmões. Mas aos poucos, com elas ao meu lado, com Marina na tela do celular, minha respiração foi voltando ao normal. Ainda doía, mas pelo menos agora eu conseguia falar.

- Chamei o Zach pra conversar… na praça central… -comecei, com a voz embargada.

As meninas ouviram em silêncio absoluto, o olhar delas fixo em mim, atento a cada palavra.

- Ele se declarou. E... me puxou pra um beijo. Eu fiquei tão em choque… eu nem me mexi. Não retribuí. Juro por tudo. Quando caí em mim, eu empurrei ele. Dei um tapa na cara dele. Eu juro, Marina… eu juro.

- Eu acredito em você. -Marina respondeu de imediato, com firmeza.

Mas eu continuei, sentindo o nó na garganta voltar.

- Quando eu dei o tapa… o Zach olhou pra trás… e o Justin tava lá. Tava vendo tudo. -minha voz desabou de novo.- Ele me ouviu dizendo que eu não queria, que foi errado… mas ele acha… ele acha que o Zach só me beijou porque eu dei espaço.

Virgínia suspirou, se sentando ao meu lado. Olívia ainda segurava minha mão com força.

- Bruna… -Virgínia falou, cuidadosamente.- O Justin te ama. Mas isso que aconteceu… foi um baque. Um susto. Ele tá magoado. Com o tempo ele vai entender.

- E ele viu você empurrando o Zach, viu o tapa… isso já é mais do que muita gente teria coragem de fazer. -Olívia completou.

- Mas ele disse que precisava de um tempo… -sussurrei, com o coração estraçalhado.

- Bruna… olha pra mim. -Marina disse, com aquela voz que sempre me fazia parar e escutar. Respirei fundo e levantei os olhos inchados pra tela.- Eu não vou fingir que isso não é sério, tá? É. Muito. Sério.

Engoli em seco, esperando que ela fosse me dar uma bronca.

- Mas sério não quer dizer que acabou. -ela ajeitou o cabelo, ainda olhando firme pra mim.- O Justin viu algo que doeu nele. Só que ele te conhece. E mais importante: eu conheço você. Você não tem culpa se alguém ultrapassou um limite que você nunca deu permissão.

- Eu não queria que isso tivesse acontecido. -sussurrei.- Eu só fui conversar pra esclarecer as coisas. Mas eu nunca, nunca dei esperança.

- Eu sei disso, e o Justin vai entender também. Mas Bruna, escuta o que eu vou te dizer agora. -Marina aproximou o rosto da câmera.- Você vai precisar ter paciência. Homens são cabeça dura, principalmente quando se sentem ameaçados.

- Você acha que ele vai me perdoar? -minha voz saiu quase como um sussurro.

- Eu acho que ele tá doendo agora. E quando a dor passar, ele vai lembrar quem é você. E vai se arrepender de ter duvidado. -ela fez uma pausa e sorriu com carinho.- Mas também não fica esperando parada. Se ele é o amor da sua vida, vai atrás. Mostra sua verdade. Fala tudo. Com todas as letras.

- Mas ele não quis me ouvir…

- Então vai atrás dele. Manda uma carta, uma mensagem, um vídeo. Sei lá, Bruna, você é criativa. Mas não guarda pra você. Não carrega essa dor como se fosse culpa sua. Porque não é.

- Você falaria isso se fosse outra pessoa no lugar? -perguntei, franzindo a testa.- Quer dizer… ele é seu irmão.

Ela deu um sorrisinho de lado.

- Justamente por isso. Eu conheço o coração dele, e conheço o seu. Sei que vocês se amam de verdade. E eu vou defender esse amor com unhas e dentes. Mas… -ela se inclinou de novo, séria.- se ele te fizer sofrer de verdade, aí eu viro irmã só sua, tá bom?

Eu soltei uma risada fraca. Olívia e Virgínia sorriram aliviadas também.

- Obrigada, Marina. De verdade. Eu só queria você aqui.

- Eu tô. Sempre tô. Se precisar mesmo, eu pego o primeiro voo. Mas por enquanto, se agarra nessas meninas aí, e pensa no que você quer dizer pra ele. Com calma. Com o coração.

Eu assenti. O rosto dela na tela ficou desfocado pelas minhas lágrimas, mas dessa vez eram diferentes. Era gratidão. Era força.

Marina me deu o que eu mais precisava: coragem.

O coração martelava no peito enquanto eu atravessava o saguão do hotel. Era chique, elegante, mas eu não conseguia prestar atenção em nada disso. Tudo que eu enxergava era o elevador, e tudo que eu queria era olhar nos olhos dele.

Rebecca, a recepcionista, me reconheceu assim que me aproximei do balcão. Ela sorriu, mas hesitante.

- Bruna? Está tudo bem?

- Eu… preciso falar com o Justin. -minha voz estava trêmula, mas firme.- Por favor.

Ela hesitou por um segundo, depois assentiu.

- Ele está na suíte presidencial. Vou liberar o acesso pra você. -digitou algo rapidamente no sistema e estendeu um cartão de acesso.- Boa sorte.

Agradeci num fio de voz, apertei o cartão nas mãos e segui até o elevador. Me senti engolida por ele. Subi os andares em silêncio, o estômago completamente revirado.

Assim que a porta se abriu, respirei fundo. Corredor silencioso. Caminhei até a suíte, bati duas vezes. Nada. Encostei o cartão, a luz verde acendeu, e a porta destravou com um clique. Entrei devagar.

- Justin? -chamei baixinho.

Ele estava lá, perto da janela, de costas pra mim. Ouvi quando ele soltou um suspiro longo. Se virou. Os olhos vermelhos. A expressão dura.

- O que você tá fazendo aqui?

- Eu precisava falar com você. Explicar.

- Já vi o suficiente, Bruna.

- Você não viu tudo. -dei um passo à frente.- Eu chamei o Zach pra conversar porque… porque a Virgínia e a Olívia me alertaram que ele tinha segundas intenções. Eu não queria nada com ele, Justin. Eu só queria esclarecer. E ele me beijou.

- E você ficou parada. -ele respondeu, com a voz tensa.- Parada. Como se quisesse.

- Eu fiquei em choque! Eu não esperava aquilo! Eu nunca daria brecha pra ele, nunca! -as lágrimas já escorriam.- Eu te amo. É você. Só você. Sempre foi.

- Não pareceu. -ele cruzou os braços, o maxilar travado.- Bruna, você tem noção do que eu senti? Ver ele… ele te beijando? O cara que claramente queria te pegar desde o início, e você ali, na frente dele, como se nada.

- Eu bati nele! Eu empurrei ele! -a voz falhou.- Mas você só viu o que quis ver. Não quis ouvir, não quis saber de mim…

- Porque doeu! -ele gritou, e aquilo me fez recuar um passo. Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo.- Eu não sei se consigo continuar, Bruna.

- Não. Não fala isso. Por favor. -me aproximei, abraçando ele com força.- Me escuta. Me escuta só mais um pouco, por favor.

Ele ficou ali, imóvel. As mãos dele não me afastaram, mas também não me abraçaram.

- Eu amo você, Justin. Eu amo o jeito que você sorri, o jeito que briga comigo quando tô nervosa, o jeito que me olha como se eu fosse tudo. E eu sei que errei em não te contar sobre a conversa com o Zach antes. Mas eu juro, juro por tudo, que nunca quis outro além de você.

- Eu queria acreditar. -a voz dele veio baixa, como se ele estivesse quebrando por dentro.- Eu te amei tanto. Ainda amo. Mas agora eu não sei se vou conseguir olhar pra você e não lembrar daquela cena.

- Me dá tempo. Me dá uma chance de te fazer esquecer. -segurei o rosto dele entre as mãos, desesperada.- Me odeia se quiser, mas não vai embora. Por favor, não vai embora de mim.

Ele fechou os olhos. E quando abriu, vi que ele já tinha decidido.

- Eu preciso de um tempo, Bruna. Preciso de espaço. Isso me machucou demais.

- Justin… -sussurrei, implorando.

- Não adianta insistir agora. -ele recuou, tirando minhas mãos do rosto dele com delicadeza.- Eu só preciso ficar longe. Entende isso.

Eu fiquei ali, parada, congelada, vendo ele se afastar até entrar no quarto da suíte e fechar a porta. Quando ouvi a trava, senti como se tivesse tomado um soco no peito.

Caí de joelhos no chão, o choro vindo rasgado, desesperado, como se arrancasse minha alma. Eu tinha perdido ele. Mesmo dizendo que era só um tempo, eu sabia. No fundo, eu sabia.

Meu mundo tinha acabado ali.

Eu não sei quanto tempo fiquei ali, no carpete macio daquele hotel luxuoso, com o rosto escondido entre as mãos, chorando como uma criança. O som abafado da porta trancada atrás dele ecoava na minha mente como um martelo, uma sentença. "Eu preciso de um tempo, Bruna." Aquilo me matou.

Minhas mãos tremiam quando consegui me levantar. Eu estava exausta. Destruída. Senti o gosto salgado das lágrimas escorrendo até os lábios, e meu corpo inteiro pesava como se estivesse carregando o mundo.

Saí da suíte em silêncio, não sem antes lançar um último olhar pra porta fechada. Parte de mim queria gritar, bater ali, implorar de novo. Mas outra parte... a parte que ainda tinha algum orgulho, sabia que não adiantava. Pelo menos não agora.

Atravessar o saguão foi como andar por um pesadelo. Rebecca me olhou, confusa, talvez com pena, talvez sem saber o que fazer. Eu apenas baixei a cabeça e saí do hotel. O ar frio lá fora me atingiu como uma facada.

Voltei a pé pro campus. Eu precisava sentir o chão. Precisava andar, respirar, existir de alguma forma, antes de desabar de novo.

Assim que entrei no dormitório, Olívia e Virgínia estavam ali, me esperando. Ambas levantaram num salto quando me viram.

- E aí? -Virgínia perguntou, num tom baixo, quase com medo da resposta.

Eu apenas balancei a cabeça negativamente. As lágrimas voltaram antes mesmo de eu abrir a boca. 

- Ele terminou comigo.

Elas vieram até mim e me abraçaram sem dizer uma palavra. Eu chorei no colo da Olívia enquanto Virgínia passava a mão nas minhas costas, me aconchegando como se pudesse colar meus pedaços com carinho.

- Bruna, a culpa não é sua… -Olívia começou.

- Mas parece. -eu disse, soluçando.- Parece. Ele acha que eu deixei. Que eu dei brecha. Mas eu não dei! Eu juro! E ainda assim, eu perdi ele…

- Você não perdeu, amiga. -Virgínia respondeu firme.- Ele precisa de um tempo. Mas tempo não é fim.

- Eu conheço o Justin. -sussurrei.- Quando ele se afasta… ele se fecha. Ele se tranca no próprio mundo. E eu? Eu tô aqui. Morrendo. Implorando por um pouco do amor que ainda resta.

- Então agora é sua hora de mostrar pra ele quem você é. -Virgínia me olhou nos olhos.- Se reconstrói, Bruna. Não por ele, mas por você. Porque você é forte. Você não é só namorada do Justin Bieber. Você é Bruna Santana. A futura estilista que vai conquistar o mundo. E ele vai se arrepender de ter virado as costas pra você nesse momento.

Aquilo me fez engolir em seco. Eu queria gritar. Quebrar tudo. Mas me mantive ali, abraçada às minhas amigas. Porque nesse momento, eram elas que estavam me mantendo viva.

Subi pro meu quarto e deitei na cama sem trocar de roupa. Olívia apagou a luz. Virgínia me deu um beijo na testa antes de sair do quarto. Fiquei ali, encarando o teto escuro.

Sussurrei quase sem voz:

- Eu te amo, Justin. E vou te provar que isso… isso não foi o fim.

Acordei com os olhos inchados e o rosto grudando no travesseiro molhado de tanto chorar. O quarto estava silencioso. Só sei que, naquele momento, tudo parecia meio sem cor, meio sem som, como se o mundo estivesse em câmera lenta.

Peguei o celular no criado-mudo com a pontinha da esperança ainda viva dentro do peito. Talvez uma mensagem dele. Talvez um "bom dia" arrependido. Um "posso te ver?". Mas não.

O que me esperava era pior.

Abri o Instagram, e meu coração gelou no mesmo instante. O nome dele estava ali no topo da tela, com um novo post. Meus dedos tremiam ao tocar.

Era uma foto nossa. Preto e branco. Ele me abraçando, no dia do lançamento do seu primeiro álbum. Era uma das nossas favoritas. Uma que eu tinha jurado guardar pra sempre.

Mas o texto...

justinbieber Depois de muitas conversas e reflexões, Bruna e eu decidimos seguir caminhos diferentes. Temos muito respeito um pelo outro e vamos sempre torcer pela felicidade individual. Obrigado a todos que nos apoiaram até aqui. Essa será a única declaração pública sobre o assunto.

Frio. Seco. Formal. Como se eu fosse um capítulo encerrado num livro qualquer. Como se nós nunca tivéssemos dividido sonhos, planos, risadas e lágrimas.

Meu estômago embrulhou. Senti o peito apertar, e a tela do celular ficou borrada pelas lágrimas que voltaram com tudo. Caí sentada na beirada da cama, tentando controlar a respiração.

Ele não só terminou comigo. Ele anunciou pro mundo.

Sem me avisar. Sem me preparar.

Minhas mãos tremiam tanto que deixei o celular cair no colchão. Me encolhi, puxando os joelhos contra o peito, e chorei tudo de novo. Chorei como se tivesse sido traída pela pessoa que mais amei na vida.

- Como ele pôde fazer isso comigo? -sussurrei pra mim mesma.

Escutei a porta se abrindo devagar. Era Virgínia. Quando me viu, correu até mim sem nem perguntar.

- Você viu, né?

Apenas assenti, sem conseguir falar. Ela sentou ao meu lado e me puxou pro colo dela, passando a mão no meu cabelo.

- Você não merecia isso, amiga. Não assim. Ele foi covarde. Frio.

- Eu sou um lixo. -murmurei.- Ele terminou comigo no Instagram, Vi… Como se eu fosse só mais uma.

- Você não é. E todo mundo que viu aquele post sabe disso. Sabe que ele tá errado. Que tá perdido.

- Ele acabou comigo.

- Não. Ele perdeu você. E isso… vai doer nele uma hora também. Mas até lá, a gente vai colar seus pedacinhos com calma, tá? Você ainda vai levantar mais forte.

Fechei os olhos e respirei fundo. O gosto amargo da decepção ainda queimava na garganta, mas o abraço da Virgínia me fazia lembrar que eu não tava sozinha.

Eu só não sabia mais quem eu era sem ele. E isso… isso ia doer pra descobrir.

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