Luan Narrando
Depois de semanas viajando, dormindo em hotéis, em ônibus de turnê, vivendo entre palcos e camarins… finalmente, eu teria 15 dias de descanso. E eu sabia exatamente o que fazer com esse tempo.
Nova York
A cidade que Marina amava, onde ela ria só de andar pelas ruas, tirava fotos de vitrines, pegava café em cada esquina como se fosse o melhor do mundo. A cidade onde tudo parecia mais leve com ela por perto.
Então eu comprei um apartamento. Simples, moderno, aconchegante. Nada exagerado, mas com tudo que ela amava: varanda com vista, uma sala ampla com luz natural, uma cozinha cheia de espaço pra ela fazer aqueles cafés da manhã do jeitinho que gosta. E o principal: um quarto só nosso.
Não falei nada. Era pra ser uma surpresa. Ela não sabia nem que eu estava vindo pra cá.
Mandei mensagem pra ela enquanto o porteiro me entregava a chave do apartamento.
"Amor, lembra daquele apê que te falei que talvez comprasse em NY? O corretor vai mostrar hoje. Vai lá ver pra mim? Queria saber sua opinião."
"Você tá em NY???"
"Não, tô na estrada. Mas o apê é na 6ª avenida, número 178, cobertura. Vai lá rapidinho, o corretor tá te esperando. Pode confiar."
Mentira descarada. O "corretor" era eu.
Deixei tudo perfeito.
Comprei flores – as favoritas dela, margaridas brancas e tulipas cor-de-rosa. Deixei sobre a mesa da sala, ao lado de uma caixinha com uma aliança de prata com nossas iniciais gravadas por dentro. Nada de noivado ainda, só algo simbólico. Mas especial.
Na cozinha, preparei um café do jeito dela: suco de laranja fresco, croissant, panquecas com mel, frutas cortadas. E deixei Bruno Mars tocando baixinho na caixa de som, porque era a trilha sonora favorita dela nos dias mais calmos.
A campainha tocou.
Meu coração acelerou.
Fui até o quarto e fiquei escondido, olhando pela fresta da porta.
Ouvi o som dela entrando devagar no apartamento.
- Oi? -a voz dela ecoou.- Tem alguém aí? Sou a Marina… O Luan me pediu pra vir...
Silêncio.
- Que corretor maluco... -murmurou, e então entrou de vez.- Meu Deus… -ela sussurrou, olhando tudo.
Ouvi os passos dela andando até a mesa. Quando ela viu as flores e a caixinha, ficou paralisada.
Foi aí que saí do quarto, devagar, e falei:
- E aí, o que achou do apê?
Ela girou nos calcanhares, olhos arregalados, boca aberta.
- LUAN?! -ela correu até mim, e eu abri os braços na hora.
Ela pulou no meu colo, e eu a abracei forte, girando com ela no ar.
- Como assim?! Você tá aqui?! Você mentiu pra mim! -ela riu com os olhos marejados.- E esse apartamento?
- É nosso refúgio. Comprei pra ter um lugar só nosso. Eu não posso ir pro campus, mas posso ter você aqui. -acariciei o rosto dela.- E tenho 15 dias só pra você.
Ela me beijou. Um beijo cheio de saudade, de emoção, de tudo que a gente segurou nos últimos dias.
- Isso é a melhor coisa que podia ter acontecido. -ela sussurrou contra meus lábios.- Eu te amo tanto…
- Eu também te amo, minha Marina. Bem-vinda ao nosso lar.
Marina se aconchegou no meu peito por alguns segundos, como se quisesse ter certeza de que eu era real. Ela respirava acelerado, o coração batia forte, igual ao meu.
- Vem. -eu disse, entrelaçando nossos dedos.- Quero que aproveite o que preparei pra você. -a guiei até a mesa.
- Luan... você preparou tudo isso sozinho?
- Sim. Acordei cedo, fui comprar as flores, os ingredientes, até espremer esse suco com minhas próprias mãos. -brinquei, e ela riu com aquela risadinha que eu tanto sentia falta.
Ela se sentou, pegou um pedaço da panqueca e fez aquela carinha de quem tá no céu.
- Tá incrível, sério. Tô me sentindo mimada.
- É só o começo. -puxei a caixinha da mesa.- Abre.
Ela arqueou as sobrancelhas, curiosa, e abriu a tampa devagar.
Dentro, uma aliança fina de prata, com um brilho discreto e nossas iniciais gravadas dentro: M & L.
- A gente perdeu as nossas na ilha… lembra?
- Claro que lembro. -ela disse, emocionada.
- Eu precisava que você tivesse de novo algo que dissesse que é minha. -segurei a mão dela e deslizei a aliança em seu dedo.- Essa aqui não vai se perder.
Ela colocou a dela no meu dedo, devagar. Depois me puxou pra um beijo mais calmo, mais profundo. Só nós dois ali, sem ninguém pra interromper.
- Eu tô muito feliz. -ela sussurrou.
- Então vem cá. -falei, pegando ela no colo e a levando até o quarto.
Deitei ela na cama com delicadeza, deslizando os dedos pelo rosto dela, depois pelo pescoço, e pela cintura… Ela gemeu baixinho quando minhas mãos encontraram sua pele. Aquele era o nosso momento, o reencontro dos nossos corpos e das nossas almas. Sem pressa, só entrega.
As roupas foram saindo aos poucos, os beijos ficando mais intensos, e a saudade transbordou em toques. Fiz amor com ela como se fosse a primeira vez, como se o mundo lá fora não existisse. Marina era minha paz, meu lar. E agora, literalmente, estava no nosso lar.
[...]
Nos dias que seguiram, a rotina foi leve, perfeita.
Comprei um carro — um SUV preto, confortável, espaçoso. Marina ficou toda animada quando viu.
- Isso é sério? Você comprou um carro também?
- Claro. Agora eu te levo e te busco na faculdade. Assim não perde aula nenhuma e a gente ainda dá umas voltinhas por aí.
- Você é maluco. Mas eu amo isso em você.
Todas as manhãs, eu acordava antes, preparava o café, deixava o som baixinho, e a levava até o campus. Ela entrava nos prédios de aula sorrindo, olhando pra trás e soprando um beijo.
E quando eu ia buscá-la, ela corria pro carro, jogava a mochila no banco de trás e me dava um beijo daqueles que paravam o tempo.
Passeamos pela cidade à noite, pegamos filme antigo no cinema pequeno da esquina, dividimos sorvete no Central Park. Às vezes, ficávamos só em casa mesmo, debaixo das cobertas, maratonando séries e comendo besteiras. E todas as noites, dormíamos colados.
Era o nosso paraíso particular.
Mas... sabíamos que o tempo estava correndo. Os 15 dias iam acabar. E, quando acabassem, a saudade voltaria.
Mas até lá, eu faria cada minuto valer.
Estava parado no carro, esperando a Marina sair da faculdade como sempre. Só que, diferente dos outros dias, ela estava demorando demais. Já tinham passado mais de vinte minutos, e nada dela aparecer. Peguei o celular, mandei mensagem. Sem resposta. Suspirei, desliguei o carro e desci.
Fazia tempo que eu não pisava naquele campus — desde que deixei de ser aluno. Agora, ao contrário de antes, os olhares se voltavam pra mim com intensidade. Gente cochichando, virando o pescoço pra olhar. Uns com admiração, outros com inveja. Agora eu era o Luan Santana, não só mais um estudante de música tentando vencer.
Segui pelo caminho até o pátio lateral, onde os alunos costumavam se reunir. Assim que dobrei a esquina, meu corpo travou por um instante.
Vi Marina no centro da confusão. Ela estava furiosa, os olhos faiscando. Olívia, Bruna e Virgínia tentavam segurá-la pelos braços enquanto ela apontava o dedo na cara de um cara. Ao lado dele, outro cara estava visivelmente desconfortável, tentando acalmar a situação.
Ryan e Anthony estavam logo atrás, com o corpo tenso, prontos pra intervir. Ninguém tinha me visto ainda, exceto eu que via tudo claramente.
- Você tá louco?! -Marina gritava.- Tentou me beijar?!
- Marina, calma... -um deles dizia.- Ele só...
- C-A-L-A-D-O, Zack! -ela berrou, mostrando a mão com a aliança.- Você tá vendo isso aqui, Josh? Tá vendo? Isso aqui significa algo pra mim! Isso aqui significa que eu tenho alguém! E você vem com essa cara lavada me forçar?
Aquele idiota do tal do Josh parecia sem reação, sem saber onde enfiar a cara. Quando dei mais dois passos pra frente, o grupo notou minha presença. Todos pararam, menos Marina, que continuava explodindo de raiva.
- Qual é o problema aqui? -perguntei, firme.
Bruna soltou Marina devagar, visivelmente aliviada por me ver.
Marina então me olhou com os olhos marejados, respirando rápido, e falou:
- Ele tentou me beijar, Luan. Forçou mesmo. Achei que era só conversa, mas ele se aproximou, me segurou...
Meu sangue ferveu.
Antes que eu pudesse reagir, Victor apareceu, encostado numa pilastra, com aquele sorriso debochado típico dele.
- Ué Santana, a vaga de segunda opção tá disponível, né? -ele falou, encarando Marina com sarcasmo.- Não sei por que tá tão irritado…
- CALA A BOCA, VICTOR! -Marina gritou, virando-se pra ele.- Vai superar quando? Vai arranjar uma vida quando?
Não pensei duas vezes. Me aproximei de Josh, que ainda mantinha aquela expressão perdida, e acertei um soco seco no rosto dele. Ele caiu no chão com um grunhido de dor, enquanto os outros ao redor arregalavam os olhos.
Zack foi até ele, assustado.
- Tá maluco?!
- Se encostar nela de novo, você vai ver o que é ficar maluco de verdade. -falei, me inclinando um pouco sobre o Josh caído.
Olhei direto pro Victor, que agora tinha parado de sorrir.
- E você? Vai querer também?
Victor deu um passo pra trás, levantando as mãos.
- Tá de boa, Santana. Relaxa aí. Só falei brincando…
Marina veio até mim, passou o braço pelo meu, ainda respirando com dificuldade.
- Vamos embora, Luan. Não vale a pena perder tempo com lixo.
Eu a envolvi com força, beijei sua testa, e saímos dali de cabeça erguida, deixando todo mundo em choque com a cena. Aquilo só confirmou uma coisa: Marina era minha, e ninguém ia chegar perto dela sem consequências.
Depois da confusão no campus, levei Marina direto pro apartamento. Ela não falou muito no caminho, e eu também não. Mas sentia a tensão dela só pelo jeito como segurava minha mão — forte, como se estivesse tentando se ancorar em algo que a mantivesse no controle.
Assim que entramos, ela largou a bolsa no sofá e foi direto pro quarto. Eu segui atrás, fechei a porta devagar e a vi sentada na cama, olhando pro nada.
- Marina… -me aproximei, agachando na frente dela.- Fala comigo.
Ela respirou fundo e passou as mãos pelo rosto.
- E se alguém tiver gravado, Luan?
Fiquei em silêncio por um segundo, tentando entender.
- O quê?
- A cena… você dando um soco no Josh. Você sabe o que isso pode fazer com a sua carreira? Você tá em alta, Luan… não pode se envolver em confusão assim. E se vazarem? E se distorcerem tudo?
Peguei as mãos dela nas minhas.
- Eu não tô nem aí, Marina. Eu faria tudo de novo. Você acha que eu ia ver um idiota tentar te forçar e ia deixar barato?
- Eu sei, mas...
Ela mordeu o lábio inferior, claramente inquieta. Baixou os olhos.
- Eu tô pensando em sair da Columbia.
Eu travei. Um silêncio pesado se instalou.
- O quê? -soltei, descrente.- Você tá doida?
Ela me olhou com os olhos marejados, mas a voz firme.
- Esses dois, o Josh e o Zack, chegaram causando. O Zack tá completamente em cima da Bruna. E o Josh... eu só tava sendo educada, só isso! E ele tentou me beijar à força, Luan. Eu me sinto invadida, me sinto exposta. E agora, com a possibilidade de alguém ter filmado, eu… eu não sei. Só queria fugir disso tudo.
Me sentei ao lado dela na cama e a puxei pro meu peito.
- Não faz isso com você, amor. Você tem um futuro incrível pela frente. A Columbia é sua ponte. Você sempre sonhou com isso, lembra? Ser atriz, brilhar, conquistar o mundo… não deixa esses dois babacas te desestabilizarem.
Ela afundou o rosto no meu ombro, e eu senti sua respiração pesada, seus dedos agarrando minha camisa.
- Mas eu me sinto tão vulnerável… tão frágil.
- Então deixa eu ser tua força.
Segurei o rosto dela com cuidado e olhei nos olhos dela.
- A gente vai passar por isso junto. Você não tá sozinha. Eu tô aqui. E eu não deixo ninguém te tocar, nem te fazer mal. Mas sair da faculdade não é a solução. É isso que eles querem. Que você desista.
Ela fechou os olhos por um momento e assentiu devagar.
- Eu prometo que vou pensar com calma.
- Só não tome nenhuma decisão no calor do momento. E se esse vídeo aparecer, a gente lida junto. Eu tenho equipe, tenho advogado, e tenho você. Isso é o que importa.
Marina me beijou com ternura, os lábios ainda trêmulos de tudo que sentia. E naquele instante, eu soube que faria o que fosse preciso pra proteger ela — de Josh, Zack, Victor ou quem mais aparecesse.
[...]
Estava calor naquele fim de tarde, e o sol tingia o céu de dourado pelas janelas do meu apartamento. Era meu penúltimo dia de folga antes de voltar pra estrada, e eu sabia que precisava aproveitar ao máximo. Foi por isso que decidi fazer uma social aqui em casa. Só com os de casa mesmo. Os que importam.
Preparei o espaço com carinho — deixei algumas comidinhas na bancada da cozinha, música rolando num volume gostoso, bebidas no balde de gelo, luzes baixas acesas na varanda. Marina me ajudou com tudo, rindo do meu jeito metódico de arrumar as almofadas do sofá.
Logo, a galera foi chegando. Ryan e Anthony chegaram juntos, animados como sempre, com algumas cervejas. Bruna, Virgínia e Olívia apareceram minutos depois, trazendo uns salgadinhos e uma garrafa de vinho.
Todo mundo estava espalhado pela sala e pela varanda, falando alto, rindo, brindando. O clima era perfeito.
A certa altura, quando já estávamos todos com os copos cheios, puxei Ryan e Anthony pro lado e falei com o coração:
- Queria agradecer vocês. De verdade. Por aquele dia no campus. Ver que vocês estavam lá foi um alívio. Saber que a Marina não tava sozinha.
Anthony me olhou com aquele jeito mais sério dele e respondeu:
- Luan, na ilha, a gente prometeu pra você e pro Justin que cuidaria da Marina e da Bruna. E a gente tá só cumprindo. Eu sempre fico de olho, mesmo de longe. Quando vi a confusão, não pensei duas vezes.
- Eu também, mano. -Ryan completou, com um sorriso mais leve.- A gente pode não estar em todo lugar, mas quando precisa, tamo junto. Sempre.
Eu sorri, com um nó na garganta. Esses caras… são família.
- Vocês são foda. Obrigado.
- Não precisa agradecer. -Anthony deu um gole na cerveja.- Mas se quiser nos pagar com um churrasco brasileiro, a gente aceita.
Todo mundo riu.
O papo continuava animado, Marina estava sentada ao meu lado, com as pernas sobre as minhas, e Bruna tagarelava com Virgínia e Olívia. Foi então que o interfone tocou.
Levantei rapidamente e fui atender.
- Oi?
- Senhor Santana, o senhor Bieber está aqui. - voz do porteiro ecoou pelo aparelho, me fazendo sorrir de orelha a orelha.
- Pode mandar subir.
Desliguei, mas não falei nada. Voltei pra sala com a cara mais tranquila do mundo, me sentei no sofá e peguei minha cerveja.
O pessoal conversava animado, e então ouvi a voz da Bruna comentar alto:
- Ai, só faltava o Justin aqui agora…
Foi nesse momento que bateram na porta.
Levantei com calma, segurando o riso, e fui até lá.
Abri a porta e disse alto:
- Não seja por isso…
Todos se viraram, e ali estava ele. Justin Bieber, com camiseta branca, bermuda jeans clara, boné virado pra trás e aquele sorriso de menino travesso. O ar de verão e a energia da surpresa pareciam envolver ele inteiro.
Bruna ficou paralisada por dois segundos e então levantou num pulo, deixando o copo de lado e correndo pros braços dele.
- JUSTIN! -ela gritou, rindo e chorando ao mesmo tempo.
Justin a segurou com força, rodando ela no ar, o rosto escondido no pescoço dela.
- Ai, meu Deus, eu não acredito! -ela dizia, abraçando ele com força.
- Surpresa, baby… -ele murmurou, e o mundo parecia ter desaparecido ao redor deles.
A galera começou a aplaudir e gritar “ooown”, “olha esses dois!” enquanto eu fechava a porta com um sorriso satisfeito.
Justin se soltou um pouco do abraço e encostou a testa na da Bruna.
- Eu não ia perder a chance de ver você antes de voltar pra estrada.
Bruna deu um beijo nele ali mesmo, esquecendo de tudo ao redor.
O clima estava leve, quente, envolvido por aquele brilho do verão. As risadas voltaram, os brindes também. O som aumentou um pouco, a varanda se encheu de conversas e flashes de celular, e a noite prometia ser longa.
Eu tava sentado no sofá com Marina escorada no meu peito, meus braços em volta dela, enquanto o Justin, já devidamente recebido como rei pela Bruna, se juntava ao nosso círculo no chão da sala.
- Tá, mas agora vocês vão me contar direitinho. -Justin disse, rindo e olhando pra mim.- Que história é essa da briga com o tal do Josh? Mano, ouvi dizer que você deu um socão nele mesmo?
Eu dei uma risada abafada, coçando a nuca.
- Ah, não foi nada demais… só um ajuste de rota nele, digamos assim.
Justin riu alto e levantou a garrafa, como se brindasse.
- Parabéns, irmão. Eu vi o vídeo, você mandou bem!
A sala caiu num breve silêncio. Eu travei.
- Que… vídeo? -Marina perguntou antes de mim, saindo um pouco do meu abraço e me olhando de lado.
Senti meu estômago virar. Meus olhos encontraram os dela, e o olhar preocupado que Marina me lançou fez meu coração bater acelerado.
- Como assim vídeo? -insisti.
Justin segurou a risada por uns segundos, aproveitando o suspense, até que explodiu:
- Tô zoando, gente! A Bruna que me contou. Não tem vídeo nenhum!
- JUSTIN! -Marina exclamou, aliviada, mas indignada, pegando a almofada do sofá e tacando na cara dele.
Acertou em cheio.
- Ai! -ele riu, desviando em seguida.
Todo mundo riu, até eu soltei o ar preso e relaxei de novo no sofá, puxando Marina pra perto de mim mais uma vez.
O papo seguiu solto e a bebida continuou descendo. A cerveja já tava virando vinho, que já tava virando caipirinha, e a Bruna dizia que ia ensinar a Virgínia a fazer uma de maracujá depois.
- Gente, posso contar uma coisa? -Marina falou alto, empolgada, com o rosto já levemente rosado pelo álcool.- Quando eu fui pro Brasil com a turnê do Luan… eu passei uma VERGONHA!
- E quando não, né? -eu brinquei, beijando a bochecha dela. Ela me deu um tapinha no peito.
- Tô falando sério! -ela riu.- Eu tava no camarim, aí uma menina da equipe veio e falou assim: "Mari, ela tem cara que faz job, né?" Aí eu toda empolgada disse: "Total, quem não né?"
A galera já começou a rir antes mesmo dela continuar.
- E eu lá, achando que ‘job’ era tipo… trabalho normal, né? Só que depois uma das backing vocal veio me explicar que 'job', no contexto que usaram, era tipo se prostituir! EU QUASE MORRI!
Todo mundo explodiu em gargalhadas.
- Ah não… -Ryan disse, quase cuspindo a cerveja.
- Mano, coitada! -Anthony ria.- A moça deve ter achado que o Luan te achou num bordel.
- Ei! -ela mostrou o dedo pra ele, mas tava rindo também.- Pelo menos agora eu tô tendo aula de português, ok? Só que é difícil demais! Vocês têm gíria pra tudo!
- Mas você tá indo bem. -falei, orgulhoso.- Tá até discutindo em português quando briga comigo.
- Eu aprendi direitinho isso aí. -ela riu.- Agora, o que eu mais amei MESMO foi o funk!
- Ai, meu Deus… -Bruna colocou a mão na testa.
- Gente, vocês não têm noção! -Marina levantou um pouco, já animada demais.- Eu aprendi a dançar uns funks BRABOS! E aquelas coreografias do TikTok brasileiro? Eu sou viciada!
- Vai, mostra! -Olívia gritou.
- Nem morta! -Marina respondeu, rindo e se jogando de novo no meu colo.
- Ué, toda hora tá dançando pra mim aqui em casa. -provoquei, puxando ela de novo pela cintura.
- Shhh, Luan! -ela me deu mais um tapinha.- Mas é sério, eu amei a cultura, as comidas, o jeito do povo. Me senti muito acolhida. Só preciso aprender a não cair em cilada de gíria, né?
- Ou arrumar uma tradutora pessoal. -Bruna falou, piscando.- Tipo eu.
- Tá mais pra guarda-costas, do jeito que você pulou no Justin hoje. -Ryan brincou e ela mostrou-lhe o dedo.
[...]
A porta bateu pela última vez. Anthony saiu meio tropeçando, com Ryan rindo e segurando ele pelo ombro. Justin e Bruna foram os primeiros a ir embora, mas nem antes de ela quase dormir no colo dele. Virgínia e Olívia também saíram rindo, dizendo que iam pedir hambúrguer no caminho porque a fome bateu.
Ficamos só nós dois.
Marina se jogou no sofá, com a cabeça pendendo pra trás e um sorriso preguiçoso no rosto.
- Eu acho que bebi demais. -ela murmurou, com a voz arrastada.
Me aproximei, sentando ao lado dela, puxando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.
- Você definitivamente bebeu demais. Mas tava linda a noite toda.
Ela virou o rosto devagar pra mim, com aquele olhar que me desmontava.
- Foi uma noite perfeita, Lu. Todo mundo feliz, leve… obrigada por isso.
- Eu que agradeço por ter você aqui comigo. -falei, sério agora.- Cada segundo ao seu lado vale ouro.
Ela sorriu e se aproximou, passando os braços pelo meu pescoço e sentando no meu colo, de frente pra mim.
- Amanhã é seu último dia aqui, né?
Assenti, e por um segundo o silêncio caiu entre nós. Um silêncio cheio de saudade antecipada.
- Mas ainda temos essa noite. -sussurrei, encostando minha testa na dela.
Os lábios dela encontraram os meus num beijo lento, gostoso, com gosto de cerveja e desejo acumulado. Meus dedos deslizaram pela cintura dela, subindo devagar por dentro da blusa que ela usava. Ela arqueou levemente as costas, colando mais o corpo no meu.
- Sabe o que eu mais gosto? -ela murmurou contra minha boca.
- Hm?
- Que mesmo com o tempo passando, você ainda consegue me fazer sentir borboletas.
- Isso porque você ainda não viu o que eu preparei pro meu último dia… -provoquei, mordiscando o lábio inferior dela.
Ela riu baixinho, com os olhos fechados, e voltou a me beijar com mais intensidade. As mãos dela passeavam pelo meu peito, enquanto as minhas já deslizavam pelas curvas dela como se fosse o caminho mais natural do mundo.
Deixei o corpo dela tombar devagar no sofá, com os cabelos se espalhando pelas almofadas. Beijei o pescoço dela, senti o cheiro do perfume misturado com a pele quente, ouvi os suspiros baixos que ela soltava. Aquele apartamento que eu comprei como refúgio… finalmente era um lar. Porque ela estava ali.
Nos perdemos um no outro ali mesmo, no meio do caos pós-festa, com as garrafas vazias pela casa e os copos esquecidos sobre a bancada. Mas naquele momento, só existia nós dois.
E foi exatamente assim que eu queria me lembrar dessa viagem: com Marina em meus braços, rindo, dançando, e depois se entregando completamente a mim, como se o mundo inteiro fosse só nosso.
Acordei com a luz suave entrando pelas janelas enormes do apartamento. O tapete da sala tava uma bagunça, notei que tinha algumas taças caídas de lado na mesinha de centro.
Virei o rosto devagar e sorri ao ver Marina dormindo ali, bem do meu lado, toda encolhidinha. Usava minha camiseta e tinha uma almofada encaixada debaixo da cabeça como travesseiro improvisado. O cabelo bagunçado, o rosto tranquilo... ela tava tão linda que meu coração apertou.
Me levantei com cuidado, tentando não acordá-la, e comecei a juntar a bagunça da noite. Copos na pia, garrafas vazias pro lixo, e coloquei uma música baixinha pra tocar no celular enquanto ia organizando tudo. Não sei explicar, mas queria que esse último dia nosso fosse calmo, especial, íntimo.
Fui pra cozinha e comecei a preparar o café da manhã. Peguei os ovos, fritei o bacon como ela gosta — crocante nas pontas —, coloquei as torradas na torradeira e preparei suco de uva natural. O cheiro tomou conta do apartamento.
- Hm... bacon? -ouvi uma voz manhosa e sonolenta atrás de mim.
Me virei e ela estava lá, ainda sentada no chão, esfregando os olhos e com a almofada no colo. Os olhos estavam levemente vermelhos, e antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela soltou um sorrisinho e já ficou com o olhar mais emotivo.
- Já acorda chorando? -falei, me aproximando com um pano de prato no ombro, rindo de leve.
- Eu não quero que você vá embora, Luan... -a voz dela saiu baixinha e embargada.- Esses dias com você aqui foram os melhores da minha vida. A gente cozinhou, riu, dançou, brigou pelo controle da TV... foi tão real. Foi tão... nosso.
Ajoelhei ao lado dela no tapete, segurando seu rosto com as duas mãos.
- E foi tudo perfeito porque foi com você, Marina.
Ela segurou minhas mãos e me olhou com uma intensidade que me desmontou inteiro.
- Casa comigo, Luan. Vamos viver assim sempre. Eu sei que somos novos e a vida é uma loucura, mas eu te amo. E esses 15 dias foram diferentes da turnê... porque agora foi só nós dois, sem plateia, sem fãs, sem correria. Só... amor.
Fiquei em silêncio por um segundo, porque meu coração tava disparado. Ela tava séria. Sincera. E eu me senti o cara mais sortudo do mundo por ouvir aquilo.
- Eu caso com você agora se quiser. A gente pode casar aqui mesmo, nesse tapete, com suco de uva como brinde. -falei sorrindo, tentando conter a emoção.- Mas quero te dar o mundo, Marina. A gente vai viver isso sim. A nossa vida.
Ela sorriu entre as lágrimas, e me abraçou forte, escondendo o rosto no meu pescoço. Ficamos assim um tempo, só sentindo o outro.
- Agora levanta, mulher. Vai escovar os dentes que seu bacon tá ficando pronto. -brinquei, e ela me empurrou rindo.
Nos sentamos depois pra tomar café da manhã, no chão mesmo, com a bandeja no tapete, e ela comendo devagar, olhando pra mim como se estivesse decorando cada detalhe. E eu tava fazendo o mesmo.
Porque era nosso último dia juntos por um tempo… mas a certeza que ficou era de que aquilo não era o fim. Era só o começo do resto da nossa história.
O motor do carro ronronava suave enquanto dirigia pelas ruas de Nova York. O sol ainda nem tinha subido direito, e a cidade começava a acordar, mas o silêncio dentro do carro era denso… carregado. Marina estava ao meu lado, com o rosto virado pra janela, os olhos fixos em qualquer ponto lá fora, como se isso fosse impedir as lágrimas de virem.
Eu mantinha uma mão no volante e a outra sobre a perna dela, fazendo carinho com o polegar, sentindo cada segundo escapar entre nossos dedos.
- Ei. -quebrei o silêncio com a voz baixa, tentando parecer leve.- Você pode usar o carro quando quiser, tá?
Ela virou o rosto devagar, me olhando.
- Sério. A chave do carro e do apartamento vai ficar com você. Se quiser sair do caos daquele campus, fugir um pouco da rotina… o apartamento é seu também. Vai lá, respira. Leva as meninas, faz uma noite só de vocês, sem regras, sem horário pra voltar, sem Melanie no pé.
Ela tentou sorrir, mas os olhos já estavam marejados. Mesmo assim, assentiu.
- Obrigada, amor… de verdade. Eu amei cada segundo aqui.
Eu queria dizer que também amei. Que meu peito doía com essa despedida. Que mesmo sabendo que era temporária, parecia que eu estava deixando metade de mim pra trás. Mas eu só apertei mais forte a perna dela, porque se eu falasse… eu chorava. E eu precisava ser forte, por ela.
Chegamos no hangar privado. O jatinho já me esperava, com um dos assistentes tirando as últimas coisas do porta-malas. Desliguei o carro devagar e respirei fundo.
Desci e fui até o lado dela, abrindo a porta. Marina saiu sem dizer nada, mas quando nossos olhos se encontraram... desabou. Ela me abraçou com tanta força que até perdi o fôlego por um segundo.
- Eu não quero que você vá. -ela disse contra meu peito, soluçando.- Eu odeio despedidas. Eu odeio isso. Eu te amo tanto, Luan…
Fechei os olhos e envolvi ela com os dois braços, segurando firme. Engoli em seco, sentindo aquele nó preso na garganta. A vontade de largar tudo e ficar.
- Eu também te amo. E já tô com saudade antes mesmo de partir. Mas vai ser rápido, prometo. Só alguns shows, algumas entrevistas... e eu tô de volta.
- Não é a mesma coisa. -ela murmurou, limpando o rosto, mas as lágrimas ainda vinham.
Segurei seu rosto entre minhas mãos e encostei minha testa na dela.
- Você é minha casa, Marina. Não importa onde eu esteja, é em você que eu penso. E eu vou voltar... correndo.
Ela riu entre o choro e me beijou. Um beijo demorado, intenso, desesperado. Um beijo que dizia tudo o que as palavras não conseguiam mais.
Abracei ela mais uma vez, longo e apertado, e fui me afastando devagar.
- Te amo, Luan.
- Eu também, meu amor. Cuida de você por mim, e cuida do nosso lar aqui.
Dei mais um sorriso antes de virar de costas e caminhar até o jatinho. Não olhei pra trás. Se eu olhasse, eu voltava.
Mas no fundo, sabia… meu coração já tava lá com ela.