Bruna Narrando
A batida alta da música vibrava pelo dormitório dos meninos enquanto eu dançava animada com Virgínia e Olívia. Entre um gole e outro de cerveja, ríamos e nos divertíamos, deixando a noite seguir leve, como deveria ser.
- Essa festa tá ótima! -Virgínia disse, girando no ritmo da música.
- Eu nem ia vir, mas agora tô amando. -Olívia comentou, sorrindo.
- É o efeito do álcool -brinquei, levantando minha garrafa em um brinde improvisado antes de dar mais um gole.
A festa estava cheia, tanto dentro quanto fora do dormitório. A risada dos convidados se misturava ao som alto, criando aquela atmosfera de festa universitária. No meio da minha diversão, senti um cutucão no ombro.
Me virei e dei de cara com Justin. Ele já estava usando o boné que eu tinha dado de presente pra ele mais cedo, o que me fez sorrir por um segundo. Mas a expressão dele era séria, diferente do clima da festa.
- O que foi? -perguntei, franzindo a testa.
- Acho que a Marina precisa de ajuda. -ele disse direto ao ponto.
Eu pisquei, confusa, e segui o olhar dele. Olívia e Virgínia fizeram o mesmo.
Foi então que eu vi.
Marina estava um pouco afastada do centro da festa, e ao redor dela, Victor e Luan pareciam estar encurralando-a. O corpo dela estava tenso, e pela primeira vez, minha amiga parecia sem reação.
Isso não era normal.
Marina nunca ficava sem palavras, nunca ficava acuada. Ela sempre sabia o que dizer, como reagir, mas ali… alguma coisa estava errada.
- Que merda tá acontecendo ali? -Olívia perguntou, estreitando os olhos.
- Boa pergunta. -Virgínia murmurou, preocupada.
Eu não pensei duas vezes antes de deixar minha cerveja de lado e começar a andar na direção deles.
Se esses dois tavam tentando pressionar a Marina de alguma forma, eles iam ter que lidar comigo.
Caminhei determinada em direção a Marina, sentindo a adrenalina subir. Virgínia e Olívia vieram logo atrás, e Justin me acompanhou, mantendo um olhar atento na situação.
Quando me aproximei, consegui ouvir melhor a conversa.
- Então, Marina? -Victor dizia, os braços cruzados, o olhar desafiador.- Vai ser o Luan ou vai ser eu?
Marina olhava de um para o outro, claramente abalada. Sua expressão era um misto de surpresa, nervosismo e… raiva?
Luan, por outro lado, estava com a mandíbula travada, os punhos cerrados ao lado do corpo, pronto para brigar se fosse necessário.
- Que porra é essa aqui? -perguntei, me colocando ao lado da minha amiga, encarando os dois como se estivesse prestes a arrancar a cabeça deles.
Victor levantou as mãos, como se quisesse mostrar que não tinha feito nada de errado.
- Relaxa, Bruna. Só tô pedindo pra Marina escolher. -ele disse com um sorriso convencido que me deu vontade de socá-lo.
- Escolher? -soltei uma risada irônica.- Desde quando a vida dela virou um reality show onde ela tem que escolher com quem vai ficar?
- Isso aqui não tem nada a ver com você, Bruna. -Luan resmungou, sem tirar os olhos de Marina.
- A partir do momento que você e esse babaca tão pressionando minha melhor amiga no meio de uma festa, tem tudo a ver comigo. -rebati, apontando para os dois.
Marina piscou algumas vezes, como se estivesse voltando ao presente. Respirou fundo e cruzou os braços, a postura mudando de hesitante para firme.
- Primeiro, Victor, você não tem direito nenhum de me colocar nessa posição ridícula. -ela disse, olhando direto nos olhos dele.- Segundo, Luan… se você realmente me quer, não é assim que vai conseguir.
Victor abriu a boca para responder, mas Marina ergueu a mão, interrompendo-o.
- Cansei dessa merda. Nenhum de vocês manda na minha vida. Eu decido o que fazer, com quem ficar, na hora que eu quiser.
Ela olhou para mim e para as meninas, e eu vi que seu brilho estava voltando. A Marina que eu conhecia estava ali de novo.
- Vamos beber? -ela perguntou com um sorrisinho, ignorando completamente os dois caras na nossa frente.
- Com certeza. -respondi, passando o braço pelo dela e a puxando para longe daquele drama desnecessário.
Justin nos seguiu, ainda de olho nos dois idiotas que tinham ficado para trás.
- Você acabou de quebrar o ego de dois babacas de uma só vez. -Olívia disse, rindo.- Isso foi lindo.
- E eu nem precisei levantar a mão pra dar um tapa. -Marina brincou, pegando um copo de bebida.- Mas se precisasse, eu teria feito.
Luan e Victor ficaram lá, enquanto nós seguíamos para onde estavam as bebidas, prontas para continuar a noite.
Se eles queriam competir por Marina, eles que se resolvessem. Ela não era um prêmio.
[...]
Enquanto caminhávamos para o nosso dormitório, Marina tirava os sapatos no meio do caminho, bufando de dor.
- Eu vou te matar, Bruna. -ela resmungou, massageando os pés.- Pra quê que você me fez vir buscar esse bolo? Podia ter vindo sozinha!
Soltei uma risada.
- E perder a chance de te torturar um pouco? Jamais.
Ela revirou os olhos, mas sorriu de canto.
- Relaxa, amiga. A gente canta o parabéns, come o bolo e vai embora. Lembra que amanhã cedo temos que viajar. -lembrei.
Marina suspirou pesadamente.
- Ai, nem me fala… não vejo a hora de sair desse caos por uns dias.
Estranhei o tom dela.
- Que foi? -perguntei, desconfiada.- É sobre os meninos?
Ela hesitou por um segundo, mas depois deu de ombros.
- Um pouco.
- Você sabe que vai ter que me contar tudo, né?
Ela bufou, mas cedeu.
- Tá bom… eu tô apaixonada pelo Luan.
Parei no meio do caminho.
- O QUÊ?!
- Fala mais alto, Bruna, acho que o pessoal lá da festa não ouviu. -Marina debochou, mas estava corada.
- Você tá brincando?
- Não. -ela suspirou.- Eu ia beijá-lo, ia ficar com ele de vez… mas aí o Victor apareceu e me colocou contra a parede, e isso me fez repensar tudo.
Franzi a testa.
- Repensar como?
- Sei lá, sabe? Eu tava ali, decidida, pronta pra finalmente dar uma chance pra Luan… e, do nada, Victor aparece e me força a escolher. Isso me deixou puta.
- Com razão. -concordei.
Ela riu de leve.
- Antes era mais fácil quando eu tinha os dois, né?
Soltei uma risada alta.
- Marina, pelo amor de Deus!
- Tô brincando! -ela ergueu as mãos em rendição, mas ainda ria.- Quer dizer… um pouquinho só.
Balancei a cabeça, rindo junto.
- Você é impossível.
Entramos no dormitório para pegar o bolo, e enquanto eu organizava as velas, Marina se jogou na cadeira.
- Mas agora falando sério… o que eu faço, Bruna?
Puxei outra cadeira, me sentei ao lado dela e segurei sua mão.
- Amiga, você tem que seguir seu coração. Mas, seja qual for a sua escolha, faça por você. Não porque alguém te pressionou.
Ela sorriu de leve.
- Obrigada, Bruna.
- De nada. Agora levanta essa bunda daí, porque temos um aniversário pra terminar.
Ela bufou, mas se levantou. Pegamos o bolo e voltamos para a festa, prontos para cantar o parabéns e esquecer, pelo menos por uma noite, todo aquele drama.
Quando nos aproximamos do dormitório, fizemos sinal de silêncio para o pessoal que estava do lado de fora. Alguns já tinham bebido bastante e riam entre si, mas logo entenderam o que estávamos prestes a fazer e assentiram. Marina puxou o celular e olhou as horas.
- 23:59. -ela falou para mim, um sorriso malicioso no rosto.
- Perfeito. -murmurei de volta.
Virei para ela e dei um leve empurrão com o ombro.
- Vai lá, usa seu dom de atuação e chama a atenção do Justin.
Marina sorriu de lado.
- Deixa comigo.
Respirei fundo e entrei primeiro, me misturando com as pessoas. Fiquei escondida atrás de um grupo que conversava perto da porta, tentando parecer distraída enquanto procurava um isqueiro para acender as velas do bolo.
Foi então que ouvi Marina gritar.
- JUSTIN! -a voz dela saiu desesperada, trêmula, como se tivesse acabado de receber a pior notícia da vida.
O som parou instantaneamente. Todos os olhares se voltaram para ela. O coração de Justin parecia ter saltado do peito quando ele deu um passo à frente, os olhos arregalados de preocupação.
- Marina?! O que foi?! O que aconteceu?!
Ela arfou, apertando a própria roupa como se estivesse tentando controlar a respiração.
- Eu… eu não sei como te contar isso… -a voz dela falhou, e ela piscou rápido, como se segurasse as lágrimas.
Justin colocou as mãos nos ombros dela.
- Calma, respira. Me diz com calma.
Marina fechou os olhos por um segundo, como se estivesse reunindo coragem, e soltou um suspiro trêmulo.
- Eu preciso de ajuda pra te contar…
Justin franziu a testa.
- Ajuda de quem?
Era o meu sinal.
Marina virou-se na minha direção.
- Bruna!
Saí de trás do grupo, segurando o bolo cuidadosamente, com as velas já acesas. Assim que todos me viram, Marina puxou palmas e começou a cantar.
- Happy Birthday to you…
O semblante de Justin foi de puro pânico para surpresa em instantes. Ele ficou ali, piscando, tentando entender o que estava acontecendo, até que a ficha caiu e ele começou a rir, aliviado.
- Vocês são inacreditáveis! -ele disse, segurando o peito.
As pessoas ao redor começaram a cantar junto, rindo da pegadinha. Fui até Justin com o bolo, e Marina cutucou sua bochecha, rindo.
- Espero que não tenha infartado, irmãozinho.
- Eu quase infartei sim, sua doida! -ele resmungou, mas ainda ria.
Encostei o bolo na mesa e abracei Justin de lado.
- Feliz aniversário, Bieber.
- Obrigado, Bruninha. E nunca mais façam isso comigo!
Marina revirou os olhos, divertida.
- Ah, cala a boca e faz um pedido.
Ele suspirou, balançando a cabeça, mas obedeceu. Fechou os olhos por um instante, murmurou algo para si mesmo e assoprou as velas. O dormitório explodiu em aplausos e gritos de parabéns.
[...]
O sol nem tinha nascido direito quando Marina e eu saímos do dormitório dos meninos, praticamente arrastando nossos corpos cansados e rindo baixo. Havíamos prometido que iríamos embora logo depois do parabéns do Justin, mas a verdade é que a festa estava boa demais. O tempo foi passando, os copos de bebida se multiplicaram, e antes que percebêssemos, já estava quase amanhecendo, e olha que fomos embora com a festa ainda rolando.
Eu troquei uns beijinhos com Justin no meio da festa, nada sério, só aquela coisa descontraída de quem já bebeu um pouco e está no clima de comemoração. Mas mesmo assim, aquilo deixou Marina ainda mais provocativa comigo.
- Seu irmão beija bem, viu? -soltei no meio do caminho de volta ao nosso dormitório, piscando para ela.
Marina bufou.
- Aff, Bruna! Eu não quero saber disso! -ela fez uma careta, mas depois riu.
- Relaxa, foi só um beijinho, talvez dois ou mais. -rimos.- E você? Não ficou com ninguém?
Ela suspirou.
- Até parece que eu tava com cabeça pra isso depois de tudo que aconteceu.
- Verdade… -murmurei, lembrando do drama da noite passada entre ela, Luan e Victor.- Mas, olha, agora a gente vai pro Rio! Vamos esquecer os boys e curtir o Carnaval!
- Isso mesmo! -ela ergueu a mão e batemos um high five no ar.
Assim que chegamos no nosso dormitório, Marina foi pro banho primeiro, enquanto eu conferia se tava tudo dentro da minha mala e não estava esquecendo nada, principalmente protetor solar, repelente e biquínis.
Logo que Marina saiu, eu entrei no chuveiro praticamente dormindo em pé, deixando a água gelada me despertar minimamente, não deixando escapar um gemido exagerado quando a água fria bateu na minha pele.
- Meu Deus, que gelada! -murmurei.
Terminei o banho rápido, enrolei uma toalha no corpo e saí para pegar minha mala. Marina já estava vestida, prendendo o cabelo num coque bagunçado. Pegamos nossas malas às pressas e saímos com os óculos de sol no rosto, como duas divas tentando esconder o cansaço da madrugada sem dormir.
Enquanto chamávamos um carro para o aeroporto, Marina encostou a cabeça no meu ombro e murmurou:
- Eu só espero conseguir dormir um pouco no avião.
- Esquece, a gente tem que entrar no clima do Carnaval já no voo!
Ela levantou a cabeça, me olhando incrédula.
- Bruna, eu te amo, mas se você me acordar no avião, eu juro que te jogo pela janela.
Caí na risada, e o carro chegou.
Estávamos exaustas, mas nada disso importava. O que importava era que estávamos indo para o Rio de Janeiro, prontos para aproveitar o Carnaval. E quem sabe o que mais nos esperava por lá?
[...]
Após longas 10 horas de voo, finalmente aterrissamos no Rio de Janeiro. O cansaço pesava nos nossos corpos, mas a empolgação de estar ali fazia tudo valer a pena. Assim que estávamos sobrevoando o Rio, Marina colou o rosto na janela, os olhos brilhando ao avistar o Cristo Redentor ao longe, mesmo de noite.
- Caramba… -ela murmurou, encantada.- É ainda mais bonito do que eu imaginava.
Sorri, me esticando um pouco para olhar também.
- E olha que nem está de dia. Espera só pra ver as praias, o Pão de Açúcar, os bloquinhos…
Ela se virou para mim, animada.
- Eu quero fazer tudo! Quero ir à praia, quero ver os desfiles, quero ir aos blocos, quero… dormir. -ela soltou uma risada.- Mas só um pouquinho.
- Dormir é perda de tempo, garota! A gente veio pro Carnaval!
O avião pousou suavemente, e assim que as portas se abriram, fomos recebidas pelo calor carioca. O ar quente bateu no nosso rosto assim que saímos do aeroporto, um choque depois das horas dentro do avião.
Pegamos nossas malas e logo encontramos nosso transporte para o hotel. No caminho, Marina ainda olhava fascinada pela janela, absorvendo cada detalhe da cidade.
- Já pensou se a gente dá de cara com algum famoso? -comentei, animada.
- Eu só quero dar de cara com uma cerveja bem gelada agora. -Marina respondeu, arrancando risadas de mim.
O Rio de Janeiro nos esperava, e estávamos prontas para aproveitar cada segundo.
Chegamos ao hotel já de noite, cansadas da viagem, mas empolgadas por finalmente estarmos no Rio de Janeiro. O saguão era chique, com um perfume leve no ar e uma recepção impecável. Fizemos nosso check-in rapidamente e pegamos o cartão do quarto, ansiosas para tomar um banho e descansar um pouco antes de curtir a cidade.
O elevador nos levou até o andar certo, e assim que abrimos a porta do nosso quarto, fomos recebidas por uma cena inesperada.
Bem no centro do cômodo, havia uma enorme cama de casal, impecavelmente arrumada, e no meio dela, duas toalhas de banho dobradas em formato de cisne, formando um coração. Pétalas de rosa estavam espalhadas ao redor, dando um toque ainda mais romântico.
Ficamos em silêncio por um segundo, absorvendo a situação, e então caímos na gargalhada.
- Bom, eu sabia que a gente ia dividir o quarto… -Marina começou, secando uma lágrima de tanto rir.- Mas dividir a cama? Com direito a clima de lua de mel? Isso é novo!
Joguei minha mala num canto e me joguei na cama, ainda rindo.
- Meu Deus, será que eles acharam que era uma reserva de casal? A gente devia ter checado isso!
Marina revirou os olhos, mas ainda com um sorriso divertido nos lábios.
- Olha, Bruna, eu gosto muito de você, mas você definitivamente não é o Santana por quem eu sou apaixonada.
Fingi um drama exagerado, levando a mão ao peito.
- Nossa, que dor! Como você pode me rejeitar assim? Eu achei que essa viagem fosse o começo da nossa história de amor!
Ela pegou uma das almofadas e me jogou na cara, rindo.
- Cala a boca e me ajuda a tirar esses cisnes daqui antes que eu perca completamente o respeito por esse hotel!
Ainda rindo, jogamos as toalhas de lado e nos jogamos na cama, exaustas. Mesmo com a confusão da reserva, a viagem já estava começando com o pé direito.
Naquela noite, dormimos feito pedras. O cansaço da viagem nos pegou de jeito, e o colchão macio da cama (mesmo que compartilhado) foi um alívio bem-vindo. Mas no dia seguinte, acordamos cedo e já estávamos animadas para explorar o Rio de Janeiro.
Nos arrumamos rapidamente, colocamos nossos biquínis e saídas de praia, pegamos protetor solar e fomos direto para Copacabana. O calor do Rio era diferente, um abafado gostoso misturado com a brisa do mar. Assim que pisamos na areia fofa e quente, Marina parou, boquiaberta, olhando ao redor.
- Meu Deus, isso aqui é surreal! Parece cena de filme! -ela disse, tirando os óculos de sol para olhar melhor.
- É bem famoso mesmo, principalmente em novelas. -respondi, sorrindo.- Mas também tem seus riscos. O Rio é maravilhoso, mas tem muito assalto, então fica esperta, tá? Não fica com o celular na mão, nem dando bobeira.
Ela me olhou de canto, cruzando os braços.
- Tá me chamando de turista desavisada?
- Sim. -respondi, rindo.- Porque você é.
Ela revirou os olhos, mas riu também.
A praia estava lotada, gente jogando frescobol, crianças correndo pela areia, vendedores passando com todo tipo de coisa. Um deles se aproximou de nós, carregando uma caixa de isopor enorme e gritando:
- Olha o milhooo! Quentinho, temperado, é só pedir!
Na hora, meu estômago roncou.
- Ai, vou querer um. -falei, já pegando dinheiro.
Marina franziu o cenho.
- Milho? Tipo, milho normal?
- Sim, mas cozido e com manteiga. Você nunca comeu?
- Bruna, eu sou americana. Não como milho assim na praia!
- E daí que você é americana? Você precisa viver essa experiência!
Pedi um milho para mim e ofereci para ela, mas Marina fez careta.
- Não sei… Vou pensar. -ela começou a tirar a saída de praia.- Mas antes, vou dar um mergulho.
Ela puxou a peça de roupa pela cabeça, revelando seu biquíni, e jogou os cabelos ruivos para o lado.
- Volto já!
Antes que eu pudesse responder, ela já corria para o mar, deixando pegadas na areia. Ri comigo mesma enquanto mordia meu milho.
Fiquei sentada na minha toalha, mordiscando o milho e observando Marina se encantar com o mar do Rio. Ela mergulhava, deixava as ondas a levarem um pouco e depois voltava a se jogar na água, como uma criança descobrindo algo novo pela primeira vez. Seu sorriso era contagiante, e eu sabia que aquele momento ficaria marcado para ela.
Depois de um tempo, ela voltou, molhada e radiante, espremendo o cabelo para tirar o excesso de água. Pegou a toalha dela da bolsa e a estendeu ao meu lado, deitando-se com um suspiro satisfeito.
- Isso foi incrível! Acho que acabei de ser batizada no mar… como é que se fala mesmo? Rio de Janeirense?
Não me aguentei e caí na gargalhada.
- Marina, pelo amor de Deus! É carioca!
Ela arregalou os olhos.
- Jura? Ai, que vergonha! -ela cobriu o rosto com as mãos e começou a rir também.
- Você ainda tem muito que aprender sobre o Brasil, viu?
- Eu sei! Mas tô amando cada segundo.
Depois de muita conversa e risadas, Marina me convenceu a dar um mergulho com ela. Deixamos nossas coisas bem organizadas na toalha e corremos para o mar, nos jogando na água fresca que contrastava perfeitamente com o calor escaldante do Rio.
- Tá vendo? Isso sim é vida! -Marina disse, jogando água em mim.
- E eu tenho que concordar. -respondi, devolvendo o ataque.
Ficamos ali por um tempo, rindo e aproveitando, até que notei algo estranho. Olhei para a areia e vi um grupo de pessoas muito próximas demais das nossas coisas. Troquei um olhar com Marina, que logo percebeu também.
- Bruna… tem uns caras rondando nossas coisas? -ela disse, já nadando de volta.
- Eu tô vendo! Vai, nada! Nada como se a sua vida dependesse disso!
E nadamos. Nadamos como se tivéssemos em uma competição olímpica, Marina disparando na frente como se fosse a nova campeã americana da natação. Quando finalmente saímos da água e corremos até nossas toalhas, os suspeitos disfarçaram e saíram andando, mas nossos corações ainda estavam acelerados.
- Meu Deus, quase perdi minha bolsa! -Marina disse, segurando seu pertence como se fosse um bebê.
- Eu te avisei! O Rio é lindo, mas a gente tem que ficar esperta!
Depois do susto, ficamos ali um tempo no sol, se secando, logo pedimos para uma senhora simpática tirar uma foto nossa com o mar ao fundo. Marina fez questão de postar na hora com a legenda: “Sobrevivemos ao primeiro dia no Rio!”
A fome bateu, e decidimos almoçar no quiosque mais próximo.
- Agora, minha querida americana, eu vou te apresentar ao verdadeiro Brasil! -anunciei, pegando o cardápio.
Marina olhou desconfiada.
- Isso não inclui algo estranho tipo… um inseto frito, né?
- Meu Deus, Marina! Que tipo de amiga você acha que eu sou? -ri.- Você vai comer uma bela picanha com arroz, feijão tropeiro e farofa.
Ela franziu a testa.
- O que é isso?
- A coisa mais perfeita que já inventaram. Só confia.
Quando o prato chegou, seus olhos brilharam.
- Nossa, isso parece maravilhoso!
- Eu não te disse? Agora come e se apaixone.
Ela deu a primeira garfada e soltou um gemido de satisfação.
- Ok… Isso é oficial… Eu nunca mais volto pros Estados Unidos.
- Você diz isso agora… espera até provar o brigadeiro.
- Ai, para! Eu não vou sobreviver a essa viagem.
Caímos na gargalhada e seguimos aproveitando o nosso almoço, celebrando a nossa primeira grande aventura no Brasil.