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Capítulo 57

Marina Narrando

Estávamos todos sentados em volta de uma grande mesa rústica de madeira, à sombra de um quiosque com palha, cercados pelo som das ondas, risadas e algumas garrafas abertas de drinks tropicais. A brisa salgada do mar deixava tudo mais leve. Bruna e eu estávamos sentadas lado a lado, com os pés ainda com areia, e todos pareciam tão felizes de estarem juntos novamente.

- Ok, vocês primeiro. -disse Olívia, rindo enquanto dava um gole no seu drink azul.- Como foi essa vida de celebridade em turnê? -ela olhou pra mim e pro Luan com um sorriso provocador.

- Exaustiva. -falei rindo.- Mas incrível. Foram semanas intensas, muitos voos, hotéis, entrevistas, ensaios e pouco sono. Mas cada show do Luan valeu a pena.

Luan assentiu. 

- É, ver o público cantando junto, os olhares emocionados… isso dá força pra seguir, mesmo exausto. E... bom, teve uma noite que a Marina fez aniversário, e o Daniel levou a gente pra uma balada. -ele riu e me lançou um olhar cúmplice.

- Ah! -Bruna exclamou com os olhos brilhando.- Eu vi aquele vídeo deladançando funk na balada! Eu ri tanto!

Todos riram.

- E vocês? -perguntei olhando pra Virgínia, Anthony, Ryan e Olívia.- Onde estavam mesmo?

- Folly Beach! -Ryan disse animado.- Alugamos uma casa de frente pro mar, e, sério, foi insano.

- Teve um dia que quase fui levada pela maré! -Virgínia gritou, rindo.

- Quase nada. -Anthony revirou os olhos.- Você que resolveu mergulhar às 3 da manhã dizendo que "sentia uma conexão com o oceano".

- Meu Deus. -Luan gargalhou- Vocês são um perigo juntos!

- Mas foi legal. -Olívia sorriu.- Pegamos sol, fizemos fogueira na areia, jogamos vôlei, comemos muito camarão…

- E vocês dois? -perguntei, olhando para Bruna e Justin.

Ela apoiou o queixo no ombro dele, e ele a envolveu com o braço, sorrindo.

- Eu tenho acompanhado Justin em todos os shows. A gente basicamente mora dentro de um jatinho e de quartos de hotel.

- E ela tem sido incrível. -Justin disse com orgulho.- Mesmo eu sentindo culpa dela estar me acompanhando e não curtindo o verão do jeito que ela merece. Por isso planejei essa surpresa.

Bruna olhou pra ele com aquele olhar apaixonado e disse baixinho:

- Eu teria ido pra qualquer lugar com você. Mas obrigada por fazer isso por mim.

Eles se beijaram e a mesa inteira soltou um “ooown”.

Eu sorri observando meus amigos ali. Todos tão diferentes, de mundos e rotinas tão distintas, mas juntos, conectados por laços que nenhuma fama, distância ou rotina insana quebrava. Ali, na ilha, longe de tudo, nós só éramos jovens aproveitando o verão — juntos.

- Eu amo vocês, sabiam? -falei, meio sentimental.

- Ah não, Marina tá ficando bêbada. -Luan disse rindo.

- Cala a boca, Luan. -eu ri também.- Só tô feliz, poxa.

- Ah, lembrei que a gente quase foi preso! -Anthony falou, fazendo todo mundo se ajeitar, curioso.- Eu e o Ryan decidimos acender uma fogueira na praia à noite, mas não sabíamos que era proibido naquele pedaço. Do nada, apareceu uma caminhonete da polícia costeira...

- Nossa sorte foi que a Virginia tava com a gente e fingiu que era um trabalho de faculdade de cinema. -Ryan completou, rindo.- E o pior é que colou! O policial até deu boa sorte com o "curta".

- Meu Deus, que perigo! -Bruna disse, dando risada.- Mas pelo menos foi só susto.

- E o Anthony, todo metido a aventureiro, resolveu pular de um píer! -Olivia contou.- Só que escorregou na beirada e caiu igual um saco de batata!

- Pelo menos eu pulo, né? -ele rebateu, rindo.- Você ficou só no vídeo, filmando minha humilhação!

- Viralizou entre a gente. -Virginia comentou, dando um gole na bebida.

- Nossa, eu e o Lu fomos pra tantos lugares... Acho que eu nunca dancei tanto na minha vida. E o Luan arrasando em todos os palcos. -falei.

- Cês não têm ideia. -Luan disse, olhando pro céu e depois voltando pra gente.- Teve um show que caiu uma tempestade no meio. Eu e a Mari ficamos presos no camarim porque alagou a saída. E adivinha? A Marina resolveu que seria uma boa ideia correr na chuva.

- Eu escorreguei e caí de bunda na lama. -admiti, rindo.- Fiquei parecendo uma criança que rolou no parquinho.

- E ainda teve que tirar foto com fã assim. -Luan completou, rindo alto.- Eu chorava de rir.

- Pelo menos não perdi o tênis no palco! -retruquei.- Ele chutou o pé na hora do refrão e o tênis saiu voando. -todos caíram na risada.

- Nossa, lembrei que teve uma noite que o Justin trancou a gente pra fora do quarto do hotel. -Bruna começou a contar.

- Ei! -ele protestou.- Aquela maçaneta era defeituosa!

- Tava de toalha só, gente! -Bruna completou, fazendo todo mundo gargalhar.- Tive que ficar me escondendo atrás dele enquanto ele batia na porta do segurança.

- Pior foi quando a gente foi numa lanchonete em Chicago. -Justin emendou.- Bruna tentou pedir um suco de morango, mas confundiu a palavra e pediu um “sofa”.

- A moça olhou pra minha cara tipo... "oi?" -Bruna disse, cobrindo o rosto de vergonha e rindo.- Minha mente bugou e trocou as palavras. Mas no fim ela entendeu! -a gente riu, e eu imaginei a cena.

Fazia tempo que eu não me sentia tão leve.

Bruna deitou com a cabeça no colo do Justin, rindo alto das histórias que o Anthony estava contando de quando ficaram perdidos tentando achar uma sorveteria em Folly Beach. Olívia e Virgínia completavam os detalhes, dizendo que quase foram parar numa fazenda de ostras por engano, enquanto Ryan tentava negar tudo, mas era voto vencido.

Luan e eu estávamos lado a lado, nossas mãos entrelaçadas sobre a toalha. Estávamos contando sobre os shows dos últimos dias, as correrias de bastidor, os atrasos, os fãs emocionados, e aquele momento caótico em que a energia caiu no meio da apresentação dele e ele teve que improvisar algo no palco pra distrair o público até voltar. A galera riu bastante disso.

Depois foi a vez do Justin contar sobre um show em que um fã invadiu o palco vestido de jacaré, e ele quase caiu no chão de susto. Bruna gargalhava enquanto tentava contar como ele saiu correndo pro lado errado dos bastidores. Só de lembrar, ele já ria também. A química entre eles era tão leve que deixava todo mundo de coração quentinho.

A conversa foi ficando mais solta, com cada um lembrando de momentos engraçados – como quando Virgínia queimou o pé no asfalto quente da praia e saiu pulando feito siri, ou quando Ryan achou que perdeu o celular no mar achando que estava no bolso do calção.

Foi aí que a Olívia, do nada, largou:

- E aí, Luan, Justin… vocês vão voltar pro campus depois das férias?

O silêncio durou uns três segundos, mas pareceu uma eternidade. Os dois se entreolharam com uma expressão que imediatamente me deixou em alerta. Virei o rosto pro Luan, esperando sua resposta, sentindo meu coração acelerar — não de um jeito bom.

Justin foi o primeiro a falar, com um tom calmo e honesto:

- Acho que não. Eu entrei na faculdade focado na música, e agora… eu tô exatamente onde queria estar. Os shows têm sido incríveis, e minha agenda tá cheia até o final do ano.

Bruna assentiu, com um olhar compreensivo:

- A gente conversou sobre isso. Eu vou morrer de saudade, claro… mas ele já tá vivendo o sonho. Continuar no campus só traria mais complicações com a rotina dele. Ia viver com faltas.

Eu engoli seco. Algo me dizia que aquilo ia além só do Justin.

Luan então virou lentamente o rosto pra mim. O olhar dele era cheio de receio, mas ele respirou fundo e falou:

- Eu também tô pensando da mesma forma. Não tenho planos de voltar.

Meu estômago afundou. Aquilo me atingiu como um soco silencioso no peito. Mas eu não podia reagir ali, com todo mundo olhando, com todos sorrindo. Então forcei um sorriso, fiz um leve aceno com a cabeça, e me mantive em silêncio.

Por dentro? Eu tava despedaçando.

Mais tarde...

Luan já tinha fechado a porta da nossa cabana e, animado, tirava a camiseta enquanto comentava:

- Foi bom demais ver todo mundo de novo, né? Parece que faz meses que a gente não se reúne assim.

- Uhum. -murmurei, tirando minhas sandálias e indo direto pro banheiro, só pra lavar o rosto e esfriar um pouco a cabeça.

Ele percebeu na hora. A voz dele veio firme, porém cuidadosa:

- Tá tudo bem com você?

Me virei de volta pro quarto, ainda com o rosto molhado e os olhos ardendo por dentro. Respirei fundo, mas a irritação transbordou antes que eu pudesse segurar.

- Você devia ter falado comigo antes de anunciar que não vai mais voltar pro campus.

Ele parou o que estava fazendo, ficou ali, parado no meio do quarto com a camiseta pendurada na mão, olhando pra mim com aquele olhar de surpresa misturada com culpa.

- Marina... eu não anunciei, eu só... eu só respondi uma pergunta.

- Ah, sério? E por que eu tive que descobrir junto com todo mundo? -cruzei os braços, tentando manter a calma, mas a voz já tremia.- Você sabia o quanto essa volta pro campus significava pra mim. A gente tinha planos. Você me fez promessas.

- E eu continuo com você! -ele deu um passo à frente, tentando se aproximar, mas eu me afastei.- Eu só... a minha vida tá tomando um rumo que eu nem esperava que fosse tão rápido. Os shows, a gravadora, o público...

- E eu não sou parte disso, é isso?

- Claro que é! -ele levantou um pouco a voz, frustrado.- Marina, você é tudo pra mim! Mas eu tô tentando construir minha carreira também. Eu entrei na faculdade pelo mesmo motivo que o Justin: estudar música. Agora isso tá acontecendo de verdade, tá dando certo. Eu só tô tentando seguir esse caminho sem abandonar você.

- Mas parece que você tá indo sem mim. -falei mais baixo, sentindo um nó no estômago.- Você nem pensou em como isso ia me afetar. Em como seria pra nós dois.

- Eu pensei, claro que pensei! -ele passou a mão no cabelo, nervoso.- Mas eu achei que... eu achei que você entenderia. Que você ficaria feliz por mim.

- Eu tô feliz por você, Luan. Mas também tô magoada. Porque eu não fui incluída na decisão. Porque a gente faz tudo junto. E essa decisão… você tomou sozinho.

Ficamos em silêncio por um tempo, o som das ondas ao longe parecia mais alto com aquele silêncio entre nós.

Ele então suspirou e disse mais calmo:

- Eu errei. Eu devia ter falado com você antes. Eu tava com medo da sua reação, e no fundo... eu sabia que você ia se magoar. Eu sinto muito, de verdade.

Meu coração apertou. Eu sabia que ele não tinha feito por mal, mas também não era justo. A gente tava crescendo juntos, construindo uma história... não dava pra fazer essas mudanças tão grandes sem conversar.

- Luan, você vai ficar viajando de estado em estado, país em país… e eu vou estar lá, sozinha, estudando, presa em sala de aula, em outro fuso horário. Como a gente vai fazer dar certo assim?

Ele me olhou, surpreso com a intensidade das minhas palavras. Eu respirei fundo.

- Não me vem com esse papo de “a gente vai dar um jeito”, porque isso aqui não é conto de fadas. Não é pra romantizar igual a Bruna e o Justin, Luan. A vida real cobra. 

Ele abaixou a cabeça por um momento, passando a mão pelos cabelos.

- Eu não tô dizendo que vai ser fácil. Mas eu te amo. E eu quero ficar com você.

- Amar não é o suficiente, Luan. A gente precisa de mais que isso. A gente precisa estar no mesmo lugar, sonhando juntos. Não um cada um em um canto do mundo fingindo que vai funcionar.

Eu senti meus olhos arderem, mas segurei firme. Eu não ia chorar. Não ali. Não agora. Ele me olhava com uma expressão partida, como se quisesse dizer muita coisa, mas não soubesse como.

- Você devia ter falado comigo antes, Luan. Porque agora… eu não sei se consigo seguir com isso sem saber onde a gente vai parar.

Ficamos em silêncio. O som do mar batendo nas pedras era a única coisa que quebrava o peso do momento. E, dentro de mim, a dúvida crescia como uma onda prestes a desabar.

- Me diz o que você realmente quer. -falei baixo, olhando nos olhos dele.- Porque eu tô aqui. Mas eu não vou me prender em algo que você não tem certeza.

Ele respirou fundo. Ia responder. E eu tava pronta pra ouvir — fosse o que fosse.

Os olhos dele estavam fixos nos meus, firmes, intensos, mas ao mesmo tempo vulneráveis. Ele falou com a voz embargada, mas cheia de certeza:

- Eu quero você, Marina. Eu não quero mais ninguém além de você. Você é a mulher da minha vida, é com você que eu sonho todas as noites. Os meus planos… os nossos planos... ainda estão vivos dentro de mim. Eu quero construir uma carreira sólida, sim. Mas eu também quero te ver realizando seu sonho de ser atriz, brilhando nas telas, nos palcos, onde você quiser. Eu quero a gente casando um dia, morando juntos, rindo de tudo isso... tendo filhos, fazendo planos pra sempre.

Meu coração batia forte no peito, mas eu não dizia nada. Estava absorvendo cada palavra. Ele continuou:

- Mas se esse futuro não é o que você quer, se você não consegue se ver nele comigo… então me diz agora. Porque isso é o que eu quero. E não vou te forçar a seguir esse caminho se for te machucar. Só que… eu preciso que você saiba que, mesmo com a distância, mesmo com tudo, eu não quero que a gente se perca. Eu só não posso mais voltar pro campus. Não dá mais. Eu cresci mais rápido do que esperava, as oportunidades vieram... e se eu recuar agora, posso perder tudo que lutei pra conquistar. Mas perder você... isso me assusta mais do que qualquer outra coisa.

Ele se aproximou, parando a um passo de mim. A mão dele ergueu com cuidado e encostou no meu rosto, e eu fechei os olhos por um instante, sentindo o toque que sempre me dava paz. Quando abri de novo, ele sussurrou:

- Me diz, Marina… você ainda acredita na gente?

Engoli em seco. Meu peito doía de tanta coisa que eu sentia ao mesmo tempo. Amor, medo, raiva, saudade antecipada... tudo misturado.

- Luan… -minha voz saiu baixa, e precisei respirar fundo antes de continuar.- Eu acredito. Acredito em você. Acredito em nós. Eu te amo tanto que chega a doer. E sim, eu também sonho com esse futuro. Eu quero ser atriz, quero ser reconhecida, quero construir minha carreira… mas quero fazer tudo isso com você do meu lado. Não como figurante, mas como meu parceiro, meu amor, meu lar.

Ele sorriu, aliviado, mas eu ergui a mão, pedindo pra ele me ouvir até o fim.

- Só que, Luan, eu também preciso estar presente nas decisões que afetam a nossa vida. Não dá pra você ir tomando rumos sozinho e depois esperar que eu me encaixe. Isso me machuca. Me faz sentir pequena, deixada de lado.

Ele assentiu, os olhos marejados, e eu percebi que ele realmente entendia.

- Se você me prometer que, daqui pra frente, mesmo com a correria, a fama, os compromissos, você vai dividir os pesos e decisões comigo... então eu fico. A gente enfrenta essa distância, essa saudade, e tudo mais que vier.

Ele segurou minhas mãos com força, como se não quisesse me deixar escapar.

- Eu prometo, Marina. Com todo meu coração.

Sorri, com os olhos úmidos, e me aproximei até nossos narizes se tocarem.

- Então tá. A gente vai dar um jeito. Mas da próxima vez que você for tomar uma decisão importante, Luan Santana, você me inclui. Ou vai dormir na rede lá fora.

Ele riu, aliviado, e me puxou num abraço apertado.

- Pode deixar. A última coisa que eu quero é dormir longe de você.

E ali, nos braços dele, com o som do mar como trilha de fundo, eu soube que apesar dos desafios, apesar da estrada incerta… a gente ia continuar. Juntos.

Depois de tudo, tomei um banho morno, e depois fiquei em frente ao espelho, penteando meus cabelos molhados com calma, enquanto Luan já estava deitado, de costas, com os braços cruzados atrás da cabeça, me olhando. Ele estava com aquele sorrisinho de canto, preguiçoso e apaixonado.

- Você reparou que a gente tá vivendo uma vida de casados esses dias? -ele comentou, rindo baixinho.

Sorri também, sem parar de passar o pente devagar.

- Reparei… dormir e acordar juntos, dividir o banheiro, as roupas jogadas pelo quarto… total vida de casados. -brinquei, lançando um olhar pelo espelho.

- Só falta os filhos. -ele disse do nada, e meu coração deu um pulinho.

Virei pra ele, ainda com o pente na mão.

- Filhos? Assim, do nada?

Ele riu, se ajeitando na cama.

- Calma, não agora. Mas no futuro. Quantos você quer?

- Não sei… -falei, pensativa.- Nunca parei pra pensar nisso. E você?

- Dois. Ou mais. -ele disse, de forma natural.- Tipo... eu sou gêmeo, né? Vai que você tem uma gestação gemelar também.

- Que?! -exclamei, assustada.- Amor, você quer me matar do coração?

Ele gargalhou.

- Ué, imagina, dois Luanzinhos correndo pela casa.

- Socorro. -falei, fazendo uma careta divertida.- Um já deve dar trabalho… imagina dois de uma vez só!

Luan se levantou da cama e veio até mim, me abraçando por trás enquanto eu ainda segurava o pente.

- Mas você ia dar conta. Você é forte, Marina.

- Não brinca com isso, que eu começo a sonhar de verdade. -confessei baixinho, encostando minha cabeça na dele.

Eu sorri com os olhos fechados, ainda sentindo o abraço de Luan por trás enquanto o pente permanecia esquecido na minha mão. O calor do corpo dele contra o meu me dava uma sensação de paz difícil de explicar. Estávamos ali, dividindo sonhos e planos como se o futuro estivesse logo ali, ao alcance dos dedos. E, de repente, ele soltou:

- Se for uma menina, eu queria chamar de Serena.

Abri os olhos devagar e virei um pouco o rosto pra ele, curiosa.

- Serena? Por quê?

Ele deu um sorriso pequeno e meio tímido, como se aquilo fosse mais íntimo do que qualquer coisa que já tivesse me contado.

- Porque esse nome me lembra paz. E você me traz isso… serenidade, sabe? Mesmo quando a gente briga, mesmo quando tá tudo confuso, você tem esse jeito de me acalmar sem nem perceber. E eu imagino que uma filha nossa seria assim também… leve, doce, forte. Serena.

Meu coração deu um salto no peito. Fiquei em silêncio por alguns segundos, digerindo aquelas palavras, e então sorri, me virando de vez pra ele.

- E se for menino?

Ele soltou um suspiro e deu de ombros, fazendo uma careta pensativa.

- Aí você me pegou. Não tenho a menor ideia… -e então me olhou de um jeito divertido.- Você tem alguma sugestão?

Fiquei um tempinho pensando e depois neguei com a cabeça, rindo sem graça.

- Na verdade, não. Eu nunca tive vontade de ter filhos. Então… nunca parei pra pensar em nomes.

Luan arqueou uma sobrancelha, surpreso.

- Nunca? Nenhum nomezinho sequer?

- Nenhum. -confirmei, firme.- Eu cresci achando que talvez esse lance de maternidade não fosse pra mim. Sempre quis viver meus sonhos, correr atrás das minhas metas… não que uma coisa impeça a outra, mas… não era uma vontade que existia em mim. Nunca foi.

Ele ficou quieto por um instante, processando o que eu tinha dito. E então veio a pergunta que me desmontou, mas de um jeito doce:

-;Mas comigo… você teria um filho?

Soltei uma risadinha, tentando descontrair.

- Com você? Até dez. -brinquei.

Ele riu alto, voltando a me abraçar com força, beijando meu ombro de leve.

- Então vamos começar agora, né? Melhor já garantir antes dos trinta e cinco.

- Ah, é? -revirei os olhos, ainda rindo.- Azar o seu que eu tenho um DIU muito bem posicionado e fazendo o trabalho dele perfeitamente.

- Droga. -ele respondeu, fingindo frustração, e depois encostou o queixo no meu ombro.- Mas imagina... você engravida nas férias de verão, durante a turnê. A gente viajando de jatinho pelo mundo e você começando a sentir enjoo... seria até poético.

Me virei de costas pra ele e falei quase sem pensar, no tom mais automático e amargo que escapou da minha boca:

- Deus me livre engravidar de novo.

Assim que as palavras saíram, senti o peso do silêncio cair como uma pedra no ambiente. Meus ombros ficaram tensos, e minha respiração travou no meio. Senti o corpo dele se afastar levemente, só o suficiente pra que ele pudesse me olhar melhor.

- De novo? -ele repetiu, confuso.- Como assim?

Eu fechei os olhos com força. Merda. Merda, merda, merda. Falei demais. O que eu fui fazer?

Virei de frente, mas não consegui encarar diretamente os olhos dele. Fui andando devagar até a cama, sentando na beira, ainda de costas. Senti ele vir atrás, sentar ao meu lado, paciente, sem dizer nada. Esperando.

Meu peito começou a doer, o mesmo nó que se formava toda vez que aquele assunto voltava à tona se apertou. Mas era hora de parar de esconder.

- Foi em fevereiro. -comecei, baixo.- Antes de tudo acontecer com a gente. Eu engravidei do Victor. 

Vi, pelo canto do olho, a expressão de Luan continuava neutra. Ele não disse nada, só esperou.

- Descobri com quatro semanas. Tava na clínica pra trocar meu DIU, e no ultrassom descobri. -engoli em seco, encarando o chão.- Eu… eu não queria. Eu entrei em pânico. Não conseguia respirar só de pensar naquilo. Eu tava começando a me encontrar, primeiro ano da faculdade, tantos sonhos… e ainda por cima… do Victor? Não. Não podia.

Respirei fundo. Era difícil, mas precisava ser dita.

- Eu fiz um aborto ali mesmo na clínica. Em segredo. Bruna me ajudou, ficou comigo o tempo todo. Só depois de um tempo o Victor ficou sabendo… e me culpou, óbvio. Disse que eu tirei algo que era dele. Mas não era. Era meu corpo. Minha vida. Minha escolha.

Luan continuava em silêncio, mas agora sua mão estava sobre a minha. Quente, firme, segura. Olhei pra ele, hesitante.

- Eu nunca contei pra ninguém além da Bruna. Não porque me envergonho, mas porque… dói lembrar. E porque eu sei que muita gente não entenderia.

- Marina… -ele começou, a voz embargada.- Obrigado por confiar isso em mim. De verdade. Eu… nem sei o que dizer. Só quero que você saiba que eu tô aqui. Sempre. Que nada disso muda o que eu sinto por você. Só me dá mais vontade de te proteger, te apoiar, te amar ainda mais.

As lágrimas caíram. Eu não consegui segurar. Ele me puxou devagar pra um abraço, e eu desabei ali. Não de culpa, mas de alívio. Pela primeira vez, estava dividindo aquele peso com alguém que realmente me amava.

- Você é tão forte, Marina. Tão incrível. E, quando você estiver pronta… se um dia quiser, com calma, sem pressão… eu vou estar aqui. Pra ser pai dos nossos filhos, ou só seu parceiro de vida, se for isso que você quiser. Mas acima de tudo… eu quero você feliz. Só isso.

Apertei os olhos com força, sentindo o coração aquecer de um jeito que eu nem sabia que era possível.

- Obrigada, Luan… por me amar do jeito que eu sou. Até com as partes mais escuras.

Ele beijou minha testa e sussurrou:

- Eu amo até as partes que você ainda nem sabe que tem.

E naquela noite, ali, no meio das lembranças dolorosas e dos planos sonhados, eu percebi: amar de verdade era isso. Estar junto mesmo quando o passado assusta, mesmo quando o futuro assusta mais ainda.

E Luan… ele era meu presente. E, talvez, meu futuro também.

1 mês depois...

Agosto chegou como um furacão. O calor do verão ainda pairava no ar, mas dentro de mim, tudo parecia frio. Eu odiava despedidas. E dessa vez não era qualquer uma. As férias tinham acabado e, com elas, se encerrava também o melhor verão da minha vida: turnês, shows, risadas, madrugadas conversando até o sol nascer com o Luan… Mas agora, ele seguiria estrada afora, levando meu coração com ele.

Justin, meu irmão, também ia continuar com a carreira dele, e embora meu coração apertasse, eu entendia. Ele e o Luan estavam conquistando o mundo, e quem sou eu pra impedir isso?

O campus da Columbia parecia outro mundo depois das reformas. Prédios mais altos, jardins renovados, e, o mais importante: os dormitórios estavam mais modernos. Agora, nosso quarto tinha mais uma cama. E ela tinha dona.

- Tá preparada pra dividir o quarto com a sua irmãzinha perfeita? -Melanie apareceu com um sorriso forçado, puxando uma mala lilás exageradamente grande.

- "Perfeita"? Você começou cedo hoje. -revirei os olhos, tentando não cair na provocação.

- Só tô sendo sincera. -ela deu de ombros.- Você tem o boy dos sonhos, amigas legais, o quarto bom… pelo menos agora eu faço parte disso.

Olívia soltou um risinho discreto atrás de mim, e Virgínia trocou um olhar comigo. Bruna apenas lançou um olhar de “força, amiga”.

- Bem-vinda, Mel. Espero que você goste de verdade daqui. -disse, tentando manter a paz.

Enquanto organizávamos o quarto, ouvi um burburinho vindo do corredor.

- Já soube dos dois novatos? -Olívia entrou com empolgação.- Transferidos da Yale! Segundo ano! Lindos de morrer!

- Yale? Uau. -Bruna arregalou os olhos.- Sabe os nomes?

- Joshua e Zachary. São primos. E são do segundo ano. Vi eles entrando agora há pouco com os uniformes impecáveis e mochilas estilosas. Pareciam modelos de catálogo.

- Ai, meu Deus. -Melanie arregalou os olhos.- Será que um deles é solteiro?

- Você não começou as aulas ainda e já tá assim? -perguntei, rindo.

Pouco tempo depois, descemos para o refeitório. E foi aí que os vi.

Joshua era alto, moreno, cabelo levemente ondulado, olhos verdes intensos, e usava um moletom da Columbia como se tivesse nascido pra isso. Zachary era mais discreto, mas tinha um charme inexplicável. Olhos castanhos escuros, sorriso tímido e um jeito observador que me deixou desconcertada.

- Olha, Bruna… tô vendo você olhando, hein. -Olívia sussurrou.

- Claro que não! -ela corou.- Eu tenho namorado.

- Mas olhar não arranca pedaço. -Virgínia piscou.

Joshua percebeu que a gente olhava e sorriu. Aquele sorriso. Sabe aquele que parece que ele sabe de tudo sobre você? Meus olhos automaticamente procuraram Luan, mas ele não estava ali. Estava longe… e Joshua estava ali, bem na minha frente.

- Oi, meninas. -ele se aproximou, com Zachary logo atrás.- Sou o Josh, esse é meu primo, Zack. Transferidos da Yale. Acho que vamos nos ver bastante por aqui.

- Eu sou Marina, e essas são minhas amigas: Bruna, Olívia e Virgínia. -sorri.- Bem-vindos à Columbia.

- E você é...? -Josh apontou pra Melanie.

- Melanie, irmã da Marina. -ela se adiantou, puxando um fio de cabelo e sorrindo.- Sou caloura.

- Ah, legal. Marina, você estuda teatro, né? -ele perguntou.- Já ouvi falar de você. Te vi em um curta estudantil no semestre passado. Você é boa.

Eu corei.

- Nossa, obrigada. Nem sabia que aquilo rodava por aí…

- Rodou. Você tem talento. Quero ver mais. -ele disse, e depois piscou, antes de se afastar com Zack.

Bruna ficou muda. Assim como eu.

- Nossa senhora. -disse Virgínia.- A coisa vai esquentar por aqui esse semestre.

Eu tinha certeza disso.

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