Marina Narrando
Victor estava encostado na parede ao meu lado, segurando uma garrafa de cerveja e me olhando com um sorriso confiante. Desde que começamos a conversar, ele não escondia seu interesse, e eu também não estava exatamente evitando.
- Você é ainda mais bonita de perto, sabia? -ele disse, inclinando um pouco a cabeça enquanto seus olhos percorriam meu rosto.
Sorri de leve, levando minha própria garrafa aos lábios.
- Ah, é? Você fala isso pra todas?
- Só para as que realmente chamam minha atenção. -ele piscou, aproximando-se mais.
Senti um arrepio subir pela minha espinha. Victor era charmoso, bonito, tinha um jeito seguro de falar. E o álcool que já circulava no meu corpo tornava tudo mais leve, mais fácil.
- E eu chamei sua atenção por quê? -provoquei, arqueando uma sobrancelha.
- Além do fato óbvio de que você é linda? -ele sorriu, passando a língua pelos lábios antes de continuar.- Você tem essa coisa meio misteriosa… tipo, parece que quer se soltar, mas se segura. Fiquei curioso pra ver até onde você vai.
Ri um pouco, me sentindo meio exposta.
- E se eu não quiser ir até lugar nenhum?
- Então eu respeito. Mas eu duvido que seja o caso. -ele sussurrou, chegando ainda mais perto.
Minha respiração prendeu por um segundo antes de seus lábios tocarem os meus.
O beijo foi bom. Ele sabia exatamente o que estava fazendo, e eu me deixei levar. Meus dedos se enrolaram na gola da camisa dele, puxando-o para mais perto enquanto seus braços envolviam minha cintura. O gosto da cerveja misturado ao seu perfume me deixou tonta de um jeito viciante.
Quando nos afastamos, ele sorriu, passando o polegar devagar pelo meu lábio inferior.
- Sua boca é macia pra caramba. -murmurou. Dei uma risada baixa.
- Isso foi um elogio?
- Foi uma constatação. -ele corrigiu.- E me deixou com vontade de te beijar de novo.
Eu ia responder algo, mas ele cortou minha linha de raciocínio com outra pergunta:
- Quer ir pro meu quarto?
Pisquei algumas vezes.
Meu corpo ainda estava aquecido pelo beijo, meu coração batia rápido, e a resposta automática na minha cabeça foi "sim". Mas então, por alguma razão, algo dentro de mim hesitou. Uma parte de mim que eu não entendia bem.
Só que o álcool resolveu decidir por mim.
- Vamos. -respondi, mordendo o lábio.
Victor sorriu satisfeito, segurou minha mão e me guiou escada acima, sem nem olhar para trás.
Subimos as escadas no meio da festa barulhenta, com o som alto abafando qualquer pensamento que tentasse me fazer hesitar. Victor segurava minha mão com firmeza, guiando-me com confiança pelo corredor do andar de cima até uma porta no final.
Quando entramos, ele trancou a porta atrás de nós e se virou para mim com um sorriso. O quarto era grande, com uma cama bagunçada no centro, algumas roupas jogadas pelo chão e um abajur aceso, dando um tom mais intimista ao ambiente.
- Então, Marina… -Victor se aproximou, seus olhos escuros analisando cada detalhe do meu rosto.- Acho que essa noite vai ser interessante.
Sorri de leve, sentindo meu coração acelerar. Ele era bonito, confiante, e eu estava aqui porque quis. Mas mesmo com a bebida ainda me deixando mais solta, senti um leve aperto no peito.
Ele se inclinou para me beijar de novo, e eu retribuí, colocando as mãos em seus ombros. O beijo era intenso, mas conforme suas mãos começaram a explorar minha cintura e puxar o tecido do meu vestido, algo dentro de mim gritou para eu parar.
Afastei-me um pouco, sentindo minha respiração acelerada.
- Victor… espera. -ele franziu o cenho, ainda segurando minha cintura.
- Algum problema?
Mordi o lábio, tentando formular a resposta. Eu queria estar aqui? Sim. Mas queria ir até o fim? Algo dentro de mim dizia que não.
- Eu… acho que me empolguei um pouco. -admiti, sentindo meu rosto esquentar.
Victor me encarou por um instante, e então soltou um suspiro, dando um passo para trás.
- Tudo bem, sem pressa. -disse ele, forçando um sorriso.
Assenti, meio aliviada, mas ao mesmo tempo desconfortável.
- Acho que vou descer… pegar um pouco de ar.
- Claro.
Ele abriu a porta para mim, e eu saí, sentindo meu coração disparado por um motivo que eu ainda não entendia direito.
Desci as escadas com pressa, tentando escapar do turbilhão de pensamentos que estavam se formando na minha mente. Eu sabia que algo não estava certo, mas o álcool e a situação me empurraram para aquilo. Agora, sozinha no corredor, sentia uma mistura de confusão e arrependimento, sem saber exatamente o que fazer com isso tudo.
Quando cheguei à sala principal da festa, a música estava ainda mais alta, preenchendo o ambiente com uma energia frenética. As risadas e conversas se misturavam, criando um caos que me fazia sentir deslocada, mas ao mesmo tempo, me dava a sensação de que eu podia escapar de mim mesma ali.
Me aproximei de uma mesa com vários copos de shots alinhados, sem nem saber do que eram. Eu só queria algo para afastar o nó que eu sentia no estômago. Peguei dois copos e bebi um de cada vez, a vodka queimando a garganta à medida que descia. O ardor me fez sentir um pouco mais viva, mesmo que por um breve momento.
Foi então que meu olhar se voltou para a pista de dança, e eu vi Luan, de costas para mim, beijando Chloe, aquela garota que, se não me engano, pediu para Bruna sair do lugar dela no primeiro dia de aula. O estômago revirou, e uma sensação estranha se espalhou pelo meu corpo. Eu não sabia o que sentia, mas algo dentro de mim se partiu ao ver aquilo. O que era? Ciúmes? Insegurança? Não sei. Só sei que aquilo me deu forças para pegar outro shot. Bebi mais uma vez, dessa vez com mais rapidez, e a ardência na garganta parecia me dar um pouco de coragem.
Respirei fundo e, em um impulso, decidi subir novamente para o quarto de Victor. Não sabia por que, mas sentia que precisava fazer aquilo. Quando entrei no quarto, ele estava lá, sentado na beira da cama, com o olhar fixo em mim. Ele se assustou com minha entrada, mas logo sorriu, como se esperasse por mim. Fechei a porta com um empurrão e, sem hesitar, fui até ele.
Sentei no seu colo, espalhando beijos por seu pescoço. Ele me deitou na cama com um olhar de admiração, como se estivesse me analisando, tentando entender o que eu queria. Eu não sabia bem o que estava fazendo, mas a única coisa que eu sabia era que precisava ir até o fim com aquilo.
Victor levantou-se da cama e foi até uma gaveta. Pegou algo, e eu percebi que ele estava colocando uma meia na maçaneta da porta, do lado de fora, e depois trancando-a. Quando voltou para mim, não falou nada, mas o gesto foi suficiente para me fazer sentir que ele estava tão determinado quanto eu. Ele se aproximou, e dessa vez não havia mais volta.
Depois que tudo terminou, o silêncio tomou conta do quarto, quebrado apenas pelo som da minha respiração acelerada. Eu não sabia o que pensar, o que sentir. A sensação de vazio no meu peito era grande, e a confusão na minha cabeça ainda mais.
Victor estava ali, ao meu lado na cama, passando a mão pelos meus cabelos. Eu me levantei num pulo, sem saber exatamente o que estava fazendo, apenas queria sair dali o mais rápido possível. Comecei a vestir minha lingerie novamente, segui com o vestido e os sapatos, movendo-me com rapidez, como se a roupa fosse me dar algum tipo de segurança.
Victor me olhou, confuso.
- O que foi? -perguntou, ainda na cama, com uma expressão de quem não entendia a pressa.
Eu ri, mas foi uma risada amarga, quase forçada, enquanto terminava de me vestir, ajeitando os cabelos no espelho e tentando arrumar a maquiagem, mas sem muito sucesso.
- Preciso ir. -respondi, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ele continuou me observando, ainda sem entender.
- Por que? -ele insistiu, com o tom de voz suavemente surpreso.
Eu terminei de ajeitar o cabelo e olhei para ele com um sorriso irônico.
- Você achou que eu ia ficar aqui, dormir de conchinha com você? -perguntei, já me dirigindo para a porta. Ele ficou em silêncio, talvez sem saber o que responder.
Eu destranquei o quarto, peguei a meia da maçaneta e joguei de volta para dentro. Sem mais palavras, fechei-a atrás de mim e fui em direção à festa, meu coração pesado, mas com a mente em outro lugar.
Caminhei pelo corredor, tentando afastar a sensação de desconforto que ainda estava na minha cabeça. Quando entrei na sala principal da festa, meus olhos logo encontraram Bruna, Olivia e Virgínia, que estavam em um canto conversando, parecendo discutir algo importante. Me aproximei delas, sentindo uma leve tensão no ar.
Olivia foi a primeira a notar minha presença e sorriu ao me ver.
- Finalmente, você apareceu! -disse Olivia.- Estávamos procurando por você. Estávamos pensando em ir embora.
Virgínia, com seu sorriso atrevido, olhou para mim e, com um tom brincalhão, perguntou:
- E aí, Marina? Onde você estava?
Não consegui evitar desviar o olhar para a escada, como se fosse involuntário, e foi quando elas olharam também. Victor estava descendo as escadas, abotoando a camisa e com o cabelo um pouco bagunçado. A imagem de Victor ali, completamente à vista de todos, fez um arrepio subir pela minha espinha.
Olivia e Virgínia trocaram olhares e, sem perder tempo, começaram a perguntar em coro:
- O que rolou? Foi bom? Conta tudo!
Eu olhei para elas, sentindo a pressão da situação. Eu não queria falar sobre aquilo, não queria mais pensar sobre aquilo. Só queria sair dali.
- Melhor voltarmos para o dormitório. -respondi, tentando soar calma, mas as palavras saíram secas. Eu não tinha forças para entrar em mais detalhes ou compartilhar o que realmente havia acontecido.
Bruna me observou por um momento, parecia perceber que eu não queria conversar mais sobre o assunto.
- Vamos sim, já estou morrendo de sono. -Bruna respondeu, mas não sem antes lançar um olhar curioso para mim, como se ainda quisesse saber mais.
As meninas concordaram e começaram a se afastar, saindo em direção à porta. Eu não conseguia parar de pensar no que havia acontecido e no peso de cada passo que dava.
Eu só queria ir embora, voltar para o meu quarto e tentar deixar tudo para trás.
Durante o caminho, as meninas continuaram a me olhar com aqueles olhares curiosos, tentando arrancar alguma informação de mim, mas eu não estava disposta a falar. Minha resposta era sempre a mesma, uma simples palavra que fechava qualquer tentativa de conversa. "Não", "Sim". Eu estava em um momento de total silêncio interno, tentando processar tudo o que tinha acontecido.
Foi então que Bruna, percebendo o que estava acontecendo, deu um leve suspiro e falou:
- Gente, parem de perturbar a Marina. Se ela não quiser contar, é melhor respeitar.
Eu sorri para Bruna, agradecendo com um gesto silencioso. Não tinha nem uma semana que nos conhecíamos e ela já me conhecia tão bem para entender que eu não estava pronta para falar sobre o que aconteceu, e a última coisa que eu precisava naquele momento era de mais perguntas.
Bruna, percebendo a oportunidade de mudar de assunto, decidiu mudar de foco. Ela começou a falar sobre outra coisa, com um sorriso no rosto.
- Bom, mas já que ninguém está perguntando sobre isso, vou contar um pouco sobre o que aconteceu comigo e o Harry.
As meninas ficaram atentas, ainda curiosas, e Bruna não perdeu tempo, com um brilho travesso nos olhos. Ela respirou fundo e, com um sorriso malicioso, continuou:
- Ele é incrível, gente. Beija bem, tem uma pegada... sem palavras. Ele não deixou espaço para eu duvidar de nada. E eu nem sabia que tinha tanta química entre a gente até ele chegar lá.
Eu fiquei ali, apenas ouvindo, tentando não mostrar que estava prestando atenção.
Suspirei, tentando afastar a sensação estranha que ainda estava me invadindo. Eu tinha transado com o Victor, e pronto, não era o fim do mundo. Tentei me convencer disso enquanto me recompunha, tentando não me importar mais do que eu deveria. Então, respirei fundo e decidi seguir em frente.
Voltei a interagir com as meninas, que ainda estavam ao meu redor. Olhei para Bruna e, com um sorriso um pouco mais descontraído, perguntei:
- Você pensa em ficar com o Harry mais vezes?
Bruna sorriu, com aquele ar de quem estava curtindo a situação.
- Talvez. Mas, na real, eu quero aproveitar, sabe? Estou aberta a outras opções, ver o que mais tem por aí.
Quando finalmente chegamos ao dormitório, o ambiente estava mais tranquilo, mas Virgínia parecia estar cheia de energia. Ela se jogou no sofá e, com um sorriso atrevido, soltou a bomba:
- Ah, eu transei com o Anthony no banheiro.
Marina, Olivia e Bruna olharam para ela, sem acreditar. Um silêncio tomou conta da sala por um momento, antes de uma explosão de risadas. Olivia foi a primeira a reagir.
- Virgínia, eu espero de tudo de você, mas transar no banheiro? Isso foi demais até pra você!
Eu não pude deixar de rir também. Virgínia sempre fazia algo inesperado.
- Você nem me surpreende mais, Virgínia. -falei, me acomodando no sofá.
Ela deu de ombros, como se estivesse completamente à vontade com a situação.
- Ah, Marina, você não pode falar nada. Transar com o Victor e nem querer contar é uma piada. -ela disse, com um sorriso de quem sabia que tinha dado um tiro certeiro.
Respondi com um sorriso travesso.
- Eu não posso fazer propaganda do produto que estou usando, né? Outras pessoas querem usar.
As meninas riram alto, e, por um momento, me senti mais leve. Talvez o que eu tinha feito não fosse tão grande assim. Afinal, todos estavam fazendo o que queriam, não é? Só eu parecia estar tão confusa com tudo isso.
No outro dia, acordei com a luz do sol invadindo o quarto, minha cabeça latejando levemente por conta da ressaca. Peguei o celular e vi que minha mãe tinha me ligado cedo. Suspirei e retornei a ligação.
- Oi, mãe.
- Oi, querida! Você vem pra casa hoje?
Revirei os olhos. Eu não estava nem um pouco afim de pegar o trem por duas horas para ir até lá. Além disso, minha cabeça ainda estava pesada da festa de ontem.
- Então… não vai dar, tenho trabalho pra fazer. -menti, esperando que ela não insistisse.
- Ah, tudo bem. Mas não some, hein?
Concordei rapidamente e desliguei antes que ela pudesse prolongar a conversa.
Bruna, Olivia e Virgínia estavam animadas para ir até a Quinta Avenida. Tentaram me convencer a ir junto, mas eu recusei. Tudo o que eu queria era um dia tranquilo, deitada, assistindo alguma série e ignorando o mundo lá fora.
Depois que as meninas saíram, fiquei jogada no sofá, assistindo a qualquer coisa aleatória na TV, até que alguém bateu na porta. Franzi a testa, sem esperar visitas.
Levantei-me com preguiça e abri a porta. Para minha surpresa, era Victor.
- Oi? -soltei, arqueando a sobrancelha.
Ele estava encostado no batente da porta, com as mãos nos bolsos e um olhar curioso.
- Você saiu daquele jeito ontem… queria saber se aconteceu alguma coisa. Não gostou? -soltei uma risada curta, cruzando os braços.
- Victor, sério? Você veio até aqui pra perguntar isso? -ele deu de ombros.
- Só quero entender. Você saiu sem dizer nada, como se tivesse se arrependido. -suspirei, encostando-me à porta.
- Eu só não queria dormir de conchinha, se era isso que esperava. -ele riu, mas ainda parecia querer mais respostas.
- Só isso? -eu assenti, fingindo indiferença.
- Relaxa, Victor. Foi divertido, mas foi só isso.
Ele me observou por um instante, como se tentasse decifrar algo.
- Beleza, então. Se mudar de ideia… -ele piscou e se afastou, indo embora.
Fechei a porta e soltei um suspiro pesado. Por que aquela conversa tinha me incomodado tanto?
Depois que Victor foi embora, eu tentei voltar a assistir à série, mas simplesmente não conseguia me concentrar. Meu humor tinha mudado completamente, e eu precisava fazer algo para me distrair.
Levantei-me e fui direto para o banheiro, decidindo que um banho premium resolveria meu dia. Liguei a água quente, espalhei meus produtos no box e comecei meu ritual: esfoliação, hidratação no cabelo e, claro, um skin care caprichado.
Enquanto a máscara capilar fazia efeito, comecei a cantar. A acústica do banheiro deixava minha voz ainda melhor, então me empolguei. Estava no meio do refrão quando escutei um barulho vindo da sala.
Franzi a testa. Será que as meninas já tinham voltado?
Dei de ombros, terminei o banho e me enrolei na toalha. Saí do banheiro, pronta para perguntar se tinham comprado algo interessante na Quinta Avenida.
Mas, quando me virei para ir para o meu quarto, dei de cara com alguém saindo do quarto da Bruna.
- AAAAAH! -gritei.
- AAAAAH! -a outra pessoa gritou de volta.
O susto foi tão grande que soltei a toalha sem querer.
Por um segundo que pareceu uma eternidade, fiquei completamente congelada. Luan também. Seu olhar desceu e subiu num piscar de olhos, mas já era tarde demais.
- MEU DEUS! -berrei, puxando a toalha do chão e me enrolando novamente.
Luan virou de costas no mesmo instante, levando a mão ao rosto.
- EU NÃO VI NADA! -ele gritou desesperado.
- VIU SIM, SEU IDIOTA! -rebati, ainda sem acreditar no que tinha acabado de acontecer.
O silêncio constrangedor dominou o ambiente por alguns segundos.
Luan limpou a garganta, ainda de costas para mim.
- Eu… eu só vim procurar a Bruna. -eu respirei fundo, sentindo meu rosto arder de vergonha.
- Ela saiu com as meninas.
- Ah… tá.
Outro silêncio.
- Marina, posso me virar?
- NÃO! -ele riu nervoso.
- Tá bom… então eu vou indo.
Luan começou a andar às cegas, tateando o caminho para a porta.
- Ai, meu Deus, só vai logo! -resmunguei, cobrindo o rosto com a toalha.
Assim que ouvi a porta se fechar, corri pro meu quarto e me joguei na cama, morta de vergonha.
Definitivamente, esse dia não poderia ficar pior.