Bruna Narrando
Eu sorri para Marina quando ela e Victor se sentaram na nossa mesa, ainda sentindo a energia animada do refeitório depois da cena que ele tinha feito. Marina parecia um pouco envergonhada, mas Victor estava radiante, como se tivesse acabado de ganhar um troféu.
- Bruna e Harry passaram a coroa do casal do momento pra vocês. -Virgínia brincou, mexendo a colher na sobremesa. Eu fingi tirar a coroa da minha cabeça e passar para Marina, brincando.
- E vocês dois ficaram lindos juntos! -Olívia completou, empolgada.
Marina sorriu pequeno, mexendo no canudo do suco com os dedos.
- Obrigada, gente.
Harry passou um braço pelos meus ombros e sorriu para eles.
- Parabéns, cara. Você realmente fez uma entrada triunfal.
- Eu não podia deixar passar em branco, né? -Victor riu, dando de ombros.- Quero que o mundo inteiro saiba que essa mulher incrível agora é minha namorada.
Marina apenas revirou os olhos, mas com um sorriso de canto.
Enquanto eles conversavam, Olívia inclinou-se mais para perto de Marina, com um sorriso travesso.
- Ei, você se importaria se eu ficasse com o Luan?
O ar pareceu mudar ao redor da mesa.
Vi quando Marina engoliu em seco, seus dedos apertando um pouco o copo.
- Ahm… você tem que perguntar isso pra Lauren. -ela tentou disfarçar, mantendo a voz neutra. Olívia bufou, rolando os olhos.
- Aquela lá já rodou. Luan terminou com ela hoje a tarde.
Eu vi quando Marina abaixou os olhos rapidamente, antes de dar um pequeno sorriso e responder:
- Faz o que quiser, Lív.
Mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que aquilo não era um “faz o que quiser” real. Era o tipo de resposta que significava exatamente o oposto.
E eu também sabia que Olívia, esperta do jeito que era, não deixaria aquilo passar despercebido.
O clima na mesa ficou estranho por alguns segundos. Marina bebia o suco sem olhar para ninguém, enquanto Victor parecia alheio à tensão, focado no próprio prato. Olívia deu um sorrisinho satisfeito e pegou o celular, como se já estivesse arquitetando algo.
- Bom saber. -ela disse simplesmente, piscando para mim antes de voltar a comer.
Marina forçou um sorriso e desviou o olhar, mas eu vi a forma como seus ombros ficaram tensos. Eu conhecia minha melhor amiga o suficiente para perceber que aquela ideia a incomodava, mesmo que ela não admitisse.
Tentei mudar de assunto para aliviar a tensão.
- Agora que vocês dois estão oficialmente namorando. Poderíamos fazer encontros de casal. Imagina só, nós quatro saindo juntos?
Marina piscou algumas vezes, talvez surpresa com a ideia. Victor, por outro lado, sorriu de imediato.
- Eu topo! Seria legal. A gente pode ir ao cinema, sair para jantar…
- Ou fazer algo mais divertido, tipo um karaokê! -sugeri.
- Eu gostei da ideia. -Harry concordou, apertando de leve minha cintura.
Marina apenas sorriu, mas não disse nada. Eu podia ver que sua mente estava em outro lugar.
- Então já era! -Victor comemorou, dando um beijo rápido na bochecha dela.- Vamos marcar logo.
- Sim, claro. -Marina respondeu, mas havia algo no seu tom… algo que só eu percebi.
Alguns dias depois...
Os dias passaram rapidamente, e antes que eu percebesse, o Dia de Ação de Graças havia chegado. Como meus pais estavam no Brasil e esse feriado não era comemorado lá, aceitei o convite de Harry para passar a data com sua família.
- Meus pais vão te amar. -ele disse animado, segurando minha mão enquanto esperávamos pelo Uber que nos levaria até a casa dos Preston.
- Espero que sim. -sorri, embora estivesse um pouco nervosa.
Ao chegarmos, fomos recebidos calorosamente pela Senhora Preston, uma mulher elegante, de cabelos loiros e sorriso gentil.
- Bruna! Finalmente conheci a garota que meu filho não para de falar. -ela disse, me abraçando como se já me conhecesse há anos.
O Senhor Preston era um homem alto, de feições sérias, mas ao apertar minha mão, seu olhar se suavizou.
- Seja bem-vinda.
A casa estava impecavelmente decorada para o feriado. A mesa já estava quase pronta, e o aroma delicioso de peru assado e torta de abóbora tomava conta do ambiente.
Harry ficou ao meu lado o tempo todo, me apresentando ao restante da família. Entre uma conversa e outra, ele sempre encontrava uma desculpa para segurar minha mão, me puxar para um abraço ou sussurrar algo fofo no meu ouvido.
- Está se divertindo? -ele perguntou em um momento em que ficamos sozinhos na varanda, observando a chuva cair suavemente.
- Muito. Sua família é incrível. -sorri, sentindo o calor dele me envolver quando passou os braços ao meu redor.
- Você faz parte dela agora. -ele sussurrou, me encarando com aqueles olhos brilhantes antes de me dar um beijo suave, aquecendo meu coração naquela noite fria.
Depois do jantar, nos sentamos na sala para conversar. A Senhora Preston parecia animada para saber mais sobre mim.
- Então, Bruna, Harry me disse que você estuda moda. -ela sorriu, servindo uma xícara de chá para mim.
- Sim, meu sonho é ser estilista. -respondi, pegando a xícara com cuidado.
- Isso é maravilhoso! -ela disse.- Sempre achei que Harry precisava de alguém com bom gosto para ajudá-lo a se vestir melhor.
Soltei uma risada, e Harry revirou os olhos, fingindo indignação.
- Mãe, eu tenho estilo.
- Claro, querido. Seu "estilo" de camiseta amassada e tênis velhos. -o Senhor Preston entrou na conversa, divertido.- O que mais você gosta de fazer, Bruna? -ele perguntou, cruzando os braços e me analisando com um olhar curioso, mas gentil.
- Eu adoro desenhar, criar peças novas, e também amo música, mas não sei tocar e cantar nada. -olhei para Harry, sorrindo.- E passar tempo com seu filho, claro.
Harry sorriu satisfeito e passou um braço ao redor dos meus ombros.
- Eu gostei dela. -a Senhora Preston disse, olhando para o marido.- Ela tem personalidade.
- Isso é verdade. -o Senhor Preston concordou.- E você parece ter um bom coração, Bruna.
- Obrigada. -sorri, sentindo-me mais à vontade.
A conversa continuou, e aos poucos, fui conhecendo mais sobre a família dele também. Eles me mostraram álbuns de fotos da infância de Harry, o que me rendeu boas risadas ao ver algumas fotos embaraçosas dele.
Mais tarde, quando já estávamos sozinhos no quarto dele, Harry me puxou para um abraço apertado.
- Eu disse que eles iam te amar. -ele sussurrou no meu ouvido.
- Acho que passei no teste. -brinquei, olhando para ele.
- Você não precisava passar em teste nenhum. Mas, se precisasse… -ele segurou meu rosto entre as mãos.- Você passou com nota máxima.
E então, ele me beijou, selando aquela noite perfeita com um toque de carinho e amor.
No outro dia, acordei e não vi Harry na cama, me levantei e quando olhei pela janela, ele estava com o pai, o ajudando cortar lenha, então tomei um banho, vesti roupas quentes e desci, encontrando a mãe dele sentada, bordando.
- Bom dia, senhora Preston.
- Bom dia, querida. Pode me chamar de Kate, não precisamos de formalidades. -ela sorriu pra mim.
Me sentei no sofá ao lado de Kate, observando seus dedos habilidosos bordarem um tapete com um padrão delicado de folhas e flores. O fogo na lareira crepitava, aquecendo o ambiente, enquanto lá fora o frio cortante do inverno tomava conta da cidade.
- Está ficando lindo. -comentei, admirando seu trabalho.
- Obrigada, querida. Gosto de bordar, me acalma. -ela sorriu de leve.- Sabe, estou muito feliz que você e Harry estejam juntos. Ele parece realmente apaixonado por você.
Sorri, sentindo um calor gostoso no peito.
- Eu também estou muito feliz com ele. Harry é incrível.
Ela me olhou por um instante, como se ponderasse se deveria dizer algo.
- Você conheceu a ex dele, a Chloe, certo?
A pergunta me pegou um pouco de surpresa, mas assenti.
- Sim, conheci. Mas ela não foi muito amigável comigo.
Kate suspirou, voltando a atenção para o bordado.
- Isso não me surpreende. Mas, sabe, as coisas entre ela e Harry foram… complicadas.
A forma como ela disse aquilo despertou minha curiosidade.
- Como assim?
Ela fez uma pausa, como se escolhesse as palavras com cuidado.
- Harry e Chloe começaram a namorar no final do ensino médio. Era algo jovem, inocente… Quando foram para Columbia, continuaram juntos. Eles nunca foram um casal de brigas, pelo menos, eu nunca vi. Eles se davam bem, eram parceiros. -eu escutava atentamente, tentando imaginar aquele Harry de antes.- Mas então, um dia… -ela suspirou e olhou para mim.- Chloe descobriu que estava grávida. -meus olhos se arregalaram.
- O quê? -ela assentiu.
- Ela contou para o Harry, e ele ficou radiante. Meu filho sempre teve o sonho de ser pai, sabe? Desde pequeno ele dizia que queria ter uma família grande, com crianças correndo pela casa, acho que esse desejo veio por ele ter sido filho único. Ele ficou emocionado com a notícia, já fazia planos, mesmo sendo cedo demais… Mas então… -Kate fez uma pausa, apertando levemente a linha do bordado entre os dedos.- Chloe decidiu, por conta própria, fazer um aborto.
Senti meu coração apertar.
- E ela não conversou com ele sobre isso?
- Não. Apenas fez. E quando contou para ele depois, o Harry… mudou.
Eu não sabia o que dizer.
- O relacionamento deles desmoronou depois disso. Harry ficou arrasado, se sentiu traído, como se sua opinião não importasse. Foi um golpe muito forte para ele.
Engoli em seco, absorvendo aquela informação. Nunca imaginei que Harry tivesse passado por algo assim. Agora tudo fazia sentido — por que ele parecia tão intenso comigo às vezes, por que às vezes ficava calado, perdido em pensamentos. E também como ele era possessivo com Chloe, quando o conheci.
- Ele nunca me contou isso…
- Ele não fala sobre isso. -ela disse, com um olhar triste.- Mas eu sei que o que aconteceu deixou cicatrizes.
Fiquei um tempo em silêncio, digerindo tudo.
- Agora entendo por que Chloe me olhou daquele jeito quando me viu com Harry…
Kate deu um sorriso leve, mas sem muita alegria.
- Ela sabe que perdeu alguém maravilhoso.
E eu, naquele momento, percebi o quão sortuda eu era por ter Harry ao meu lado.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a porta da frente se abriu, trazendo uma lufada de ar frio junto com Harry e o Senhor Preston, que carregavam lenha nos braços.
- Nossa, tá gelado lá fora! -Harry reclamou, esfregando as mãos.- Espero que o fogo esteja bem forte aqui dentro.
Kate riu.
- Está, querido. E agora que vocês chegaram, posso fazer um chocolate quente.
- Ótima ideia. -o Senhor Preston concordou, largando as toras de lenha ao lado da lareira.
Harry se aproximou de mim, inclinando-se para um beijo rápido nos meus lábios.
- O que vocês estavam conversando?
Olhei para Kate, e ela sorriu de forma discreta antes de se levantar para ir até a cozinha.
- Sobre você. -falei, encarando seus olhos azuis. Ele arqueou uma sobrancelha.
- Só coisas boas, espero.
Abracei seu pescoço e encostei minha testa na dele.
- Sempre.
Ele sorriu e me abraçou pela cintura, me puxando para perto.
- Senti sua falta enquanto estive lá fora. -ele murmurou, baixinho, só para mim. Meu coração acelerou.
- Você estava só pegando lenha.
- Mas qualquer tempo longe de você já é demais. -ele sussurrou antes de roçar os lábios nos meus, em um beijo lento e aconchegante.
Eu sorri contra a boca dele.
- Bobo.
- E louco por você.
Ficamos ali abraçados, enquanto a lareira estalava e o aroma de chocolate quente começava a invadir a sala.
O dia passou tranquilo, ficamos na sala conversando, o Logan, pai de Harry, estava contando histórias da época em que ele serviu o exército, e eu fiquei impressionada com tudo o que ele passou.
- Foi por isso que só tivemos o Harry, eu sempre quis família grande, mas com Logan no exército, não sabia se ele voltaria um dia, e com um filho já era complicado, se tivéssemos mais, não sei o que faria. -Kate comentou.
- Eu fui dispensado quando Harry tinha dez anos, por conta de problemas de saúde de Kate. -Logan complementou.
Antes que eu pensasse em perguntar qual era o problema de saúde, Kate se ajeitou na poltrona onde ainda bordava e contou:
- Eu tive câncer no útero. -tentei não demonstrar meu espanto, mas acho que foi impossível.- Por sorte, descobri logo no início e fiz cirurgia, mas foi bem assustador.
- Caramba, e você está bem agora?
- Graças à Deus. Faço exames de rotina todo ano, tenho medo de voltar em outro lugar, mas está tudo bem.
Fiquei pensando em como a família de Harry passou por tanta coisa, o exército, o câncer, Harry quase ter sido pai... fiquei impressionada com a história de vida deles.
Depois do jantar, todo mundo estava espalhado pela sala, aproveitando o calor da lareira e conversando sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Eu estava abraçada a Harry no sofá quando uma ideia me veio à cabeça.
- Já que vocês me receberam tão bem, acho que está na hora de apresentá-los a algo tipicamente brasileiro. -falei, me levantando.
Kate sorriu.
- Adoraríamos! O que você tem em mente, querida?
- Vou fazer brigadeiro!
Harry franziu o cenho.
- Briga o quê?
- Brigadeiro.
- Bri-ga-de-ro.
- Isso!
Ele tentou repetir mais algumas vezes, e eu gargalhei com a forma desajeitada que ele pronunciava.
- Ah, vem cá, vem! -peguei sua mão e o puxei para a cozinha comigo.- Você vai me ajudar.
- Não sei se é uma boa ideia eu ir pra cozinha…
- Para de drama!
Abri a despensa e, por sorte, encontrei leite condensado. Peguei também manteiga e achocolatado, enquanto Harry ficava parado me observando.
- E então, como se faz esse… briga-dere?
Soltei uma risada.
- Brigadeiro! Presta atenção, loirinho.
Mostrei a ele como misturar os ingredientes e levar ao fogo, mexendo sempre. Harry tentou mexer a panela, mas começou a reclamar que seu braço estava doendo, o que me fez rir ainda mais.
- Isso é uma prova de resistência? -ele brincou.
- Você que lute, amor.
Quando o brigadeiro finalmente atingiu o ponto certo, desliguei o fogo e o deixei esfriar um pouco.
- Agora a gente pode comer de colher ou enrolar e passar no granulado.
Harry pegou uma colher e experimentou um pouco. Seus olhos se arregalaram.
- Uau! Isso é bom demais! -eu sorri, satisfeita.
- Eu disse que você ia gostar.
Ele pegou mais uma colherada e estendeu para mim, e eu aceitei.
- Isso me faz querer aprender mais sobre o Brasil -ele disse, me encarando com carinho.
Meu coração aqueceu.
- Bom, eu posso te ensinar tudo que quiser saber. -ele sorriu, me puxando pela cintura.
- Ótimo, porque eu planejo ficar muito tempo com você.
Depois que todo mundo experimentou e aprovou o brigadeiro, a noite continuou leve e aconchegante. Ficamos na sala, enrolados em cobertores, enquanto assistíamos a um filme antigo que o Logan escolheu. Harry me abraçava de lado, e de vez em quando eu sentia ele beijar o topo da minha cabeça.
- Eu adorei fazer isso com você. -ele sussurrou no meu ouvido. Sorri, me aconchegando mais nele.
- E eu adorei te ensinar. -ele riu baixinho.
- Ainda não consigo pronunciar direito…
- Você tem tempo pra aprender.
Ficamos em silêncio por um tempo, apenas curtindo a companhia um do outro. Kate olhou para nós e sorriu.
- Vocês formam um casal lindo.
Harry apertou minha mão e olhou para a mãe.
- Eu sei.
Revirei os olhos, mas não consegui evitar o sorriso.
Quando o filme acabou, todos decidiram ir dormir. Harry me acompanhou até o quarto dele, fui pro banheiro vestir meu pijama e escovar os dentes, quando voltei, ele estava só de shorts, e sorriu pra mim.
- Obrigado por ter vindo passar o feriado comigo.
- Obrigada por me receber. Eu amei estar aqui. Fez meu primeiro dia de ações de graça ser especial.
Ele me puxou para um abraço apertado, e eu fechei os olhos, aproveitando o momento.
- Boa noite, Bru.
- Boa noite, Harry.
Ele depositou um beijo suave na minha testa antes de se afastar. Ele entrou no banheiro e eu me deitei na cama, estava quase pegando no sono, senti Harry deitar na cama, ele me abraçou por trás, envolvendo minha cintura com seus braços quentes.
Ele beijou meu ombro, e eu adormeci sentindo o cheiro dele, me sentindo segura como nunca antes.