Marina Narrando
Fiquei ali, deitada sobre o peito do Luan, ouvindo as batidas do seu coração, que agora estavam mais calmas depois do que a gente tinha acabado de fazer. Passei a ponta dos dedos suavemente pelo seu abdômen, sem pressa, só aproveitando o momento. Mas percebi que ele estava diferente.
Ele estava calado demais.
Levantei um pouco a cabeça e olhei pra ele. O olhar fixo no teto, como se estivesse perdido em pensamentos.
- No que tá pensando? -perguntei, minha voz saindo baixa, quase um sussurro.
Luan piscou algumas vezes, como se tivesse sido arrancado de onde quer que estivesse. Então, olhou pra mim e deu um sorriso pequeno.
- Nada, só… -ele respirou fundo.- Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
Apoiei o queixo no peito dele e o encarei.
- Quer falar sobre isso?
Ele passou a mão no meu cabelo, ajeitando uma mecha atrás da minha orelha.
- É a parada do clipe da faculdade. Vou ter que compor uma música e gravar tudo em três semanas. Quero fazer algo bom, sabe? -assenti, entendendo.
- Você vai conseguir. Sei que vai.
Ele sorriu um pouco mais e me puxou pra um beijo demorado. Mas mesmo enquanto me beijava, eu sentia que tinha algo mais ali. Algo que ele não tava falando.
E eu queria saber o que era.
Quando o beijo terminou, me aconcheguei mais no peito dele, mas minha cabeça ainda trabalhava no que eu tinha percebido. Luan estava estranho. Não era só preocupação com o clipe.
Deslizei minha mão pelo abdômen dele devagar, sentindo a respiração dele ficar um pouco irregular.
- Você tá escondendo alguma coisa de mim, Luan. -soltei, sem rodeios.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de soltar um suspiro e fechar os olhos.
- Não tô escondendo nada, Marina… só…
- Só? -pressionei, erguendo a cabeça pra encará-lo.
Ele desviou o olhar, e aquilo me irritou. Me afastei um pouco, sentando na cama e puxando o lençol comigo.
- Fala logo. -cruzei os braços, esperando.
Luan passou a mão no rosto, claramente tentando decidir se falava ou não. Por fim, ele se sentou também, bagunçando o próprio cabelo.
- O Victor me procurou na festa de Halloween.
Meu corpo ficou tenso na hora.
- E o que ele queria?
- Ele quer te pedir em namoro. -Luan soltou, me olhando nos olhos.- Na verdade, nem sei como ainda não pediu.
Senti um nó na garganta.
- E você, o que disse?
Ele riu sem humor.
- Disse que não ia sair da sua vida só porque ele quer.
Um silêncio pesado se instalou no quarto. Eu tentava processar tudo isso. Victor… queria mesmo namorar comigo? Será que era isso que eu queria também?
Luan me observava, esperando minha reação. Mas antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ele se inclinou pra perto, sua mão segurando meu rosto com firmeza.
- Mas e você, Marina? -sua voz saiu rouca, carregada de emoção.- Você quer isso? Quer namorar ele?
Meu coração disparou. A resposta deveria ser fácil, mas naquele momento… eu simplesmente não sabia.
Minha boca abriu, mas nenhuma palavra saiu. O olhar de Luan me queimava, cheio de expectativa e algo mais, algo que ele nunca tinha dito em voz alta.
- Eu… -tentei falar, mas parei. Eu realmente queria isso? Namorar Victor?
Luan me conhecia bem o suficiente pra perceber minha hesitação. Ele soltou um riso baixo, sem humor, e se afastou, passando a mão no cabelo.
- Você nem sabe o que quer, né?
Isso me irritou.
- E você sabe o que quer, Luan? -rebati.
Ele me encarou por um longo momento antes de desviar o olhar.
- Eu sei que não quero te ver com ele.
Meu coração deu um salto.
- E o que você quer então? -minha voz saiu baixa, mas firme.
Luan demorou a responder. Ele mordeu o lábio, pensativo, e depois me encarou de novo.
- Quero você.
Minhas mãos apertaram o lençol.
- Só pra sexo?
Ele pareceu ofendido.
- Você sabe que não.
- Então o que a gente tá fazendo, Luan? Porque às vezes parece que é só isso. Você fica puto que o Victor quer algo sério comigo, mas você mesmo não toma uma atitude primeiro que ele.
Ele respirou fundo, como se estivesse tentando organizar os pensamentos.
- A gente nunca precisou de rótulos.
Revirei os olhos, sentindo a raiva crescer.
- Claro, porque é conveniente pra você, né? Assim não precisa lidar com nada sério.
Ele ficou em silêncio, mas eu vi no rosto dele que minhas palavras o atingiram.
Levantei da cama e comecei a vestir minhas roupas.
- Se você não sabe o que quer, então acho melhor eu dar espaço pra você descobrir.
Luan se levantou na mesma hora, segurando meu braço com delicadeza.
- Marina, espera…
Mas eu me soltei.
- Não. Dessa vez, não.
Vesti minha roupa rapidamente e saí do meu próprio quarto, meu coração martelando no peito. Eu precisava pensar. Precisava respirar. E, principalmente, precisava entender o que eu realmente queria.
Saí do dormitório às pressas, sentindo o ar frio do fim da tarde bater no meu rosto. Meu coração estava acelerado, e eu não sabia se era pela discussão com Luan ou pelo turbilhão de emoções que me consumia. Assim que me vi sozinha, as lágrimas começaram a escorrer sem controle.
Eu precisava sair dali. Respirar outro ar. Esfriar a cabeça.
Sem pensar duas vezes, peguei meu celular e pedi um carro. Meu destino? A casa do meu pai.
Ele morava num bairro próximo da universidade, mas eu quase nunca ia lá. Nossa relação sempre foi meio distante, ainda mais depois que vim morar no campus. Mas agora… agora, eu só queria estar longe de tudo e de todos.
O trajeto foi rápido, e eu passei a viagem toda olhando pela janela, tentando segurar o choro. Assim que o carro parou em frente ao prédio do meu pai, paguei e saí sem nem esperar o troco.
O porteiro já me conhecia, então subi pro andar dele, toquei a campainha e esperei, abraçando meu próprio corpo. Alguns segundos depois, a porta se abriu, e meu pai apareceu com uma expressão surpresa.
- Marina? Que surpresa ter voce aqui. -foi só ouvir a voz dele que eu desabei de vez.
- Pai…
Ele não precisou de mais nada. Apenas me puxou para um abraço apertado, enquanto eu chorava no peito dele.
Meu pai me apertou nos braços, sem fazer perguntas, sem soltar palavras vazias. Só ficou ali, me dando o conforto que eu nem sabia que precisava até aquele momento.
Depois de um tempo, ele me guiou para dentro e fechou a porta atrás de nós. O apartamento dele era do jeito que eu lembrava: organizado, mas sem muitos toques pessoais. Meu pai nunca foi um cara de grandes decorações ou lembranças espalhadas pela casa.
- Quer me contar o que aconteceu? -ele perguntou com calma, me guiando até o sofá.
Engoli em seco, sentindo um nó na garganta. Eu queria contar, queria despejar tudo, mas ao mesmo tempo… nem eu sabia direito o que dizer.
- Só precisava sair do campus um pouco. -murmurei, me encolhendo no sofá.
Ele me estudou por um momento, depois soltou um suspiro.
- Vou pegar algo pra você beber. Quer chá, café...?
- Chá. -respondi sem pensar muito.
Ele assentiu e foi até a cozinha, me dando um tempo para respirar. Enquanto esperava, olhei ao redor, tentando encontrar qualquer coisa que me distraísse. Foi quando vi um porta-retratos sobre o móvel ao lado da TV.
Era uma foto do meu pai comigo, Melanie e Justin, tirada há alguns anos. Eu sorri de leve ao ver aquilo. Apesar de tudo, ele ainda mantinha a gente por perto de alguma forma.
Pouco depois, ele voltou com uma xícara de chá e se sentou ao meu lado.
- Sabe que pode ficar aqui quanto tempo quiser, né?
Assenti, segurando a xícara entre as mãos para absorver o calor.
- Obrigada, pai.
Ele passou a mão no meu cabelo, um gesto pequeno, mas que me fez sentir um pouco mais segura.
Talvez, essa fuga fosse exatamente o que eu precisava.
Fiquei ali por um tempo, bebendo o chá em silêncio enquanto meu pai assistia a algum programa qualquer na TV. Ele não pressionou, não fez perguntas demais. Só ficou ali, me deixando saber que eu tinha um lugar seguro.
Mas minha mente não parava. Luan. O que ele disse, a forma como ele simplesmente jogou tudo aquilo no ar e depois não fez nada. Como se eu fosse só mais um caso, um passatempo.
Suspirei e peguei meu celular. Justin tinha mandado algumas mensagens perguntando onde eu estava, Bruna, Olívia e Virgínia também. Ignorei por enquanto. Não queria falar com ninguém.
Meu pai percebeu e, depois de um tempo, quebrou o silêncio:
- Marina, eu sei que não sou o pai mais presente do mundo, mas conheço essa expressão. -levantei o olhar para ele, franzindo a testa.
- Que expressão?
- A de quem tá tentando fingir que tá bem, mas na verdade tá desmoronando por dentro.
Ri sem humor e abaixei o olhar para minha xícara.
- Talvez eu esteja.
Ele ficou em silêncio por um momento antes de continuar:
- É um cara? -respirei fundo e assenti, sem coragem de olhar para ele.- Quer falar sobre isso?
- Ele… -comecei, mas travei. Como eu explicaria tudo isso? Como eu falaria que me entreguei pra alguém que parecia sentir o mesmo, mas que no final das contas só me via como algo casual?
- Ele te machucou? -balancei a cabeça.
- Não desse jeito.
- Então de outro jeito. -engoli em seco e respirei fundo.
- Eu achei que ele gostasse de mim… Mas acho que ele só gosta da ideia de mim, da diversão, do que a gente tem. Só que eu… eu queria mais.
Dizer aquilo em voz alta fez meu peito doer ainda mais. Meu pai ficou pensativo por alguns segundos e depois disse:
- Se ele não quer te dar o que você precisa, então ele não merece você. -fechei os olhos, segurando as lágrimas.
- O problema é que, mesmo sabendo disso, ainda dói.
Ele passou um braço ao meu redor e me puxou para um abraço lateral.
- Vai doer por um tempo, filha. Mas vai passar.
Fechei os olhos e me permiti ficar ali. Talvez, só talvez, meu pai estivesse certo.
Um tempo depois, me despedi do meu pai e voltei pro campus, ele queria me levar, mas preferi voltar sozinha. Quando cheguei no campus, já estava noite, e pelo horário, o pessoal estaria no refeitório jantando, o que era bom, não teria interrogatório das meninas, pelo menos não agora.
Assim que entrei no dormitório, parei na porta por um segundo, surpresa ao ver Victor ali. Ele ergueu os olhos do celular assim que me viu, soltando um suspiro pesado.
- Onde você estava? -ele perguntou, sem rodeios.
Fechei a porta atrás de mim, sem responder de imediato.
- Por aí. -murmurei, largando minha bolsa na cama.
- Por aí? -ele riu sem humor.- Marina, eu passei o dia inteiro sem saber de você. Justin também. Olivia, Bruna e Virgínia estavam preocupadas. -revirei os olhos, cruzando os braços.
- Eu só precisava de um tempo sozinha. Eu sei me virar.
Victor me observou por um momento e depois se levantou, caminhando até mim.
- Foi por causa dele, não foi?
Engoli em seco e desviei o olhar.
- Marina… -ele suspirou, passando a mão pelos cabelos.- Você não merece isso.
- Eu sei. -respondi de imediato, porque era verdade. Eu sabia. Mas saber não fazia com que doesse menos.
- Então por que você ainda tá nessa?
- Eu não sei! -explodi, sentindo as lágrimas se acumularem de novo.- Eu queria saber, Victor, de verdade. Queria que fosse fácil.
Ele me olhou por um momento e então deu um passo à frente, colocando as mãos nos meus ombros.
- Então deixa eu tentar fazer as coisas fáceis pra você. -franzi a testa, confusa.
- Como assim?
Ele hesitou por um momento, como se escolhesse bem as palavras.
- Marina, eu gosto de você. De verdade. E eu tô cansado de ver você se machucar por alguém que não tá te dando o que você merece. -prendi a respiração.
- Victor…
- Eu sei que você pode não estar pronta pra isso agora, mas eu tô aqui. E se você me deixar, eu quero tentar.
Ele segurou meu rosto suavemente, me forçando a encará-lo.
- Eu quero ser o cara que faz você esquecer esse idiota.
Senti meu coração acelerar. Eu sabia que Victor era um cara incrível. Mas seria justo com ele aceitar isso quando ainda estava com Luan na cabeça?
Fiquei em silêncio por um momento, sentindo o peso daquelas palavras.
- Eu… eu tenho medo de te machucar, Victor. -murmurei, minha voz mal saindo.- Eu sou uma bagunça. -ele soltou uma risada baixa, sem humor.
- Marina, você já tá me machucando. -levantei o olhar para ele, confusa, e ele continuou.- Você quer alguém que só te quer pra sexo. E isso dói. Dói porque eu tô aqui o tempo todo, pronto pra te dar muito mais do que ele.
Meu coração apertou.
- Victor…
- Ele não é sua única opção. ele me interrompeu, apertando levemente minha mão.- Nunca foi.
Senti um nó se formar na minha garganta quando ele levou minha mão até o peito dele, onde seu coração batia forte.
- Eu sempre estive aqui, esperando. -ele disse, a voz baixa e sincera.- E se você me deixar, eu quero ser a pessoa que te dá tudo o que você merece. -ele respirou fundo antes de finalmente perguntar:- Marina, você quer namorar comigo?
Meu coração disparou. Ele me olhava com tanta expectativa, com tanta certeza, que meu peito se apertou. Eu merecia isso. Eu sabia que sim. Mas estava pronta para dar esse passo?
Eu engoli em seco, meu coração batia tão forte que eu conseguia ouvir nos meus próprios ouvidos. Victor esperava uma resposta, sua mão quente ainda segurando a minha.
Eu abri a boca, mas nada saiu. Ele estava me oferecendo exatamente o que eu dizia querer: um relacionamento de verdade, estabilidade, alguém que não fosse embora depois de conseguir o que queria. Então por que eu hesitava?
- Marina? -ele chamou baixinho, seus olhos presos nos meus.
- Eu… -minha voz falhou.
Eu não podia mentir para ele. Victor era incrível, um cara maravilhoso, e eu me sentia confortável ao lado dele. Mas e aquele aperto no peito? Aquela sensação de que algo estava faltando?
Eu sabia o que era. Ou melhor, quem era.
Fechei os olhos por um segundo, tentando me encontrar no meio daquela bagunça de sentimentos. Eu queria esquecer Luan. Queria seguir em frente. E Victor estava ali, disposto a me ajudar a fazer isso.
Então, respirei fundo e, antes que pudesse me dar tempo de pensar mais uma vez, sussurrei:
- Sim.
O rosto dele se iluminou, um sorriso enorme tomando conta de seus lábios.
- Sério?
Eu assenti devagar, tentando ignorar o nó no meu estômago.
Victor segurou meu rosto entre as mãos e me beijou, um beijo cheio de emoção, como se ele estivesse despejando tudo o que sentia naquele momento. E eu retribuí, porque queria sentir aquilo, queria acreditar que poderia dar certo.
Eu ri, levemente envergonhada, enquanto Victor segurava minha mão e me puxava para o refeitório. O calor de sua palma contra a minha era reconfortante, e ele falava com tanta certeza que eu quase acreditei.
- Você não vai se arrepender da decisão que tomou, eu prometo. -ele sorriu, apertando meus dedos entre os dele.
Eu sorri de volta, ainda tentando me acostumar com a ideia de estar em um relacionamento. De ser namorada de alguém.
Quando passamos pela porta do refeitório, Victor soltou minha mão e, antes que eu pudesse entender o que ele estava fazendo, subiu em um banco vazio, batendo palmas para chamar a atenção de todos.
- Ei, pessoal! -ele gritou, e, em segundos, todas as conversas cessaram, os olhares voltados para ele.
Minha boca se abriu em choque, já sabendo que vinha alguma loucura por aí.
- Só queria anunciar que essa mulher incrível aqui… -ele apontou para mim.- Agora é minha namorada!
O refeitório explodiu em gritos e assovios, e eu arregalei os olhos, rindo surpresa. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Victor me puxou para subir no banco ao lado dele.
- Vem cá, namorada.
Eu ri, levemente envergonhada, mas achando graça do que ele estava fazendo.
- Você é doido!
- Sou doido por você!
E então ele me beijou, e o refeitório inteiro vibrou, aplaudindo e gritando enquanto nossos lábios se encontravam.
O beijo foi intenso, e mesmo no meio daquela confusão de barulhos, foi como se só existíssemos nós dois.
Quando nos separamos, ainda sorrindo, Victor me ajudou a descer do banco. Meu coração estava disparado, tanto pela adrenalina da cena quanto pelo significado daquilo.
Mas foi então que meus olhos varreram o refeitório e encontraram o olhar de Luan.
A expressão dele era fechada, quase inexpressiva, mas eu o conhecia bem demais para não enxergar a decepção por trás de seus olhos.
Meu peito apertou.
O que ele pensou? Que eu ficaria esperando por ele? Que aceitaria ser apenas uma opção?
Abaixei os olhos e segurei mais forte a mão de Victor, tentando afastar qualquer outro pensamento.
Eu tinha tomado uma decisão. E não ia voltar atrás.