Depois do beijo, Marina me olhava como se esperasse algo de mim. Algo que eu não sabia como dar.
Eu ainda estava com as mãos em seu rosto, o polegar acariciando sua pele sem que eu percebesse. Era a primeira vez que sentia esse tipo de vulnerabilidade com ela. Não era só desejo. Não era só ego. Era mais… e isso me assustava.
- E agora? -ela perguntou, a voz quase um sussurro.
Respirei fundo, fechando os olhos por um segundo. Eu queria dizer que ficava. Que ela era minha, e eu era dela. Mas a realidade era mais complicada.
- Eu não sei, Marina.
Ela riu sem humor, se afastando um passo.
- Sério? Depois de tudo isso, você vem com “eu não sei”?
Passei as mãos no rosto, frustrado comigo mesmo.
- Você não entende.
- Então me explica! -ela cruzou os braços, me encarando com expectativa.
Engoli seco. Como eu poderia explicar que ela me deixava completamente fora de mim? Que quando eu via ela com o Victor, a vontade que eu tinha era de socar a cara dele? Que cada vez que a gente ficava, eu me apegava mais, mas não sabia como admitir isso sem sentir que estava perdendo o controle?
- Marina… eu não quero te perder.
- E é exatamente isso que vai acontecer se você continuar fugindo do que sente.
As palavras dela bateram forte. Meu peito apertou.
Ela esperou mais alguns segundos, mas quando percebeu que eu não ia dizer mais nada, soltou um suspiro decepcionado.
- Quer saber? Esquece. Eu já devia ter imaginado que você nunca ia me levar a sério.
Ela virou de costas, indo em direção à porta.
- Marina, espera...
- Boa noite, Luan.
Ela abriu a porta, esperando que eu saísse, suspirei frustrado e me retirei do seu dormitório.
Enquanto voltava pro meu, estava sentindo um vazio esquisito. Eu deveria voltar e ir atrás dela. Deveria ter segurado sua mão e dito que queria tentar. Mas não fiz nada.
Agora
A música alta vibrava no salão decorado com luzes roxas e laranjas e abóboras iluminadas, enquanto eu mantinha um braço ao redor da cintura de Lauren. Ela estava fantasiada de vampira, com um vestido justo e uma maquiagem sombria, e parecia satisfeita com a atenção que estava recebendo. Mas minha mente estava longe dali.
Até que os olhos de todos — inclusive os meus — foram atraídos para a entrada do salão.
Marina.
Puta merda.
Ela entrou com Victor ao lado, e o salão pareceu parar por um segundo. A mulher-gato mais sexy que eu já tinha visto. O macacão preto colado ao corpo, destacando cada curva, os saltos altos dando ainda mais presença, e aquele olhar de quem sabia exatamente o efeito que causava.
E eu odiava o fato de que Victor estava ali com ela.
Ele usava a fantasia de Batman, e a ironia me acertou em cheio. Era como se esfregassem na minha cara o que eu não tinha coragem de fazer.
Lauren falou algo ao meu lado, mas eu nem ouvi. Meus olhos estavam presos em Marina. E o pior? Ela sabia disso.
Ela passou o olhar pelo salão, até me encontrar. Um pequeno sorriso surgiu no canto de sua boca, mas foi rápido, logo substituído por uma expressão desafiadora. Como se dissesse: Tá gostando da visão, Luan? Pois bem, olha, mas não toca.
Victor, percebendo minha reação, passou o braço ao redor da cintura dela e murmurou algo em seu ouvido. Marina riu, jogando o cabelo para o lado, como se não tivesse um único peso na consciência.
Ótimo. Se ela queria jogar, eu também podia.
Me virei para Lauren, deslizando minha mão pela lateral do seu corpo e puxando-a um pouco mais para perto. Ela sorriu, sem nem desconfiar que aquilo não tinha nada a ver com ela.
Mas ao levantar os olhos, eu ainda estava olhando para Marina. E ela sabia.
Me afastei de Lauren, dizendo que ia pegar algo para nós dois bebermos. Eu precisava de um ar, de um maldito minuto sem aquele macacão colado da Marina na minha cabeça.
Fui até o bar improvisado no canto do salão e pedi duas tônicas. Estava esperando quando senti um perfume familiar ao meu lado.
- Dois drinques, por favor. -Marina falou, encostando-se casualmente no balcão.
Olhei de canto de olho. O brilho da luz roxa refletia no couro de sua roupa, realçando ainda mais cada curva. Me fodi.
- Para você e para o Batman? -perguntei, tentando soar indiferente. Ela sorriu, de um jeito divertido.
- Sim. Você e sua vampirinha também querem combinar até na bebida?
Revirei os olhos.
- Engraçadinha.
O barman entregou minhas bebidas, e eu peguei uma, tomando um gole longo. Marina cruzou os braços, me analisando.
- O que foi? -perguntei, irritado com o olhar intenso dela.
- Nada. Só estou admirando a ironia da situação. -ela pegou os drinques dela e do Victor.- Você fica com ciúme quando estou com ele, mas olha só, você também não tá sozinho. -soltei uma risada seca.
- Se eu quisesse estar com você, Marina, eu estaria.
Ela arqueou uma sobrancelha, se aproximando um pouco. O suficiente para que eu sentisse seu perfume melhor.
- Ah, é? -seus olhos escuros brilharam.- Então por que tava me comendo com os olhos quando entrei?
Apertei a mandíbula.
Marina riu baixo, balançando a cabeça. Depois, pegou os copos e se afastou, mas não antes de soltar, de forma casual:
- Sua vampira tá te esperando, Luan. Melhor voltar antes que ela perceba que você tá ocupado demais me desejando.
E saiu.
Filha da mãe.
Respirei fundo, tentando ignorar a onda de calor que subiu pelo meu corpo. Eu não podia deixar Marina entrar na minha cabeça daquele jeito, não de novo. Voltei para onde Lauren estava, mas meu humor já tinha mudado.
- Demorou, hein? -ela sorriu ao pegar a bebida.
- A fila tava grande. -dei um gole, sem realmente prestar atenção nela. Meus olhos estavam ocupados demais acompanhando Marina enquanto ela entregava o drinque para Victor. Ele disse algo no ouvido dela, e ela riu, inclinando-se para beijá-lo.
Apertei a garrafa de vidro na minha mão.
- Tá tudo bem? -Lauren perguntou, encostando-se em mim.
- Claro. -menti, colocando um braço ao redor da sua cintura. Mas eu sabia que não estava nada bem.
Principalmente quando Marina olhou para mim enquanto beijava Victor. Como se soubesse exatamente o que estava fazendo comigo.
E pior.
Ela sabia.
A música alta preenchia o salão enquanto eu girava Lauren no ritmo da batida. Eu não estava realmente prestando atenção nela ou na dança, só deixava meu corpo seguir os movimentos automáticos. Minha mente ainda estava presa naquela troca de olhares com Marina.
Foi então que notei um burburinho na entrada. Virei o rosto e vi Chloe chegando, vestida de Rainha Vermelha. O vestido vermelho volumoso, a maquiagem dramática e a coroa na cabeça a faziam parecer saída direto de um filme.
- Uau, quem diria… -Lauren comentou, seguindo meu olhar.
Chloe não estava sozinha. Ao lado dela, Gabriel, amigo de Harry e Victor, usava uma fantasia de Chapeleiro Maluco. A combinação das fantasias chamou atenção, e algumas pessoas até assoviaram quando eles passaram.
- Parece que temos uma nova dupla dinâmica. -Lauren brincou, me puxando para continuar dançando.
Mas eu continuei observando enquanto Chloe e Gabriel se aproximavam do bar. Eu caminhei pro no canto do salão, não estava mais afim de dançar, estava com um copo na mão, observando tudo ao redor. Lauren me acompanhou e dançava perto de mim, mas minha atenção estava em outro lugar.
Marina.
Ela estava ali, no meio da pista, dançando com Victor. A fantasia dela fazia com que todos olhassem para ela. E eu odiava isso.
Ou talvez odiasse o fato de estar olhando também.
- Tá encarando o quê? -Justin apareceu ao meu lado, segurando um copo e com um sorrisinho de canto.
- Nada. -dei um gole na minha bebida.
- Sei. Nada tem nome, é ruiva e usa um macacão de couro. -Anthony debochou, chegando junto com Ryan. Revirei os olhos.
- Vocês são muito engraçados.
- Tão engraçados quanto você negando que tá morrendo de ciúmes. -Ryan riu.
Passei a língua pelos dentes, me segurando para não dar uma resposta atravessada. Eu nem deveria estar me importando com isso. Não depois daquela conversa que tive com Marina. Não depois de tudo que foi dito e… não foi resolvido.
Mas ali estava ela, na minha frente, dançando com Victor como se nada tivesse acontecido.
- Relaxa, cara. -Justin deu um tapa leve no meu ombro.- Você que não quis, alguém vai querer.
Fiz uma careta. Ele tinha razão, mas eu preferia que ele estivesse errado.
Foi então que meu olhar cruzou com o de Marina. Ela sabia que eu estava olhando. E ao invés de desviar, ela sorriu. Aquele sorrisinho que me fazia perder a paciência.
Ela queria provocar.
E estava conseguindo.
Fiquei ali, parado, observando a pista de dança, a música vibrando ao meu redor, mas minha mente focada em uma única pessoa. Lauren tinha ido dançar com as amigas, e os caras tinham saído para buscar mais bebida. Eu deveria ir atrás deles, mas algo me prendeu no lugar.
Marina cochichou algo no ouvido de Victor e, logo depois, se afastou dele. Ele a observou por um momento antes de se virar e sair da pista. Quando seus olhos me encontraram, vi sua expressão mudar por um segundo antes de ele tomar uma decisão e caminhar diretamente na minha direção.
Cruzei os braços, esperando pelo que quer que fosse aquilo.
- E aí, cara. -ele parou na minha frente, parecendo casual demais para o que quer que fosse dizer.
- Fala. -respondi no mesmo tom.
Victor ficou em silêncio por um segundo, como se medisse as palavras antes de soltá-las.
- Eu quero pedir a Marina em namoro. Isso vai ser um problema pra você?
Minha mandíbula enrijeceu.
- Isso é uma pergunta ou um aviso? -ele deu um sorriso fraco.
- Depende da sua resposta.
Apertei o copo na minha mão antes de respirar fundo e responder.
- Não vou sair da vida dela só porque você quer.
Victor assentiu devagar, sem parecer surpreso.
- Já esperava essa resposta. Mas já que estamos falando de expectativas, quero deixar algo claro. Eu sei da conversa que você teve com ela. -minha expressão se fechou.
- E daí?
- E daí que você teve a chance de fazer algo a respeito. E desperdiçou. -ele cruzou os braços, me analisando.- A Marina está começando a se sentir usada. Por mim. Por você.
Minha garganta secou, mas não reagi.
- Se você sabe disso, por que continua com ela?
- Porque, diferente de você, eu vou fazer alguma coisa. -ele inclinou a cabeça.- Se ela quer algo sério, eu quero estar lá pra isso. -ri sem humor.
- Você nem sabe se é um relacionamento sério que ela quer. -Victor deu de ombros.
- Tenho quase certeza que sim. Mas a questão não é essa, né? A dúvida real é: eu sou o cara que ela quer isso?
Me calei. Porque, no fundo, essa era a única pergunta que realmente importava.
Ele deu um tapinha no meu ombro antes de se afastar.
- Mas isso irei descobrir em breve.
Fiquei parado ali, vendo Victor desaparecer na multidão, enquanto a pergunta martelava na minha cabeça.
E se fosse comigo que ela quisesse isso?
E se, por medo, eu tivesse acabado de jogar Marina direto para os braços de outro cara?
Fiquei ali, imóvel, enquanto a música pulsava ao meu redor, mas minha mente estava distante. O que Victor disse não saía da minha cabeça.
"Se ela quer algo sério, eu quero estar lá pra isso."
Aquilo me incomodava mais do que eu queria admitir.
Respirei fundo, passei a mão pelo rosto e fui até o bar. Justin, Anthony e Ryan estavam lá, cada um segurando um copo e conversando animadamente sobre alguma coisa que eu não prestei atenção.
- Luan! -Ryan me chamou, batendo no meu ombro.- Demorou, cara.
- É, cadê a Lauren? -Justin perguntou, arqueando uma sobrancelha.
- Foi dançar com as amigas. -peguei um copo com o barman e virei metade do líquido sem nem perguntar o que era.
- E você, todo pensativo aí? -Anthony riu.- Parece que viu um fantasma.
- Mais ou menos isso. -murmurei, apoiando os cotovelos no balcão. Justin me analisou por um segundo.
- Tem a ver com a Marina?
Não respondi de imediato, mas também não precisei. Justin já me conhecia o suficiente para entender o silêncio.
- Victor quer pedi-la em namoro. -soltei de uma vez, e os caras se entreolharam.
- E você acha que ela vai aceitar? -Anthony perguntou, curioso.
- Eu não sei. -suspirei.- O problema é que ele sabe da conversa que eu tive com ela. E agora tá me jogando na cara que eu perdi minha chance. -Ryan assobiou.
- Putz.
- E o pior… -continuei, encarando o copo.- Ele disse que ela tá começando a se sentir usada. Por mim e por ele.
O silêncio se instalou por um momento antes de Justin soltar um suspiro pesado.
- E ele tá errado?
Levantei o olhar para ele.
- Como assim?
- Você quer ela só pra você? -Justin cruzou os braços.- Ou tá incomodado porque outro cara quer?
Fiquei calado por um instante.
- Eu não sei.
- Você sabe. -Justin rebateu.- Só não quer admitir.
Anthony e Ryan ficaram em silêncio, apenas observando a conversa.
- Cara… -Ryan mexeu no copo.- Se ela realmente aceitar namorar o Victor, você consegue vê-la com ele sem se importar?
A pergunta pairou no ar como uma bomba prestes a explodir.
Porque, naquele momento, eu já sabia a resposta.
E ela não era nada boa.
Fiquei ali, parado, olhando para o copo, mas sem realmente enxergá-lo. A música alta, as risadas, o cheiro de bebida misturado com perfume… tudo parecia distante.
Porque, pela primeira vez, eu tive que encarar a verdade: a ideia de ver Marina nos braços de outro cara me incomodava mais do que eu queria admitir.
- Então? -Justin insistiu.
Pensei por um momento antes de responder.
- Eu não sei como responder essa porra.
Anthony riu pelo nariz.
- Ah, sabe sim.
Bufei, jogando a cabeça para trás.
- Qual é, cara? -Ryan se encostou no balcão.- Você e Marina estão nessa há meses. Nenhum dos dois se afastou. Se fosse só sexo, já teria morrido há tempos.
- Mas e se eu tentar algo com ela e der errado? -questionei, olhando para eles.- A gente tem algo bom agora. Se estragar…
- E se der certo? -Justin rebateu, arqueando a sobrancelha.- Vai viver sua vida inteira fugindo disso porque tem medo de dar errado?
Engoli em seco.
- E se eu não for o que ela quer?
- Então você descobre. Mas, se não arriscar, vai assistir outro cara ocupando o seu lugar. -Justin deu de ombros.- E, pelo que eu tô vendo, não sei se você tá preparado pra isso.
Fiquei calado.
Porque eu não estava.
Eu nunca tinha parado para pensar no que eu queria de verdade com Marina. Até agora.
A verdade era que eu gostava dela. Muito mais do que deveria.
E isso me assustava pra caralho.
- Falando nela… -Ryan murmurou.
Meu olhar foi automaticamente para onde ele estava olhando.
Marina voltou para a pista dançando, enquanto começava Last Friday Night, os movimentos fluidos, um sorriso de canto nos lábios enquanto Victor a segurava pela cintura, puxando-a para mais perto.
Minha mandíbula travou.
Eu conhecia aquele olhar dela.
Era o olhar de alguém tentando esquecer algo.
Ou alguém.
E, no fundo, eu sabia que esse alguém era eu.
Droga.
O que eu ia fazer agora?